O vertebrado que pode viver quase 400 anos nas águas congeladas e só começa a se reproduzir depois dos 150
Uma análise feita no cristalino dos olhos revelou uma duração de vida que atravessa vários séculos da história humana
Nas águas frias e profundas do Atlântico Norte, um grande predador se move tão lentamente que parece viver em outro ritmo. A descoberta mais surpreendente surgiu de uma parte transparente do corpo que registra sinais químicos desde os primeiros momentos de vida.
Por que esse animal cresce tão devagar nas águas geladas?
O tubarão-da-Groenlândia habita principalmente o Atlântico Norte e o Oceano Ártico, onde pode ser encontrado desde áreas relativamente rasas até profundidades superiores a dois mil metros. A temperatura baixa reduz o ritmo de muitos processos biológicos, enquanto seus movimentos lentos ajudam a economizar energia em um ambiente onde encontrar alimento nem sempre é fácil.
Estudos baseados em marcação e recaptura indicam um crescimento anual de até aproximadamente um centímetro, embora essa taxa tenha sido calculada a partir de poucos indivíduos e não deva ser tratada como idêntica durante toda a vida. Um animal com cinco metros, portanto, pode ter levado séculos para alcançar esse tamanho.
Leia também: A sonda lançada nos anos 1970 que já está a mais de 25 bilhões de quilômetros e leva quase dois dias para responder
Como descobriram que o tubarão-da-Groenlândia pode viver quase 400 anos?
A grande revelação veio em 2016, quando pesquisadores analisaram o núcleo do cristalino dos olhos de 28 fêmeas. A maior delas media 5,02 metros e recebeu uma idade central estimada em 392 anos, com ampla margem de incerteza. Isso significa que o valor não corresponde a uma certidão exata de nascimento, mas representa a melhor estimativa produzida pelo modelo científico utilizado.
Os principais resultados do levantamento foram:
- Vida mínima estimada em pelo menos 272 anos para a espécie
- Maior exemplar calculado em 392 anos
- Margem possível entre aproximadamente 272 e 512 anos para esse indivíduo
- Maturidade sexual estimada em pelo menos 156 anos
- Maior longevidade conhecida entre os vertebrados
No vídeo “7 of the Strangest Sharks on Earth”, o canal SciShow apresenta o tubarão-da-Groenlândia entre espécies de características extraordinárias e explica sua longevidade, seu movimento lento e sua vida nas águas frias do norte.
Por que o cristalino dos olhos guarda a idade do animal?
A maioria dos peixes pode ser envelhecida por estruturas que formam marcas periódicas de crescimento, semelhantes aos anéis observados em árvores. No caso dessa espécie, as vértebras possuem calcificação insuficiente para produzir uma contagem confiável, impedindo o uso dos métodos tradicionais aplicados a muitos outros tubarões.
O núcleo do cristalino oferece uma alternativa porque suas proteínas são formadas ainda no desenvolvimento inicial e permanecem metabolicamente estáveis. Então, o carbono incorporado nessa região funciona como uma cápsula química do período em que o animal nasceu, sem ser constantemente substituído como ocorre em outros tecidos do corpo.
O que o carbono-14 revelou sobre o tubarão-da-Groenlândia?
Os cientistas mediram a concentração de carbono-14 no cristalino e procuraram sinais do chamado pulso das bombas. Testes nucleares realizados principalmente nas décadas de 1950 e 1960 aumentaram temporariamente a quantidade desse isótopo na atmosfera e nos oceanos, criando uma marca cronológica que pode ser identificada em organismos nascidos depois desse período.
| Dado analisado | Resultado estimado | O que significa | Limitação |
|---|---|---|---|
| Número de animais | 28 fêmeas | Amostra usada na datação | Grupo relativamente pequeno |
| Maior comprimento | 502 cm | Exemplar mais velho do estudo | Tamanho não fornece idade exata sozinho |
| Idade central calculada | 392 anos | Valor mais conhecido do levantamento | Possui margem de aproximadamente 120 anos |
| Maturidade sexual | 156 ± 22 anos | Idade aproximada para reprodução | Inferida pela idade e pelo tamanho |
| Longevidade mínima | Pelo menos 272 anos | Confirma vida de vários séculos | A dinâmica do carbono no oceano gera incerteza |
Segundo o estudo publicado na revista Science, apenas os menores animais apresentavam claramente a marca radioativa associada ao período posterior aos testes nucleares. Os exemplares maiores haviam nascido antes dessa alteração, exigindo modelos estatísticos e curvas de calibração para estimar suas idades.
O frio explica sozinho uma vida de vários séculos?
O metabolismo lento é uma das hipóteses mais fortes. Em águas próximas do congelamento, reações químicas e atividades celulares tendem a ocorrer em ritmo reduzido, diminuindo o gasto energético. O crescimento extremamente demorado e os movimentos lentos parecem fazer parte de uma estratégia biológica construída para sobreviver com poucos recursos.
Porém, o frio não explica tudo. Outros peixes de águas geladas não vivem necessariamente quatro séculos. Pesquisadores investigam agora mecanismos de reparo do DNA, proteção celular, metabolismo e funcionamento do sistema imunológico. O genoma da espécie também passou a ser estudado em busca de características ligadas à resistência ao envelhecimento.

Por que a longevidade do tubarão-da-Groenlândia também representa um risco?
Uma espécie que demora cerca de um século e meio para começar a se reproduzir recupera populações perdidas de maneira extremamente lenta. Se muitos indivíduos forem capturados antes da maturidade, podem ser necessárias várias gerações humanas para que o número de adultos retorne ao nível anterior.
Esse tubarão já foi pescado comercialmente por causa do óleo de seu fígado e ainda pode aparecer como captura acidental em redes e linhas destinadas a outras espécies. Assim, o mesmo ciclo de vida que permite atravessar séculos torna o animal especialmente vulnerável: um exemplar retirado hoje talvez tenha começado a nadar quando mapas do mundo, navios e cidades eram completamente diferentes.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)