O túnel escavado sob o oceano por duas equipes que precisavam encontrar exatamente o mesmo ponto
Máquinas partiram de países diferentes e avançaram no escuro até um encontro de precisão extraordinária
Durante séculos, o Canal da Mancha funcionou como uma barreira natural entre a Grã-Bretanha e o restante da Europa. Quando os engenheiros decidiram atravessar essa separação pelo subsolo, o maior risco não era apenas encontrar água, mas descobrir se duas escavações iniciadas em países diferentes realmente se encontrariam.
Por que o Eurotúnel parecia um projeto quase impossível?
A ideia de construir uma passagem sob o Canal da Mancha surgiu ainda no início do século XIX. Diferentes propostas foram apresentadas, incluindo ilhas artificiais, pontes e túneis ventilados por estruturas instaladas no mar. As limitações técnicas, os custos e as preocupações políticas, porém, impediram que os primeiros planos avançassem.
A construção moderna começou em 1988, depois de França e Reino Unido aprovarem uma ligação ferroviária permanente. Além da distância, o projeto precisava enfrentar a pressão da água, localizar uma formação geológica adequada e manter as máquinas dentro de rotas calculadas sem qualquer referência visual à superfície.
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Quais obstáculos precisavam ser vencidos antes do encontro?
Os levantamentos geológicos identificaram uma camada de marga calcária relativamente estável e pouco permeável sob o canal. Essa formação oferecia condições melhores para escavação, mas não eliminava o risco de infiltrações, falhas mecânicas ou desvios acumulados durante o avanço das tuneladoras.
Os principais desafios enfrentados pelas equipes incluíam:
- Escavar simultaneamente a partir de dois países
- Controlar a entrada de água sob pressão
- Manter a inclinação calculada durante quilômetros
- Retirar continuamente milhões de metros cúbicos de material
- Instalar revestimentos de concreto logo após a perfuração
- Ventilar e abastecer frentes de trabalho distantes da superfície
No vídeo “How The Channel Tunnel Works”, o canal Practical Engineering explica a geologia, a construção e o funcionamento do sistema ferroviário, mostrando por que a ligação exigiu três galerias paralelas e rigoroso controle da escavação.
Qual é o tamanho real do Eurotúnel sob o Canal da Mancha?
O Eurotúnel possui 50,45 quilômetros de extensão total, dos quais 37,9 quilômetros ficam sob o Canal da Mancha. Ele não é uma única galeria: o sistema reúne dois túneis ferroviários e um túnel central de serviço, todos construídos paralelamente entre Folkestone, na Inglaterra, e Coquelles, perto de Calais, na França.
As galerias foram perfuradas, em média, cerca de 40 metros abaixo do leito marinho. No ponto mais profundo, a infraestrutura chega aproximadamente a 75 metros abaixo do fundo do mar. Assim, os trens não circulam dentro da água nem em um tubo apoiado sobre o fundo: eles atravessam a rocha existente sob o canal.
Como as tuneladoras avançavam sem perder a direção?
As máquinas escavavam a face da rocha enquanto sistemas instalados logo atrás retiravam o material e montavam anéis de concreto para revestir a passagem. Onze tuneladoras foram utilizadas no projeto, trabalhando em diferentes galerias e direções. Algumas partiram do lado britânico, enquanto outras avançaram a partir do território francês.
| Elemento | Número aproximado | Função | Detalhe de engenharia |
|---|---|---|---|
| Extensão total | 50,45 km | Ligar França e Inglaterra | Inclui trechos terrestres e submarinos |
| Trecho sob o canal | 37,9 km | Cruzar a barreira marítima | Maior seção submarina desse tipo |
| Galerias principais | Três | Tráfego ferroviário, manutenção e emergência | Duas ferroviárias e uma central de serviço |
| Tuneladoras utilizadas | 11 máquinas | Escavar a rocha e abrir as galerias | Operaram em diferentes frentes |
| Passagens transversais | A cada 375 metros | Ligar as ferrovias ao túnel de serviço | Permitem manutenção e evacuação |
Para controlar a trajetória, equipes de topografia usaram redes geodésicas, giroscópios e medições realizadas continuamente dentro das galerias. O ponto calculado na superfície precisava ser transferido para máquinas que avançavam no escuro, onde um pequeno erro angular poderia se transformar em metros de diferença depois de uma longa distância.
Qual foi a margem de erro quando os dois lados se encontraram?
A primeira ligação ocorreu no túnel central de serviço em 1º de dezembro de 1990. Relatos técnicos e históricos apresentam pequenas variações nos valores, mas o encontro aconteceu com diferença de apenas algumas dezenas de centímetros entre as escavações, resultado extraordinário para frentes que avançaram separadamente sob o mar.
A imagem dos trabalhadores britânicos e franceses apertando as mãos pela abertura tornou-se um símbolo da obra. O momento também comprovou que os cálculos topográficos estavam corretos e permitiu ajustar as galerias ferroviárias seguintes. Então, o feito não foi apenas perfurar a rocha, mas fazer máquinas separadas por quilômetros chegarem praticamente ao mesmo ponto.

Como o Eurotúnel funciona sem depender de uma única passagem?
Os dois túneis externos recebem trens em sentidos separados, incluindo composições de passageiros, cargas e vagões especiais que transportam automóveis e caminhões. A galeria central é usada por veículos de manutenção e serve como rota protegida durante emergências. Passagens transversais ligam os três corredores a cada 375 metros.
Segundo o Getlink, operador oficial do Eurotúnel, a infraestrutura funciona 24 horas por dia e inclui conexões que permitem transferir trens de uma galeria ferroviária para a outra. Assim, uma construção iniciada em lados opostos do canal tornou-se um sistema integrado capaz de manter dois países ligados mesmo durante manutenções.
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