O povo com adaptação genética que mergulha a 70 metros e pode ficar até 13 minutos sem respirar
Baços cerca de 50% maiores ajudam mergulhadores Bajau a liberar mais glóbulos vermelhos durante longas descidas no Sudeste Asiático
Durante gerações, comunidades espalhadas entre ilhas da Indonésia, Malásia e Filipinas fizeram do oceano sua principal fonte de alimento e trabalho. Alguns de seus mergulhadores descem a profundidades extremas usando equipamentos simples, enquanto o próprio organismo administra o pouco oxigênio disponível de uma maneira incomum.
Como o povo Bajau transformou o oceano em parte da vida cotidiana?
O nome Bajau, ou Sama-Bajau, reúne diferentes comunidades marítimas do Sudeste Asiático, e não uma única “tribo” uniforme. Durante séculos, muitas famílias viveram em barcos ou palafitas e dependeram da pesca, da coleta de moluscos, de crustáceos e de outros recursos marinhos. Registros históricos e análises linguísticas indicam que esse modo de vida existe há mais de mil anos.
Em algumas comunidades, mergulhadores passam uma parte considerável do dia alternando descidas e breves períodos de recuperação na superfície. Há registros de trabalho a mais de 60 ou 70 metros de profundidade, utilizando máscaras simples, pesos e instrumentos de pesca tradicionais. Os números de 13 minutos representam desempenhos excepcionais relatados para alguns mergulhadores, e não uma capacidade automática de todos os Bajau.
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Por que alguns mergulhadores conseguem permanecer tantos minutos sem respirar?
Quando uma pessoa prende a respiração e mergulha o rosto na água, o organismo ativa a chamada resposta de mergulho. O coração reduz o ritmo, os vasos das extremidades se contraem e o sangue é direcionado aos órgãos mais importantes. Ao mesmo tempo, o baço se contrai e libera glóbulos vermelhos ricos em oxigênio na circulação. Nos Bajau estudados, esse reservatório mostrou uma dimensão surpreendente.
- Frequência cardíaca reduzida para economizar oxigênio
- Vasos periféricos contraídos para priorizar cérebro e coração
- Baço comprimido para liberar mais glóbulos vermelhos
- Treinamento contínuo para controlar movimentos e consumo de energia
- Conhecimento das correntes, profundidades e pontos de pesca
O vídeo “The tribe that evolved to stay underwater longer”, produzido pela BBC Reel, acompanha o cotidiano marítimo dos Bajau e explica como pesquisadores relacionaram a tradição do mergulho a diferenças fisiológicas e genéticas. As imagens mostram que o desempenho não depende apenas de “segurar o ar”, mas de técnica, experiência e adaptações corporais desenvolvidas ao longo de muitas gerações.
O povo Bajau realmente possui um baço 50% maior?
Em 2015, a pesquisadora Melissa Ilardo utilizou um aparelho portátil de ultrassom para medir o baço de 59 Bajau da comunidade de Jaya Bakti, na ilha indonésia de Sulawesi. Os resultados foram comparados aos de 34 integrantes do povo Saluan, que viviam em uma comunidade próxima e não mantinham a mesma tradição de mergulho. Em média, os baços dos Bajau eram aproximadamente 50% maiores.
A diferença também apareceu entre Bajau que mergulhavam e aqueles que não exerciam essa atividade. Isso enfraqueceu a hipótese de que o órgão maior fosse apenas consequência do treinamento diário e indicou uma característica parcialmente herdada. Segundo os pesquisadores, um baço maior poderia mobilizar cerca de 10% mais glóbulos vermelhos durante uma descida, ampliando temporariamente a reserva de oxigênio disponível.
O que a genética revelou sobre os mergulhadores do mar?
O estudo publicado na revista Cell encontrou sinais de seleção natural em variantes do gene PDE10A. Esse gene participa de processos relacionados aos hormônios da tireoide, que, em estudos com outros mamíferos, foram associados ao desenvolvimento do baço. A interpretação é que variantes favoráveis se tornaram mais frequentes ao longo de gerações vivendo e trabalhando no mar.
| Durante o mergulho | Resposta associada |
|---|---|
| Baixo oxigênio | Baço libera glóbulos vermelhos armazenados |
| Pressão crescente | Treinamento ajuda o corpo a suportar a descida |
| Oxigênio limitado | Vasos direcionam sangue aos órgãos vitais |
| Esforço prolongado | Movimentos econômicos reduzem o consumo de energia |
Outro sinal apareceu no gene BDKRB2, ligado à contração dos vasos sanguíneos durante a resposta de mergulho. Isso não significa que exista uma única “mutação de supermergulhador”. O desempenho provavelmente resulta da combinação entre várias características genéticas, treinamento desde cedo, conhecimento do ambiente, técnica respiratória e experiência acumulada.
Todos os Bajau conseguem mergulhar a 70 metros por 13 minutos?
Não. Os valores mais impressionantes descrevem mergulhadores muito experientes ou relatos extremos, e não o desempenho médio de toda a população. Permanecer imóvel segurando a respiração também é diferente de nadar, procurar alimento e voltar à superfície, atividades que consomem oxigênio rapidamente. Por isso, não é correto imaginar que qualquer integrante da comunidade consiga repetir esses números.
A profundidade também aumenta a pressão sobre o tórax, os pulmões e os ouvidos. Além das características herdadas, anos de prática podem tornar o diafragma e a parede torácica mais flexíveis e ensinar o mergulhador a economizar movimentos. Mesmo entre os Bajau, descidas profundas continuam envolvendo riscos e não devem ser tratadas como uma habilidade segura para pessoas sem preparação especializada.

Por que estudar o povo Bajau pode ajudar a medicina?
O interesse científico vai além do mergulho. A falta repentina de oxigênio, chamada hipóxia aguda, aparece em emergências médicas e pode danificar rapidamente órgãos vitais. Entender como o organismo dos Bajau armazena, libera e direciona oxigênio pode ajudar pesquisadores a investigar novas formas de proteger tecidos durante situações de baixa oxigenação.
Ao mesmo tempo, o modo de vida marítimo enfrenta perda de áreas tradicionais, redução dos estoques pesqueiros, pesca industrial e dificuldades de acesso a direitos e serviços públicos. O que chamou a atenção da ciência não surgiu em um laboratório, mas de uma relação construída durante séculos entre comunidades humanas e o oceano — uma história em que cultura, treinamento e seleção natural passaram a atuar lado a lado.
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