Pesquisadores inicialmente pensaram que deveria ser um erro: descoberta microscópica em poça de água ultrapassa os limites do que acreditávamos ser possível
O resultado chamou atenção justamente por parecer impossível em um primeiro momento
Uma pequena ameba encontrada em um córrego de água quente na Califórnia fez os cientistas questionarem um antigo limite da vida. A ameba do fogo, chamada cientificamente de Incendiamoeba cascadensis, consegue se reproduzir a 63°C e sobreviver a uma exposição de 70°C por 5 minutos. A descoberta, confirmada em laboratório por pesquisadores dos Estados Unidos, mostrou que organismos com células complexas conseguem suportar temperaturas maiores do que se acreditava.
Onde os pesquisadores encontraram a ameba do fogo?
A ameba do fogo foi encontrada em um pequeno curso de água termal no Parque Nacional Vulcânico Lassen, na Califórnia, Estados Unidos. Segundo a Universidade de Syracuse, a descoberta ocorreu em um afluente de aparência comum, longe das famosas piscinas ácidas do parque.
A pesquisadora Beryl Rappaport participou da coleta de amostras em áreas com águas extremamente quentes. A equipe precisou utilizar ferramentas compridas para evitar o contato direto com a água e o terreno instável. Em um dos pontos, os cientistas recorreram até a uma pinça de churrasco para alcançar o material.
As amostras foram levadas ao laboratório, onde os organismos passaram a ser cultivados em ambientes com temperatura controlada. Foi durante esse processo que uma pequena ameba chamou a atenção por continuar crescendo em condições que impedem a reprodução de muitos outros seres vivos.

Como provaram que a ameba consegue se reproduzir a 63°C?
Os pesquisadores confirmaram a reprodução observando a divisão celular da ameba em laboratório. O organismo continuou se multiplicando mesmo quando a temperatura ultrapassou o limite de 60°C, anteriormente considerado o máximo conhecido para a reprodução dos eucariontes, seres vivos cujas células possuem núcleo.
Em vez de apenas encontrar um microrganismo vivo na água quente, a equipe conseguiu acompanhar sua multiplicação. Isso permitiu distinguir a capacidade de continuar ativo da capacidade de produzir novas células.
Os testes identificaram diferentes respostas conforme a temperatura aumentava:
Como uma ameba tão pequena consegue sobreviver a esse calor?
A ameba utiliza mecanismos de proteção celular que ajudam suas estruturas internas a resistir às altas temperaturas. A NASA, que financiou parte da pesquisa, informou que os cientistas analisaram o DNA do organismo e encontraram características ligadas à proteção das proteínas e do material genético.
O calor excessivo pode alterar a forma das proteínas e danificar partes importantes das células. Na ameba estudada, os pesquisadores identificaram processos que podem reduzir esses efeitos:
- Proteção das proteínas: características de sua estrutura podem ajudar essas moléculas a permanecer estáveis mesmo sob calor intenso.
- Reparo do DNA: a atividade de genes ligados à manutenção do material genético aumenta em condições de alta temperatura.
- Controle das estruturas internas: processos celulares ajudam a manter o funcionamento de partes necessárias à sobrevivência.
- Formação de cistos: quando o calor aumenta demais, a ameba pode assumir uma forma protegida e temporariamente inativa.
Essas características ajudam a explicar a resistência observada. Os cientistas ainda investigam quanto cada mecanismo contribui para o resultado, já que a presença de determinados genes não prova, sozinha, que eles sejam responsáveis pela sobrevivência.
Por que a descoberta muda o que sabemos sobre os limites da vida?
A descoberta mostrou que células com núcleo conseguem se reproduzir em temperaturas maiores do que o limite anteriormente observado. Esse grupo é conhecido como eucarionte e inclui animais, plantas, fungos e organismos microscópicos, como a ameba estudada.
Essas células possuem estruturas internas delicadas, como o núcleo que guarda o DNA. Por isso, o calor representa um problema: ele pode danificar proteínas e membranas necessárias para manter o organismo vivo.
Ambientes naturais muito quentes não são exclusivos das fontes termais. No México, por exemplo, uma caverna com cristais de até 12 metros apresenta temperaturas próximas de 60°C. No caso da ameba californiana, a novidade é a capacidade comprovada de se multiplicar sob calor extremo.
Existem bactérias e outros microrganismos capazes de suportar temperaturas ainda maiores. A diferença é que eles possuem uma organização celular distinta, sem o mesmo tipo de núcleo e de estruturas internas encontradas nos eucariontes.
A ameba do fogo poderia sobreviver em outros planetas?
A descoberta amplia as condições de temperatura que os cientistas podem considerar ao investigar possíveis ambientes habitáveis fora da Terra. Organismos capazes de suportar calor extremo ajudam a estudar quais características seriam necessárias para a vida existir em lugares diferentes do nosso planeta.
Isso não significa que a ameba conseguiria viver em qualquer ambiente quente. Ela depende de água, alimento, condições químicas adequadas e outros organismos que sustentem sua sobrevivência.
A pesquisa também não encontrou vida extraterrestre. O resultado mostra que a resistência de células com núcleo ao calor pode ser maior do que os testes anteriores indicavam, permitindo que os cientistas ampliem suas investigações.
O que os pesquisadores pretendem investigar depois dessa descoberta?
A equipe pretende procurar outros microrganismos capazes de resistir a temperaturas elevadas. Análises de material genético já encontraram sinais de organismos semelhantes em áreas geotérmicas da Nova Zelândia e do Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos, embora isso não confirme a presença da mesma espécie em todos esses locais.
Outro caminho envolve estudar proteínas que continuam funcionando sob calor intenso. Essas características poderão contribuir para pesquisas sobre processos industriais em altas temperaturas e desenvolvimento de materiais mais resistentes, mas ainda não existe uma aplicação comercial comprovada para a nova ameba.
A investigação continua no laboratório de Angela Oliverio, na Universidade de Syracuse, incluindo análises de microrganismos que vivem em ambientes aquecidos pela atividade humana. O próximo desafio será identificar outras espécies com resistência semelhante e compreender quais processos permitem sua sobrevivência.
Os resultados publicados na revista Cell confirmaram que a ameba encontrada na Califórnia consegue crescer e se dividir sob condições anteriormente consideradas excessivas para células com núcleo. Novos testes poderão mostrar se esse recorde é realmente o maior limite de reprodução desse grupo ou apenas o mais alto já observado.
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