O projeto científico de US$ 150 milhões que tenta trazer o dodô de volta à vida
DNA recuperado de exemplares antigos e células reprodutivas editadas podem produzir uma ave com características do animal extinto
Durante mais de três séculos, o dodô existiu apenas em desenhos, esqueletos e relatos preservados em museus. Agora, uma empresa avaliada em bilhões de dólares tenta usar células reprodutivas editadas para produzir uma ave com características do animal extinto, em um projeto que parece ter saído da ficção científica.
Por que o desaparecimento do dodô ainda desperta tanta curiosidade?
O dodô, de nome científico Raphus cucullatus, era uma ave não voadora encontrada exclusivamente nas ilhas Maurício, no oceano Índico. Parente dos pombos, ele desapareceu no século XVII, poucas décadas depois da chegada de navegadores europeus, da destruição de parte de seu ambiente e da introdução de animais que atacavam seus ovos.
O tigre-da-Tasmânia, apesar do nome, também não era um tigre. O último exemplar conhecido desse marsupial morreu no zoológico de Hobart em 1936. Restos preservados das duas espécies passaram a funcionar como arquivos biológicos, permitindo que pesquisadores recuperassem fragmentos de DNA e, no caso do tigre-da-Tasmânia, até moléculas históricas de RNA. O Museu Australiano mantém informações e exemplares ligados à história desse predador marsupial.
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Como o projeto de US$ 150 milhões pretende trazer o dodô?
Em janeiro de 2023, a empresa norte-americana Colossal Biosciences anunciou uma rodada de investimento de US$ 150 milhões e apresentou o dodô como um de seus principais projetos. O valor não representa um orçamento exclusivo para uma única ave: financiou a expansão da plataforma de engenharia genética da companhia, que também desenvolve iniciativas envolvendo o mamute-lanoso e o tigre-da-Tasmânia. Em setembro de 2025, a Colossal informou que seu capital total captado havia chegado a US$ 555 milhões.
- Reconstruir o genoma do dodô com DNA preservado
- Comparar as sequências com as de pombos vivos
- Identificar genes ligados ao tamanho, ao bico e à ausência de voo
- Editar células reprodutivas de uma espécie próxima
- Inserir essas células em aves usadas como hospedeiras
- Cruzar os descendentes até obter animais com traços do dodô
O vídeo “How to De-Extinct The Dodo | Process Overview”, do canal Colossal Biosciences, apresenta a rota proposta pela empresa, desde a leitura do DNA antigo até a edição de células germinativas de pombos. A animação ajuda a entender por que o processo depende de várias gerações de aves e não de um simples ovo contendo um embrião clonado.
Por que trazer o dodô não significa clonar um fóssil?
Na clonagem tradicional, os cientistas precisam de uma célula relativamente intacta contendo um núcleo viável. Esse material não existe nos ossos antigos do dodô. O DNA recuperado está fragmentado e danificado, o que impede a criação de uma cópia direta como ocorreu com a ovelha Dolly. A estratégia consiste em comparar o genoma reconstruído com o do pombo-de-nicobar, um de seus parentes vivos mais próximos.
Os pesquisadores pretendem editar células germinativas primordiais, precursoras dos óvulos e espermatozoides das aves. Essas células seriam colocadas em galinhas geneticamente modificadas para não produzirem seus próprios gametas. As galinhas funcionariam como hospedeiras e gerariam células reprodutivas de pombos editados, cujos descendentes carregariam combinações genéticas selecionadas para recuperar características do dodô.
O que separa o projeto do dodô daquele dedicado ao tigre-da-Tasmânia?
A reprodução das aves ocorre dentro de ovos, dificultando técnicas comuns de clonagem e transferência nuclear. Marsupiais seguem outro caminho: seus filhotes nascem em uma fase muito inicial e completam grande parte do desenvolvimento ligados às glândulas mamárias da mãe. Por isso, cada projeto exige uma espécie hospedeira, células e protocolos reprodutivos completamente diferentes.
| Projeto | Caminho planejado |
|---|---|
| Dodô | Editar células germinativas de pombos e usar galinhas como hospedeiras |
| Tigre-da-Tasmânia | Editar células de um marsupial vivo e desenvolver embriões em espécies substitutas |
| Resultado esperado | Animais geneticamente próximos, mas não cópias perfeitas dos extintos |
O genoma do tigre-da-Tasmânia já foi reconstruído a partir de um filhote preservado em álcool havia mais de um século. Em outro avanço, pesquisadores recuperaram RNA de músculos e pele de um exemplar com aproximadamente 130 anos. Esses materiais ajudam a identificar não apenas a sequência genética, mas também quais genes atuavam em diferentes tecidos do animal.
Quais obstáculos ainda impedem trazer o dodô de volta?
Em setembro de 2025, a Colossal anunciou ter conseguido manter células germinativas primordiais de pombos em cultivo por períodos prolongados, uma etapa considerada essencial para editá-las em laboratório. A empresa também apresentou galinhas hospedeiras modificadas para não produzirem suas próprias células germinativas e estimou um caminho de cinco a sete anos até os primeiros resultados do programa. Essa previsão, entretanto, foi divulgada pela própria companhia e não representa garantia de que nascerá uma ave saudável nesse prazo.
Ainda será necessário descobrir quais alterações produzem o corpo, a plumagem, o bico, o metabolismo e o comportamento atribuídos ao dodô. Muitos traços dependem da interação de vários genes com o ambiente. Mesmo que um filhote nasça, pesquisadores terão de avaliar sua saúde, fertilidade, comportamento social e capacidade de viver em Maurício sem ameaçar ou ser ameaçado pelo ecossistema atual.

O que essa tentativa pode oferecer à conservação de animais vivos?
As tecnologias desenvolvidas para o projeto podem ter utilidade antes mesmo do nascimento de qualquer animal semelhante ao dodô. O cultivo de células germinativas permite armazenar material reprodutivo de aves ameaçadas, ampliar a diversidade genética de populações pequenas e produzir descendentes por meio de espécies hospedeiras. A própria Colossal afirma que a técnica poderá ser aplicada a pombos e outras aves em risco.
Caso o plano funcione, o resultado não será literalmente o mesmo dodô que viveu há quatro séculos, com todas as experiências, microrganismos e condições ambientais de sua época. Será um descendente geneticamente modificado de uma espécie viva, criado para reproduzir características biológicas do animal perdido. Ainda assim, o nascimento de uma ave desse tipo marcaria uma mudança profunda na relação entre museus, DNA antigo, edição genética e conservação.
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