O Universo ainda tem hidrogênio, mas fabrica muito menos estrelas: nova análise mostra que o problema pode estar no caminho até o combustível virar gás denso
Estudo com 2,5 milhões de galáxias revela que a produção estelar caiu muito mais rapidamente que as reservas de hidrogênio nos últimos bilhões de anos
O Universo continua abastecido de hidrogênio, mas sua capacidade de produzir estrelas diminuiu drasticamente. Um estudo publicado em setembro de 2026 revelou que a formação de estrelas caiu cerca de 59% nos últimos 4,5 bilhões de anos, enquanto a quantidade de hidrogênio atômico diminuiu muito menos. A descoberta indica que o problema pode estar na transformação desse gás em nuvens densas capazes de originar novas estrelas.
Por que a formação de estrelas diminuiu tanto no Universo?
Durante bilhões de anos, as galáxias transformaram enormes reservatórios de gás em novas estrelas. Esse processo foi especialmente intenso quando o Universo tinha aproximadamente três a quatro bilhões de anos. Desde então, a atividade diminuiu progressivamente, embora muitas galáxias continuem armazenando grandes quantidades de hidrogênio.
A nova pesquisa demonstra que a redução da formação de estrelas não acompanha proporcionalmente a diminuição do hidrogênio atômico. Isso contraria uma explicação simples segundo a qual o Universo estaria apenas esgotando suas reservas de combustível. Os resultados direcionam a investigação para a maneira como o gás circula e se transforma dentro das galáxias.
Como os cientistas mediram o hidrogênio e a formação de estrelas?
Uma equipe internacional liderada por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências combinou observações de dois grandes projetos astronômicos. O radiotelescópio FAST, localizado na China, forneceu medições da emissão de hidrogênio atômico, enquanto o Dark Energy Spectroscopic Instrument (DESI) ajudou a determinar as distâncias de milhões de galáxias.
A análise reuniu aproximadamente 2,5 milhões de galáxias distribuídas por uma área de 12 mil graus quadrados do céu. Os pesquisadores utilizaram sinais de rádio associados ao hidrogênio neutro para reconstruir sua evolução durante os últimos 4,5 bilhões de anos, comparando os resultados com a história da produção estelar.
Entre os principais resultados estão:
- Análise de aproximadamente 2,5 milhões de galáxias;
- Observações realizadas com o radiotelescópio FAST;
- Dados espectroscópicos fornecidos pelo projeto DESI;
- Redução da formação estelar por um fator de 2,46;
- Queda bruta do hidrogênio atômico por um fator de 1,35;
- Redução ainda menor do gás após correções estatísticas conservadoras.

Por que o hidrogênio precisa se transformar antes de formar estrelas?
O hidrogênio atômico neutro, identificado pela sigla HI, constitui uma importante reserva de matéria-prima nas galáxias. Entretanto, a maior parte das estrelas nasce em regiões muito mais densas e frias, frequentemente associadas ao hidrogênio molecular, formado por pares de átomos ligados quimicamente.
Para chegar a essas condições, o gás precisa se concentrar, esfriar e superar forças que dificultam seu colapso gravitacional. Turbulência, campos magnéticos, aquecimento e a circulação de matéria podem interferir nesse processo. Mesmo uma galáxia rica em hidrogênio pode formar poucas estrelas quando o gás não consegue alcançar as densidades necessárias.
Quais evidências científicas mostram que ainda existe combustível estelar?
O estudo, publicado em 1º de setembro de 2026 na revista Nature Astronomy, recebeu o título Weak evolution of cosmic atomic hydrogen over the past 4.5 billion years. Os pesquisadores encontraram uma diminuição relativamente modesta da densidade cósmica de hidrogênio atômico, contrastando com a queda muito mais acentuada da atividade de formação estelar.
As medições indicaram uma redução bruta do reservatório de HI equivalente a um fator de 1,35, enquanto correções sistemáticas conservadoras produziram um fator de apenas 1,12. Em comparação, a formação estelar diminuiu por um fator de 2,46. Os resultados enfraquecem a hipótese de que o esgotamento rápido do hidrogênio atômico seja a principal explicação para o declínio recente da formação de estrelas.
Quanto diminuíram as reservas de hidrogênio e a produção de estrelas?
A comparação mostra que os dois processos evoluíram em ritmos diferentes. Enquanto a taxa cósmica de formação estelar caiu aproximadamente 59%, as medições brutas indicaram uma redução próxima de 26% na densidade de hidrogênio atômico. Após determinadas correções, essa redução estimada tornou-se ainda menor.
Os pesquisadores ressaltam que o hidrogênio molecular apresenta uma evolução mais próxima da atividade de formação estelar. Isso sugere que a disponibilidade de gás denso e a eficiência de sua produção são fatores fundamentais, embora o estudo não determine qual mecanismo específico domina essa transformação.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Período analisado | 4,5 bilhões de anos |
| Galáxias estudadas | Cerca de 2,5 milhões |
| Formação estelar | Queda aproximada de 59% |
| Hidrogênio atômico | Queda bruta próxima de 26% |
| HI após correções | Redução estimada próxima de 11% |
O que a descoberta revela sobre o futuro da formação de estrelas?
Os resultados indicam que compreender a evolução das galáxias exige acompanhar mais do que suas reservas totais de gás. Será necessário investigar como o hidrogênio chega às regiões internas, transforma-se em moléculas e se concentra em nuvens capazes de produzir estrelas.
Futuras observações poderão combinar mapas de hidrogênio atômico com medições do gás molecular, permitindo identificar onde ocorre a maior perda de eficiência. O Universo não deixou de fabricar estrelas porque simplesmente ficou sem hidrogênio. A pesquisa mostra que a história é mais complexa e depende dos mecanismos que transformam matéria dispersa em novas gerações estelares.
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