Os golfinhos selvagens que chamam pescadores para o rio e dividem com eles o mesmo cardume
No rio Ayeyarwady, animais livres conduzem peixes até pequenas embarcações e sinalizam o momento de lançar as redes
À primeira vista, o golfinho-do-Irrawaddy parece apenas acompanhar pequenas embarcações pelos rios do Sudeste Asiático. Em alguns trechos do rio Ayeyarwady, em Myanmar, porém, sua aproximação pode anunciar algo muito mais raro: uma pescaria em que animais selvagens e seres humanos trabalham sobre o mesmo cardume.
Onde os golfinhos-do-Irrawaddy pescam ao lado de humanos?
A interação mais documentada ocorre no rio Ayeyarwady, principalmente em comunidades localizadas ao norte da cidade de Mandalay. Ali, pescadores que utilizam redes circulares lançadas à mão aprenderam a reconhecer determinados grupos de golfinhos e a interpretar seus movimentos perto dos barcos.
O comportamento não aparece em todas as populações da espécie. Golfinhos-do-Irrawaddy também vivem em rios, estuários, baías e lagunas de outros pontos do Sul e do Sudeste Asiático, mas a cooperação organizada com pescadores tradicionais tornou-se especialmente conhecida em Myanmar.
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Como os golfinhos selvagens chamam os pescadores?
A aproximação pode começar com os pescadores batendo uma vara de madeira na lateral da embarcação e produzindo sons repetidos sobre a água. Quando estão dispostos a participar, os golfinhos se aproximam, nadam ao redor do barco e começam a empurrar os peixes para uma área mais concentrada.
- Os pescadores produzem sons para atrair a atenção dos golfinhos
- Os animais cercam ou conduzem os peixes perto da embarcação
- Um movimento corporal pode indicar o momento do lançamento
- A rede circular cai sobre a parte mais concentrada do cardume
- Os peixes que escapam podem ser capturados pelos golfinhos
O vídeo “Este golfinho bonito Irrawaddy é uma espécie rara e ameaçada de extinção”, publicado pelo canal Kritter Klub, mostra de perto a aparência, o comportamento e a situação delicada dessa espécie no Sudeste Asiático:
Pescadores experientes relatam que o sinal mais importante pode ser um mergulho particular, uma batida da cauda ou uma mudança repentina de direção. Nesse instante, eles lançam a rede. A comunicação não funciona como uma ordem rígida, mas como uma sequência de comportamentos que ambos os lados aprenderam a reconhecer.
O que cada lado ganha durante essa pescaria?
Os humanos recebem ajuda para localizar e concentrar peixes em uma superfície extensa e visualmente difícil de interpretar. Um golfinho pode mergulhar, acompanhar o cardume por baixo e modificar sua direção, oferecendo aos pescadores uma vantagem que seria impossível obter apenas observando a água a partir do barco.
Os golfinhos não recebem uma divisão organizada da captura. Seu benefício aparece nos peixes que escapam da rede, ficam temporariamente desorientados ou se separam do grupo durante o cerco. Assim, animais e pescadores aproveitam momentos diferentes da mesma perseguição, sem que seja necessário domesticar ou alimentar os golfinhos.
A pesca com golfinhos realmente aumenta a quantidade capturada?
Pesquisadores acompanharam sessões realizadas no Ayeyarwady e compararam os lançamentos feitos com e sem a presença dos golfinhos. O estudo registrou mais de mil lançamentos de rede e milhares de peixes, encontrando vantagens para os pescadores durante a cooperação, embora o resultado variasse conforme o local, o comportamento dos animais e as condições do rio.
| Uma pescaria em três movimentos | 1 Localizar Os golfinhos encontram e acompanham o cardume | 2 Concentrar Os peixes são conduzidos perto do barco | 3 Dividir A rede captura parte; os fugitivos ficam para os golfinhos |
| Vantagem humana | Maior facilidade para encontrar o cardume e escolher o momento do lançamento | ||
| Vantagem dos golfinhos | Acesso a peixes dispersos, desorientados ou separados pela queda da rede | ||
| O que sustenta a parceria | Reconhecimento dos sinais, repetição do encontro e transmissão do conhecimento entre gerações | ||
A parceria não garante redes cheias em todas as tentativas. Os golfinhos podem ignorar os chamados, abandonar o cardume ou agir longe demais do barco. Ainda assim, a repetição do comportamento ao longo de gerações mostra que não se trata apenas de animais aparecendo por acaso perto de uma atividade pesqueira.
Como humanos e golfinhos aprenderam a trabalhar juntos?
O conhecimento dos pescadores é transmitido dentro das famílias e das comunidades ribeirinhas. Jovens acompanham os adultos, aprendem como produzir os sons, reconhecem os locais mais favoráveis e observam quais movimentos dos golfinhos costumam anteceder um lançamento bem-sucedido.
Entre os animais, o comportamento também pode ser aprendido socialmente. Filhotes acompanham adultos durante as perseguições e têm a oportunidade de repetir a técnica. Essa transmissão paralela ajuda a preservar uma tradição que não pertence inteiramente aos humanos nem aos golfinhos, mas à convivência prolongada entre os dois grupos.

Por que essa parceria pode desaparecer do rio?
O golfinho-do-Irrawaddy enfrenta redes que provocam capturas acidentais, redução dos estoques de peixes, poluição, alterações no habitat e pesca elétrica ilegal. Em Myanmar, conflitos armados e dificuldades de fiscalização também complicam os programas de proteção das pequenas populações fluviais.
A Wildlife Conservation Society participa de ações relacionadas à conservação dos golfinhos e da pesca cooperativa no Ayeyarwady. Preservar esses animais significa proteger algo além de uma espécie rara: significa impedir o desaparecimento de uma relação construída na água, na qual pescadores esperam um sinal vindo do rio antes de lançar suas redes.
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