Pecuarista arrenda o pasto “de boca” ao vizinho por anos, decide vender a fazenda e descobre que o arrendatário tem preferência na compra pelo Estatuto da Terra
Arrendamento de boca vale na venda da fazenda: arrendatário tem preferência de compra por 30 dias
“Arrendamento feito de boca não dá nenhum direito ao vizinho quando a fazenda é vendida”
❌ Mito
A resposta está no meio do texto ⬇️
O pecuarista que arrendou o pasto só no aperto de mão precisa avisar o arrendatário antes de vender a fazenda. O Estatuto da Terra dá a ele preferência para comprar o imóvel nas mesmas condições oferecidas a terceiros. E o contrato verbal tem o mesmo valor do escrito para garantir esse direito.
Contrato de arrendamento verbal tem validade na lei?
Tem, e essa é a resposta do quiz. O artigo 92 do Estatuto da Terra, a Lei 4.504/1964, admite contratos expressos ou tácitos para o uso temporário da terra. Na prática, anos de gado do vizinho no seu pasto, com pagamento combinado, já configuram um arrendamento rural.
Isso surpreende muita gente do campo, acostumada a tratar o acordo de boca como favor entre vizinhos. A lei, porém, olha para a realidade da relação. Se há uso da terra, prazo e pagamento, há contrato, com direitos para os dois lados.
Algumas crenças comuns sobre o tema ajudam a entender o risco de vender sem avisar.
Como funciona a preferência do arrendatário na venda?
A preferência funciona como um direito de cobrir a oferta de qualquer comprador. O proprietário deve comunicar a venda ao arrendatário, com preço e condições. A partir da notificação, ele tem 30 dias para dizer se compra pelo mesmo valor.
- A notificação pode ser judicial ou por escrito, com recibo assinado.
- O aviso deve trazer preço, forma de pagamento e demais condições do negócio.
- Se o arrendatário não responder em 30 dias, o dono pode vender a terceiros.
- As condições não podem melhorar depois para o comprador de fora.
Esse cuidado protege o vendedor tanto quanto o arrendatário. Com a notificação bem feita, o negócio segue sem risco de ser desfeito anos depois.

O que acontece se a fazenda for vendida sem aviso?
Se a venda acontecer sem notificação, o arrendatário pode depositar o preço e ficar com o imóvel. O prazo para isso é de seis meses, contados do registro da venda no cartório de imóveis. O comprador que pagou pela fazenda corre o risco de perdê-la.
Há, porém, um limite importante definido pela Justiça. Em dezembro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça negou a preferência a arrendatários que não moravam no imóvel e tinham outros bens. Para o tribunal, o direito protege quem explora a terra de forma pessoal, direta e familiar. A decisão está na notícia oficial do STJ.
Cada caso, portanto, depende do perfil de quem usa o pasto. Antes de anunciar a propriedade, revise os pontos abaixo.
📋 Seu checklist
☐ Identifiquei todos que usam a terra com pagamento combinado
☐ Reuni comprovantes de pagamento do arrendamento
☐ Enviei notificação com preço e condições da venda
☐ Guardei o recibo assinado pelo arrendatário
☐ Aguardei os 30 dias antes de fechar com terceiros
Salve ou tire um print para consultar depois
Quem tem direito de preferência na compra da terra?
Tem direito quem se encaixa no perfil que a lei quis proteger, o produtor que vive do trabalho na terra. O decreto que regulamenta o Estatuto fala em exploração pessoal e direta, com eficiência. A análise considera sinais concretos da relação com o imóvel.
- Uso contínuo da área para lavoura ou criação, com pagamento combinado.
- Trabalho feito pelo próprio arrendatário e pela família, sem terceirização total.
- Dependência da atividade rural como fonte de sustento.
- Comprovantes como recibos, notas de venda de gado e testemunhas.
Empresas ou investidores com várias propriedades tendem a encontrar mais resistência nos tribunais. Já o pequeno pecuarista que cria gado há anos no pasto arrendado reúne os elementos que a lei valoriza.
Vale formalizar o arrendamento antes de vender a fazenda?
Vale, porque um contrato escrito deixa claros prazo, valor e direitos de cada lado. A preferência continua existindo, mas a negociação fica mais simples e segura para comprador e vendedor. Tem um acordo de boca com o vizinho? Que tal conversar com um advogado agrarista antes de pôr a placa de venda na porteira?
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