Peixes gigantes começaram a morrer sem ar no Pantanal e a causa está numa mudança natural da água conhecida como decoada
Cheia antecipada no Rio Miranda provoca mortandade de peixes e revela como a decomposição da vegetação altera o oxigênio e a química da água
Peixes de grande porte, incluindo pintados, dourados e cacharas, apareceram mortos no Rio Miranda, em Mato Grosso do Sul, em outubro de 2026. O episódio foi associado à decoada no Pantanal, fenômeno natural que altera profundamente a química da água durante as cheias. A decomposição da vegetação submersa pode reduzir o oxigênio dissolvido a níveis praticamente inexistentes, provocando asfixia em diferentes espécies.
Por que a decoada no Pantanal começou a provocar a morte de peixes gigantes?
Em 17 de outubro de 2026, pescadores relataram a presença de peixes mortos no Rio Miranda, após uma elevação incomum de seu nível. A régua do rio havia atingido 6,83 metros no dia anterior. Imagens compartilhadas pelos moradores mostraram espécies de grande porte afetadas pela deterioração da qualidade da água.
A chegada antecipada da cheia chamou atenção porque a decoada depende diretamente do ritmo das inundações. Quando rios transbordam sobre campos anteriormente secos, encontram grandes quantidades de plantas, folhas e outros resíduos orgânicos. Esse material começa a se decompor, modificando as condições químicas das áreas alagadas e dos canais conectados.
O que acontece com a água durante a decoada no Pantanal?
A água pode adquirir coloração escura, semelhante à de um chá concentrado, e apresentar cheiro associado à matéria orgânica em decomposição. Ao mesmo tempo, aumenta a concentração de dióxido de carbono, enquanto o oxigênio disponível diminui. A intensidade dessas alterações depende da temperatura, quantidade de vegetação e velocidade da inundação.
O fenômeno envolve diversas transformações que podem ocorrer simultaneamente. Entre as principais estão:
- Escurecimento provocado por compostos orgânicos dissolvidos;
- Consumo de oxigênio pela atividade de microrganismos;
- Aumento do dióxido de carbono presente na água;
- Redução do pH e mudanças na disponibilidade de nutrientes;
- Estresse respiratório e possíveis mortandades de peixes.

Como a falta de oxigênio consegue matar até os maiores peixes?
Bactérias e outros microrganismos utilizam oxigênio durante a decomposição da matéria orgânica. Quando essa atividade aumenta rapidamente, o consumo pode superar a reposição pela atmosfera e pela fotossíntese. O resultado é a hipóxia, caracterizada por pouco oxigênio dissolvido, ou a anóxia, quando ele praticamente desaparece.
Peixes grandes podem ser particularmente afetados porque suas necessidades respiratórias absolutas são elevadas, embora tamanho não seja o único fator determinante. Espécies que vivem próximas ao fundo também podem enfrentar condições desfavoráveis. Quando a concentração cai intensamente, animais procuram a superfície, apresentam movimentos respiratórios acelerados e podem morrer.
Como os pesquisadores identificaram as causas da decoada no Pantanal?
O estudo de mapeamento publicado pela Embrapa Pantanal, em 2013, foi elaborado por Márcia Divina de Oliveira, Débora Fernandes Calheiros e Carlos Roberto Padovani. A pesquisa reuniu dados de monitoramento entre 1988 e 2011, além de informações de técnicos e moradores, para delimitar áreas afetadas.
Os pesquisadores analisaram oxigênio dissolvido, dióxido de carbono, acidez e características das inundações. O trabalho demonstrou que a decoada integra a dinâmica natural da planície, embora sua intensidade varie anualmente. Isso não substitui análises específicas de cada mortandade, necessárias para descartar contaminações ou outras causas simultâneas.
Quais números demonstram a gravidade da decoada no Pantanal?
Segundo a Embrapa, águas normalmente apresentam aproximadamente 6 a 7 miligramas de oxigênio por litro em determinadas condições monitoradas. Durante episódios intensos, a concentração pode alcançar zero. Já o dióxido de carbono livre, geralmente entre 5 e 10 miligramas por litro, pode ultrapassar 100 miligramas em situações extremas.
Em 1995, uma decoada particularmente intensa deixou trechos do Rio Paraguai sem oxigênio ou com concentrações muito reduzidas durante aproximadamente dois meses. Esses valores são referências históricas, não medições confirmadas do episódio de outubro de 2026 no Rio Miranda.
O que a decoada no Pantanal revela sobre o equilíbrio dos rios?
Apesar das mortandades, a decoada faz parte do funcionamento ecológico do Pantanal. O pulso de inundação transporta nutrientes, conecta ambientes aquáticos e modifica temporariamente as comunidades de peixes. Entretanto, secas prolongadas, temperaturas elevadas e cheias rápidas podem intensificar seus efeitos.
O monitoramento contínuo permite identificar áreas críticas e acompanhar a recuperação do oxigênio. Também ajuda a diferenciar alterações naturais de impactos provocados pela atividade humana. O desafio é compreender como mudanças no regime das chuvas poderão modificar a intensidade e a duração desses episódios nas próximas décadas.
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