Peixe sai da água e usa lama e tocas como refúgio quando a maré recua no mangue
Adaptações respiratórias permitem que uma espécie altamente especializada permaneça ativa sobre o lodo e enfrente tocas com pouco oxigênio
Quando a maré baixa expõe grandes extensões de lodo, o Periophthalmodon schlosseri não fica simplesmente esperando a água voltar. O saltador-do-lodo gigante consegue respirar ar, deslocar-se sobre o sedimento e utilizar tocas úmidas como refúgio, adaptações que permitem explorar uma faixa do manguezal temporariamente fora d’água sem representar o comportamento de todos os peixes que vivem nesse ambiente.
Como o saltador-do-lodo gigante consegue viver entre água e terra?
O Periophthalmodon schlosseri ocorre em costas tropicais do Indo-Pacífico, especialmente em margens lodosas de estuários e zonas intertidais. É um peixe anfíbio altamente especializado e considerado respirador aéreo obrigatório, característica muito diferente da fisiologia da maioria dos peixes encontrados em manguezais.
Quando a maré recua, indivíduos podem permanecer sobre o lodo em vez de acompanhar imediatamente a água. Suas nadadeiras peitorais auxiliam a locomoção sobre o substrato, enquanto os olhos elevados permitem observar o ambiente com grande parte do corpo fora d’água. As tocas oferecem uma alternativa quando temperatura, predadores ou maré tornam a superfície menos favorável.
O que permite que esse peixe continue respirando fora d’água?
Uma das principais estruturas respiratórias é a cavidade bucofaríngea, cuja superfície possui intensa vascularização. O animal retém ar nessa região, permitindo trocas gasosas enquanto está emerso. As brânquias continuam presentes, mas a fisiologia desse peixe não depende exclusivamente da passagem contínua de água por elas.
A umidade permanece fundamental. Superfícies respiratórias não podem simplesmente ressecar, e o próprio ambiente de lodo ajuda a manter condições favoráveis. Por isso, sobreviver fora d’água não significa tolerar qualquer ambiente terrestre seco: trata-se de uma adaptação ao mosaico úmido da zona entre-marés.
- Cavidade bucofaríngea amplamente vascularizada;
- Retenção de ar para realizar trocas gasosas;
- Contato frequente com superfícies úmidas;
- Uso de lodo, água rasa e tocas;
- Alternância entre períodos emersos e submersos.
Veja um Periophthalmodon schlosseri retornando ao manguezal durante a subida da maré.
Por que o saltador-do-lodo gigante constrói tocas no lodo?
As tocas ficam em setores altos da planície intertidal e funcionam como locais de refúgio. Quando a maré sobe e cobre o terreno, a água confinada nesses túneis pode apresentar pouco oxigênio, uma situação que seria problemática para um peixe dependente exclusivamente da respiração aquática convencional.
O comportamento vai além de simplesmente esconder-se em um buraco. O P. schlosseri consegue transportar ar da superfície para dentro da toca. Dessa maneira, bolsas gasosas permanecem em partes subterrâneas mesmo quando os canais estão cercados por água pobre em oxigênio. Essas reservas também têm importância no ciclo reprodutivo.
O que as pesquisas revelaram sobre o ar armazenado nas tocas?
Em observações experimentais, pesquisadores verificaram que esses peixes levam bocados de ar para compartimentos subterrâneos. Um estudo publicado na Nature demonstrou que Periophthalmodon schlosseri mantém ar dentro das tocas construídas em planícies de maré, mesmo quando a água circundante apresenta forte deficiência de oxigênio.
Isso ajuda a corrigir uma impressão comum: a lama não fornece oxigênio ao peixe por si mesma. Ela oferece um substrato úmido no qual podem existir tocas e pequenas depressões, enquanto as adaptações respiratórias do animal e o transporte ativo de ar tornam possível enfrentar períodos de emersão ou confinamento.

Quanto a respiração aérea difere daquela de outros peixes?
Experimentos com P. schlosseri mostraram que o volume de gás mantido na região bucofaríngea pode representar cerca de 16% do volume corporal. Em outros gobídeos capazes de respirar ar estudados pelos mesmos pesquisadores, a proporção mencionada ficou aproximadamente entre 2% e 4%, indicando uma especialização particularmente pronunciada nessa espécie.
O peixe também modifica sua ventilação quando a concentração de oxigênio no ar diminui. Essas respostas fisiológicas ajudam a explicar sua permanência em ambientes intertidais extremos, mas não devem ser extrapoladas para qualquer espécie encontrada entre raízes de mangue.
Todos os peixes de mangue fazem o que o saltador-do-lodo gigante faz?
Não. Manguezais abrigam numerosas espécies que permanecem essencialmente aquáticas, mesmo que tolerem variações de salinidade, temperatura ou oxigênio dissolvido. A capacidade de circular pelo lodo e respirar diretamente o ar resulta de adaptações anatômicas, fisiológicas e comportamentais específicas dos mudskippers.
Também é mais preciso falar em exposição do mangue durante a maré baixa do que dizer que o manguezal simplesmente “seca”. O P. schlosseri vive justamente nessa alternância: água cobrindo o terreno em parte do ciclo e extensões de lama, poças e canais expostos algumas horas depois.
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