O túnel japonês escavado sob o oceano para impedir que uma antiga tragédia marítima se repetisse
A passagem ferroviária de 53,85 quilômetros atravessa o estreito de Tsugaru em uma rota escondida sob o fundo do mar
Em setembro de 1954, um tufão transformou a travessia entre duas grandes ilhas japonesas em uma das piores tragédias marítimas do país. Décadas depois, os trens passaram a percorrer aquele mesmo caminho por uma rota que não aparece na paisagem: uma passagem ferroviária escavada profundamente sob o fundo do mar.
Por que o Túnel Seikan foi construído entre duas ilhas japonesas?
O Túnel Seikan liga Honshu, a principal ilha do Japão, a Hokkaido, no extremo norte do arquipélago. A estrutura atravessa o estreito de Tsugaru, uma faixa de mar conhecida por mudanças rápidas no tempo, correntes intensas, nevoeiros e tempestades capazes de interromper a navegação.
Antes do túnel, passageiros, cargas e vagões ferroviários dependiam de balsas para completar a travessia. Os estudos de uma ligação subterrânea já existiam, mas o naufrágio de uma dessas embarcações expôs de maneira brutal a vulnerabilidade do sistema e tornou o projeto muito mais urgente.
Leia também: O vulcão que cobriu continentes de cinzas e colocou a sobrevivência humana no limite há 74 mil anos
Qual tragédia acelerou a construção do Túnel Seikan?
Em 26 de setembro de 1954, o ferry ferroviário Tōya Maru deixou Hakodate durante a passagem de um tufão. A embarcação enfrentou ventos violentos e ondas que comprometeram seus sistemas. Pouco depois, perdeu o controle, encalhou e virou perto da costa, provocando a morte de mais de 1.100 pessoas.
- O Tōya Maru transportava passageiros e vagões ferroviários
- A embarcação operava entre Hakodate e Aomori
- O acidente aconteceu durante um tufão no estreito de Tsugaru
- Outros ferries também naufragaram durante a mesma tempestade
- A tragédia ampliou a pressão por uma ligação ferroviária permanente
O vídeo “STILL the World’s Deepest Undersea Train Line”, do canal Japan Railway Journal, apresenta a história e a engenharia da passagem ferroviária construída sob o estreito de Tsugaru.
A catástrofe não criou sozinha a ideia do túnel, pois levantamentos geológicos já estavam sendo realizados antes de 1954. Ela mudou, contudo, a percepção pública sobre o projeto. A ligação deixou de parecer apenas uma obra ambiciosa de infraestrutura e passou a ser vista como uma alternativa capaz de reduzir a dependência de travessias marítimas vulneráveis ao clima.
Como os engenheiros descobriram um caminho seguro sob o mar?
Escavar diretamente sem conhecer o terreno seria arriscado demais. Sob o estreito havia rochas fraturadas, falhas geológicas e camadas capazes de permitir a entrada de grandes volumes de água. Os engenheiros realizaram sondagens, levantamentos sísmicos e perfurações exploratórias para compreender o que encontrariam sob o leito marinho.
Uma galeria piloto foi aberta antes do túnel ferroviário principal. Ela ajudava a testar a resistência das rochas, identificar infiltrações e orientar os trabalhos seguintes. Em vários pontos, equipes injetaram cimento e outros materiais nas fissuras para consolidar o terreno antes que a escavação avançasse.
O que existe entre os trilhos e o fundo do oceano?
O percurso completo possui 53,85 quilômetros, mas apenas uma parte fica diretamente sob o leito marítimo. O ponto mais profundo está aproximadamente 240 metros abaixo da superfície do mar. Entre os trilhos e a água ainda existe uma espessa camada de rocha, responsável por proteger a estrutura contra a pressão externa.
| Trecho observado | Medida aproximada | O que o número revela |
|---|---|---|
| Extensão total | 53,85 km | Inclui as aproximações terrestres em Honshu e Hokkaido |
| Seção sob o leito marinho | 23,3 km | É a parte localizada diretamente abaixo do estreito de Tsugaru |
| Maior profundidade | 240 m | Distância vertical entre o ponto mais baixo e a superfície do mar |
| Abertura ferroviária | 1988 | Marca o início da ligação regular por trilhos entre as duas ilhas |
Os números divulgados pelo Web Japan ajudam a desfazer uma imagem comum: os trens não circulam por um tubo exposto dentro do oceano. O corredor foi escavado no interior do maciço rochoso, abaixo do fundo do mar, com sistemas permanentes de drenagem, ventilação, monitoramento e acesso técnico.
Quais obstáculos quase interromperam o Túnel Seikan?
A água foi o adversário mais persistente. Em certos setores, as perfurações encontraram rocha tão frágil que a pressão marítima abriu caminhos para infiltrações volumosas. Houve alagamentos, desmoronamentos localizados, atrasos e necessidade de alterar métodos de escavação durante a obra.
Em vez de depender apenas de grandes tuneladoras, os trabalhadores avançaram com perfurações, explosivos controlados e consolidação do solo. Uma galeria de serviço paralela auxiliava na drenagem e permitia chegar às áreas de trabalho. O projeto levou cerca de duas décadas de construção contínua até a abertura ferroviária, em março de 1988.

Como os trens conseguem atravessar essa passagem atualmente?
O túnel recebeu inicialmente trens convencionais de passageiros e composições de carga. Com a expansão do Hokkaido Shinkansen, inaugurado nesse trecho em 2016, a via foi adaptada para acomodar bitolas diferentes. Assim, trens-bala e cargueiros podem utilizar a mesma ligação, embora operem sob regras específicas de velocidade e programação.
A travessia subterrânea não eliminou todos os desafios de transporte entre Honshu e Hokkaido, mas criou uma rota ferroviária contínua e protegida das tempestades da superfície. O que começou como uma resposta à fragilidade das balsas tornou-se uma das obras mais marcantes da engenharia japonesa, escondida sob águas que um dia mostraram o custo de depender exclusivamente do mar.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)