O poder de Roma mudou muito mais o DNA da Península Ibérica do que as invasões que vieram depois do fim do império
Análise de 243 genomas antigos revela que a ocupação romana ampliou a diversidade genética ibérica e que as migrações posteriores tiveram impacto menor
A herança genética da Península Ibérica sofreu transformações mais profundas durante o domínio romano do que após a chegada de suevos, alanos, vândalos e visigodos. Publicado em outubro de 2026, um estudo com 243 genomas antigos de 31 sítios arqueológicos revelou intensa diversidade populacional e identificou dois irmãos enterrados a aproximadamente 725 quilômetros de distância.
Por que o DNA da Península Ibérica mudou tanto durante o domínio romano?
A conquista romana transformou a antiga Hispânia em uma região conectada às principais rotas comerciais, militares e administrativas do Mediterrâneo. A circulação de soldados, comerciantes, trabalhadores e famílias favoreceu a chegada de pessoas com diferentes origens geográficas.
Os genomas demonstram que essa integração também produziu mudanças demográficas. Entre os séculos I e IV, indivíduos com ancestralidade associada ao Mediterrâneo oriental e ao norte da África passaram a integrar comunidades ibéricas, ampliando uma diversidade que anteriormente era menos pronunciada.
Leia também: Mais de mil sítios arqueológicos aparecem dentro deste parque brasileiro e 204 deles podem ser visitados pelo público
O que os 243 genomas revelaram sobre as populações que viveram na Hispânia?
Os pesquisadores reuniram amostras provenientes de 31 sítios arqueológicos, abrangendo contextos urbanos, rurais e funerários. A investigação comparou os 243 indivíduos recém-analisados com outros 58 genomas publicados anteriormente, reconstruindo transformações ocorridas entre os séculos I e VIII.
A principal diferença apareceu entre os períodos romano e pós-romano. Enquanto o primeiro apresentou forte diversificação genética, o segundo registrou a chegada de grupos de origem centro-norte-europeia sem substituição generalizada das populações existentes.
Entre as descobertas, destacam-se:
- Forte diversidade genética durante a administração romana;
- Ancestralidade mediterrânea oriental disseminada pela região;
- Contribuições norte-africanas particularmente evidentes no centro e sul;
- Presença de indivíduos associados às migrações germânicas;
- Continuidade populacional apesar das mudanças políticas posteriores.
Um vídeo do canal Genetic Journeys, sobre a história genética de Portugal, aborda a formação populacional ibérica e diferentes movimentos migratórios. É um material complementar, anterior ao novo estudo, e não apresenta especificamente seus 243 genomas.
Como as invasões posteriores alteraram menos o DNA da Península Ibérica?
A partir do século V, suevos, vândalos, alanos e visigodos participaram da reorganização política da região. Entretanto, conquistar territórios e estabelecer governos não significa necessariamente deslocar ou substituir a maior parte de seus habitantes.
Os resultados identificaram contribuições genéticas associadas aos recém-chegados, estimadas entre 12% e 22% em determinados contextos regionais e sociais. A maior parte das comunidades, porém, preservou características populacionais desenvolvidas durante os séculos de domínio romano.
Como os cientistas reconstruíram oito séculos de história por meio do DNA?
O estudo original publicado na revista Cell, em 21 de outubro de 2026, foi liderado por Pablo Carrión, Iñigo Olalde e colaboradores de instituições como Harvard, Instituto de Biologia Evolutiva de Barcelona e Universidade do País Basco.
A equipe extraiu material genético de restos humanos antigos e examinou centenas de milhares de variantes distribuídas pelo genoma. Comparações estatísticas permitiram identificar padrões de ancestralidade, relações familiares e diferenças entre comunidades de distintas épocas e regiões.

O que dois irmãos enterrados a 725 quilômetros revelaram sobre a mobilidade?
Um dos resultados mais surpreendentes envolveu dois irmãos identificados geneticamente em cemitérios distantes. Um foi enterrado nas proximidades de Mérida, antiga Augusta Emerita; o outro, na região de Castellón, junto à estação romana de Ildum.
A distância aproximada de 725 quilômetros corresponde a um trajeto pela antiga rede de estradas romanas. Ambos apresentavam ancestralidade centro-europeia, e seus sepultamentos sugerem conexões com movimentos migratórios possivelmente associados aos suevos.
| Período ou evidência | Resultado genético |
|---|---|
| Período romano | Grande diversificação de ancestralidades |
| Séculos V a VIII | Continuidade predominante da população local |
| Migrações germânicas e alanas | Contribuições identificáveis, mas limitadas |
| Irmãos de Mérida e Castellón | Parentesco direto a cerca de 725 km |
Por que a descoberta muda a interpretação da história da Europa?
Os resultados demonstram que transformações políticas nem sempre correspondem a mudanças populacionais equivalentes. Na Península Ibérica, o domínio romano favoreceu ampla circulação humana, enquanto os reinos posteriores exerceram influência política sem provocar substituição demográfica comparável.
O contraste com a Grã-Bretanha também é significativo, pois aquela região apresentou mudanças genéticas mais intensas após o enfraquecimento do poder romano. Entretanto, a amostragem ibérica permanece desigual, especialmente no norte. Novos genomas serão necessários para investigar diferenças regionais e conectar essas populações às transformações medievais posteriores.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)