O povo da Indonésia que guarda os corpos dos parentes dentro de casa por anos antes do funeral
Tratados simbolicamente como pessoas doentes, os familiares permanecem na residência enquanto a comunidade prepara o elaborado ritual Rambu Solo’
Nas montanhas de Sulawesi, a despedida de um parente pode começar muito antes de seu sepultamento definitivo. Durante esse intervalo, a pessoa continua ocupando um lugar simbólico dentro da família, enquanto todos se preparam para uma cerimônia capaz de reunir parentes vindos de diferentes partes do país.
Quem são os Toraja que vivem nas montanhas de Sulawesi?
Os Toraja vivem principalmente nas regiões de Tana Toraja e Toraja do Norte, no interior montanhoso de Sulawesi do Sul, na Indonésia. Suas aldeias são conhecidas pelas casas tradicionais chamadas tongkonan, construídas com telhados curvos e fachadas cobertas por desenhos geométricos. A agricultura, especialmente o cultivo de arroz, continua importante para muitas comunidades.
Grande parte da população atual segue o cristianismo, mas diversos costumes ancestrais continuam presentes na vida familiar. Essa combinação aparece com força nos rituais funerários, que podem reunir orações cristãs, símbolos tradicionais, procissões, refeições comunitárias e práticas ligadas ao antigo sistema de crenças conhecido como Aluk To Dolo.
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Por que o povo Toraja mantém os parentes falecidos dentro de casa?
Antes da realização do grande funeral, o familiar pode ser chamado de to makula’, expressão traduzida como “pessoa doente”. Para algumas famílias, a morte física não rompe imediatamente a relação com o parente. O corpo permanece em um quarto ou caixão dentro da residência, enquanto seus familiares conversam com ele e apresentam simbolicamente alimentos, bebidas ou pequenos objetos.
- O funeral pode ser adiado por semanas, meses ou anos
- Familiares distantes precisam ter tempo para retornar à aldeia
- A família precisa organizar recursos e receber muitos convidados
- O parente continua sendo tratado como integrante da casa
- A despedida definitiva ocorre apenas durante o Rambu Solo’
O vídeo “Here, Living With Dead Bodies for Weeks—Or Years—Is Normal”, da National Geographic, acompanha uma família Toraja durante esse período de espera. O registro mostra como refeições e conversas simbólicas fazem parte da rotina e explica por que o costume é entendido localmente como cuidado e respeito, não como recusa da morte.
Como o povo Toraja preserva o corpo durante essa espera?
Depois da morte, o corpo recebe um tratamento de conservação antes de permanecer na residência. Atualmente, algumas famílias utilizam soluções à base de formaldeído, enquanto relatos sobre métodos mais antigos citam substâncias vegetais e óleos. O objetivo é retardar as transformações naturais durante o período necessário para organizar a cerimônia.
Uma reportagem da National Geographic acompanhou uma família que apresentava refeições ao pai quatro vezes por dia e continuava falando com ele enquanto aguardava o funeral. O costume varia entre residências: algumas mantêm o parente em um cômodo reservado, enquanto outras utilizam um caixão dentro da casa.
O que acontece quando o grande funeral finalmente começa?
O Rambu Solo’ pode durar vários dias e mobilizar parentes, vizinhos e convidados. A programação costuma incluir recepção das famílias, cânticos, danças, procissões e refeições coletivas. Búfalos possuem forte valor simbólico dentro da tradição, e o número de animais oferecidos durante certas cerimônias também pode refletir a posição social e as possibilidades econômicas da família.
| To makula’ | O familiar permanece simbolicamente presente na casa |
| Preparação | Parentes retornam e a família organiza a cerimônia |
| Rambu Solo’ | A comunidade participa da despedida pública |
| Sepultamento | O caixão segue para uma tumba familiar ou cavidade rochosa |
Após a cerimônia, o caixão pode ser colocado em uma tumba escavada na rocha, em uma gruta ou em uma estrutura funerária pertencente à família. Em alguns locais, figuras de madeira chamadas tau tau representam pessoas falecidas e permanecem posicionadas diante das sepulturas, mantendo a memória dos antepassados visível na paisagem.
Qual é a diferença entre o Rambu Solo’ e o Ma’nene?
O Rambu Solo’ é o funeral que marca a passagem definitiva do familiar para sua condição de ancestral. O Ma’nene, por outro lado, ocorre depois do sepultamento e envolve visitar determinadas tumbas, renovar tecidos ou roupas e cuidar dos locais onde parentes foram depositados. São momentos diferentes e não devem ser tratados como se fossem uma única cerimônia.
O Ma’nene também não é praticado da mesma forma por todos os Toraja. Ele aparece especialmente em algumas comunidades do norte e pode ocorrer após a colheita, em intervalos definidos pelos costumes locais. Sua finalidade é reafirmar vínculos familiares e homenagear antepassados, e não repetir integralmente o grande funeral realizado anos antes.

Por que a relação do povo Toraja com a morte chama tanta atenção?
Para visitantes acostumados a uma separação rápida entre vivos e falecidos, manter um parente dentro de casa pode parecer incompreensível. Dentro desse contexto cultural, o período representa uma transição gradual. Ele permite que a família organize a despedida, reúna parentes distantes e continue expressando cuidado enquanto o funeral ainda não aconteceu.
As imagens desses costumes frequentemente circulam como algo misterioso ou assustador, mas essa abordagem esconde seu sentido familiar. O que sustenta a tradição não é a intenção de provocar quem observa de fora, e sim a ideia de que os laços não terminam de forma imediata. Entre os Toraja, a despedida pode levar anos porque memória, presença e pertencimento continuam conectados até o último ritual.
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