O projeto secreto de US$ 20 milhões criado pelos Estados Unidos para espionar instalações militares usando apenas a mente
Documentos desclassificados revelam duas décadas de testes com pessoas treinadas para descrever alvos que não podiam enxergar
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos financiaram uma experiência que parecia pertencer à ficção científica: pessoas sentadas em salas fechadas tentariam descrever bases, equipamentos e acontecimentos localizados a milhares de quilômetros. O programa permaneceu ativo por mais de duas décadas e consumiu aproximadamente US$ 20 milhões antes de seus arquivos chegarem ao público.
Por que o Projeto Stargate começou durante a Guerra Fria?
No início da década de 1970, serviços de inteligência norte-americanos receberam informações de que a União Soviética investia em pesquisas sobre telepatia, psicocinese e outras supostas capacidades paranormais. Mesmo sem saber se os resultados soviéticos eram reais, havia o receio de que uma ferramenta incomum de espionagem estivesse sendo desenvolvida do outro lado da Cortina de Ferro.
A CIA passou a financiar experimentos no Stanford Research Institute, conhecido como SRI, na Califórnia. Os físicos Harold Puthoff e Russell Targ receberam a missão de testar pessoas que alegavam conseguir perceber lugares e objetos sem utilizar os sentidos convencionais. A técnica passou a ser chamada de visão ou percepção remota.
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Como os participantes do Projeto Stargate tentavam enxergar alvos distantes?
Em uma sessão típica, o participante permanecia em uma sala sem acesso ao alvo. Ele poderia receber apenas um número, coordenadas ou uma referência aleatória. Em seguida, descrevia formas, temperaturas, sons, materiais e dimensões, além de fazer desenhos do que surgia em sua mente. Depois, esse material era comparado com fotografias ou informações conhecidas sobre o local.
- O observador não deveria conhecer previamente o alvo
- As sessões podiam envolver instalações, objetos ou pessoas desaparecidas
- Desenhos eram utilizados para registrar formas e proporções
- Analistas comparavam as descrições com dados de inteligência
- Alguns testes possuíam controles, enquanto outros eram missões operacionais
O vídeo “Inside The Military’s Secret Psychic Unit”, publicado pelo canal VICE, apresenta depoimentos e documentos sobre o programa norte-americano de percepção remota.
O procedimento sofreu alterações ao longo dos anos. Algumas sessões eram conduzidas como experiências laboratoriais, enquanto outras tentavam responder a perguntas reais de órgãos militares. Os participantes podiam ser solicitados a localizar equipamentos soviéticos, descrever construções ou indicar onde pessoas procuradas estariam escondidas.
Quais descrições fizeram o governo continuar financiando os testes?
Um dos episódios mais conhecidos envolveu o participante Pat Price, que recebeu coordenadas relacionadas a uma instalação soviética. Ele descreveu estruturas industriais, edifícios, guindastes e equipamentos de grandes dimensões. Alguns elementos teriam apresentado semelhanças com imagens e informações obtidas posteriormente por métodos convencionais.
Outro nome associado ao programa foi Joseph McMoneagle, um oficial de inteligência do Exército que se tornou conhecido como “observador remoto número 001”. Seus defensores atribuem a ele descrições de instalações militares e previsões sobre equipamentos soviéticos, embora a precisão desses resultados continue sendo discutida por pesquisadores e críticos.
Como o programa secreto mudou de nome durante duas décadas?
O nome Stargate acabou se tornando uma designação geral para diferentes programas que investigaram fenômenos semelhantes. A responsabilidade circulou entre a CIA, o Exército e a Agência de Inteligência de Defesa, enquanto contratos de pesquisa foram mantidos com instituições civis. Cada reorganização trouxe novos protocolos, siglas e tentativas de transformar experiências instáveis em uma ferramenta confiável.
| 1972 | Primeiros contratos com o SRI | A CIA avalia se a percepção remota poderia fornecer informações sobre alvos inacessíveis. |
| Pesquisa experimental | ||
| 1978 | Programa Grill Flame | O Exército e a DIA ampliam o uso de observadores em missões associadas à inteligência militar. |
| Aplicação operacional | ||
| 1980s | Center Lane e Sun Streak | Novos nomes protegem a continuidade de sessões, treinamentos e avaliações sigilosas. |
| Reorganizações internas | ||
| 1991 | Designação Star Gate | As atividades são reunidas sob o nome que mais tarde ficaria conhecido pelo público. |
| Fase final | ||
| 1995 | Avaliação e encerramento | Uma revisão conclui que os relatórios não ofereciam confiabilidade suficiente para uso regular em inteligência. |
| Arquivos desclassificados |
O orçamento aproximado de US$ 20 milhões refere-se ao conjunto de pesquisas acumuladas ao longo de mais de vinte anos, e não a uma única operação. Embora o valor fosse pequeno quando comparado a grandes projetos militares, a duração mostra que diferentes departamentos encontraram resultados suficientemente curiosos para manter o assunto em avaliação.
Os resultados realmente provaram que a espionagem psíquica funcionava?
Em 1995, a CIA encomendou ao American Institutes for Research uma revisão do material produzido. A análise encontrou diferenças de interpretação entre especialistas. A estatística Jessica Utts considerou que determinados experimentos laboratoriais mostravam efeitos difíceis de explicar apenas pelo acaso, enquanto o psicólogo Ray Hyman sustentou que falhas metodológicas impediam essa conclusão.
O relatório final reconheceu a existência de resultados estatísticos interessantes, mas concluiu que as informações operacionais eram frequentemente vagas, inconsistentes e acompanhadas por erros. Mesmo quando uma descrição parecia correta, os analistas tinham dificuldade para separar antecipadamente os elementos úteis das afirmações equivocadas. Por essa razão, o método não foi considerado confiável para orientar decisões de inteligência.

O que os documentos do Projeto Stargate revelaram ao público?
A desclassificação colocou milhares de páginas ao alcance de pesquisadores. O acervo contém desenhos, transcrições de sessões, memorandos administrativos, avaliações estatísticas e relatos de operações. A coleção oficial Stargate da CIA permite observar como perguntas extraordinárias foram tratadas dentro de uma burocracia militar real.
Os documentos não demonstram que agentes podiam entrar mentalmente em qualquer instalação secreta e reproduzir seu interior com precisão constante. Eles revelam algo igualmente incomum: durante mais de duas décadas, órgãos de inteligência financiaram pesquisadores, treinaram participantes e testaram seriamente a possibilidade de obter informações sem câmeras, satélites ou agentes infiltrados. O programa terminou, mas seus arquivos continuam mostrando até onde o medo de uma vantagem soviética levou a espionagem norte-americana.
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