Pequenos pedaços de tecido viajaram em Marte presos a um robô e sugeriram que a poeira marciana desgasta menos que a lunar
Os grãos da poeira marciana são mais arredondados que os da Lua, mas ainda existem partículas ultrafinas de até 100 nanômetros

O que você vai ver
- Para que servem os retalhos de traje espacial presos ao rover.
- Quanto tempo os retalhos ficaram expostos à poeira marciana.
- O que a comparação com a poeira lunar revelou.
- Por que as partículas ultrafinas ainda preocupam os cientistas.
- O que o estudo ainda não prova.
Pequenos retalhos de material de traje espacial, cada um com menos de uma polegada quadrada, viajam escondidos entre sensores, câmeras e ferramentas de navegação do rover Perseverance desde que ele pousou em Marte, e uma nova análise desses retalhos sugere que a poeira marciana pode ser menos abrasiva e menos irritante do que a poeira lunar que atormentou os astronautas da Apollo.
Para que servem os retalhos de traje espacial no rover?
Pesquisadores da Washington University in St. Louis, liderados por Scott VanBommel, usaram os pequenos pedaços de tecido e de Teflon presos ao Perseverance como corpos de prova expostos de forma contínua à poeira marciana, com o objetivo de medir o desgaste que ela provoca em superfícies que, no futuro, poderiam compor trajes de astronautas em missões tripuladas.

Quanto desgaste a poeira causou?
Depois de 1.645 sóis, ou dias marcianos, de exposição, os retalhos mostraram pouco desgaste visível, segundo a equipe; a análise detalhada dos grãos de poeira, feita a partir de dados do instrumento PIXL do próprio rover, mostrou partículas muito mais lisas e arredondadas do que os grãos angulosos da Lua, como pedras de rio moldadas por bilhões de anos de vento.
Por que a poeira marciana parece menos abrasiva que a lunar?
A referência de comparação vem das missões Apollo: a poeira lunar riscava visores, degradava trajes e, ao entrar nos módulos lunares, contaminava o ar e chegava a causar sintomas parecidos com os de uma crise alérgica nos astronautas. Como os grãos marcianos são mais arredondados e os retalhos do Perseverance mostraram pouco desgaste, a equipe de VanBommel considera que a poeira de Marte pode arranhar menos equipamentos e irritar menos os pulmões do que a da Lua.
Que risco a poeira ainda representa?
Apesar do resultado animador, os cientistas identificaram partículas ultrafinas de até 100 nanômetros, pequenas o bastante para penetrar fundo nos pulmões e até entrar na corrente sanguínea, como ocorre com a poluição do ar na Terra. Dados do mesmo rover também mostraram que a poeira marciana contém percloratos e outros compostos potencialmente tóxicos, além de ser rica em enxofre, ferro e sílica, o que, segundo a equipe, exige atenção redobrada no projeto de habitats, trajes e filtros de ar para futuras missões tripuladas.

O que o estudo ainda não prova?
A própria equipe trata o resultado como indicativo, não definitivo: a pesquisadora Abigail Knight afirma que as propriedades eletrostáticas da poeira marciana provavelmente fazem com que ela adira de forma preferencial a certas superfícies, mas o artigo não mede essa adesão diretamente, e o risco de exposição a compostos tóxicos, segundo VanBommel, depende sobretudo da dose e da duração do contato, algo que a análise dos retalhos sozinha não consegue determinar.
Quem acompanha outras histórias recentes do espaço também pode se interessar pelo caso do rastro de gás de 26 anos-luz que reforça a hipótese de um microquasar na Grande Nuvem de Magalhães, outro estudo que tenta decifrar pistas deixadas por instrumentos de precisão.
Mais detalhes sobre o estudo estão disponíveis na publicação original no Phys.org.
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