Pequenos caranguejos estavam pegando carona em cobras no oceano e o DNA revelou passageiros que ninguém havia identificado antes
DNA de crustáceos coletados em serpentes-marinhas revelou três espécies costeiras inesperadas viajando sobre os répteis no Pacífico
Pequenos crustáceos encontrados agarrados a serpentes-marinhas na costa do Pacífico da Costa Rica permaneceram sem identificação precisa por mais de uma década. Agora, análises genéticas mostraram que os caranguejos caroneiros pertenciam a três espécies costeiras inesperadas, e não ao grupo de caranguejos oceânicos que os pesquisadores inicialmente imaginavam. O achado revela como formas juvenis podem usar até animais vivos como superfícies temporárias no mar.
Quem eram os caranguejos caroneiros encontrados nas serpentes?
Os animais estavam presos ao corpo da serpente-marinha-de-barriga-amarela, Hydrophis platurus, espécie totalmente adaptada à vida pelágica. Em levantamentos realizados no Pacífico da Costa Rica, pesquisadores encontraram pequenos crustáceos em dezenas dessas serpentes, além de camarões e outros organismos associados.
Grande parte dos caranguejos estava no estágio de megalopa, fase de transição entre a larva planctônica e o jovem que começará a assumir a forma e o modo de vida do adulto. Como a anatomia nessa etapa difere bastante da fase adulta, a identificação apenas pela aparência era difícil.
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Por que os cientistas inicialmente identificaram os passageiros de forma diferente?
A principal suspeita era de que fossem formas jovens do gênero Planes. Esses caranguejos são especialistas em viver sobre objetos flutuantes e animais marinhos, especialmente tartarugas, e uma ocorrência juvenil do grupo já havia sido registrada entre os crustáceos encontrados nas serpentes.
Os exemplares sem identificação foram preservados em álcool e incorporados à coleção do Florida Museum of Natural History. Mais de uma década depois, pesquisadores retornaram ao material e utilizaram sequenciamento genético para descobrir quem realmente estava viajando sobre as serpentes.
- 106 megalopas foram selecionadas para análise genética;
- 102 produziram sequências do gene COI;
- Três espécies distintas foram reconhecidas;
- Nenhuma das megalopas analisadas pertencia ao gênero Planes;
- Todos os três grupos identificados pertenciam à família Grapsidae.
Este vídeo mostra diretamente a serpente-marinha-de-barriga-amarela, hospedeira dos caranguejos estudados.
O DNA revelou quais eram os caranguejos caroneiros?
Os pesquisadores analisaram principalmente os genes mitocondriais COI e 16S. As sequências revelaram três grupos genéticos que corresponderam a Pachygrapsus socius, Goniopsis pulchra e Grapsus grapsus. As três espécies pertencem à família Grapsidae.
Entre os 102 indivíduos com sequências de COI, 57 foram associados a P. socius, 40 a G. pulchra e cinco a G. grapsus. O resultado surpreendeu porque os adultos dessas espécies estão ligados predominantemente a ambientes costeiros, intermareais ou supralitorais, e não a uma existência permanente no oceano aberto.
Por que esses caranguejos estavam agarrados a serpentes no mar?
O estudo publicado na Ecology and Evolution propõe que o comportamento pode estar relacionado à procura por superfícies durante a fase de megalopa. Larvas de vários caranguejos utilizam madeira, algas e outros materiais flutuantes enquanto se deslocam em direção a habitats apropriados para o assentamento.
As serpentes podem simplesmente funcionar como mais uma superfície encontrada nesse ambiente. Os pesquisadores ainda não sabem se as megalopas selecionam ativamente os répteis ou se o encontro é essencialmente oportunista. Para indivíduos de espécies costeiras, uma serpente que se afasta da costa pode inclusive levá-los na direção errada.

Quantos animais já haviam sido encontrados viajando sobre as serpentes?
O levantamento original examinou 391 exemplares de Hydrophis platurus. Desses, 74 carregavam crustáceos decápodes, correspondendo a 18,9% das serpentes analisadas. Ao todo, foram registrados 157 decápodes sobre os répteis.
Entre eles estavam camarões, alguns caranguejos juvenis já identificáveis e 109 megalopas de Grapsidae que permaneceram sem espécie definida naquele momento. O novo estudo concentrou-se principalmente nesse material preservado, transformando amostras antigas em evidência genética sobre uma interação praticamente invisível no oceano.
O que os caranguejos caroneiros revelam sobre a evolução desse comportamento?
A descoberta levanta uma hipótese evolutiva interessante. Como as três espécies identificadas pertencem à mesma família que Planes, a tendência de megalopas grapsídeas a subir em superfícies flutuantes pode representar uma característica ancestral que, em determinadas linhagens, evoluiu para um estilo de vida permanentemente associado a objetos ou animais no oceano.
Isso ainda não demonstra que essas três espécies estejam evoluindo para uma vida pelágica. Os passageiros provavelmente permanecem sobre as serpentes apenas temporariamente, e alguns podem nunca alcançar novamente a costa. O resultado mostra como coleções científicas e DNA podem revelar relações ecológicas que passaram anos escondidas em pequenos frascos de museu.
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