O poço de fogo com 70 metros de largura que queima há décadas no meio do deserto e resiste às tentativas de apagá-lo
Novas análises de satélite mudaram a história da famosa Porta do Inferno enquanto esforços recentes reduzem drasticamente suas chamas
No coração do deserto de Karakum, no Turcomenistão, existe uma abertura gigantesca no solo iluminada por dezenas de focos de fogo alimentados por gás natural. A Cratera de Darvaza ficou conhecida mundialmente como “Porta do Inferno” e passou décadas cercada por uma história impressionante sobre engenheiros soviéticos, uma perfuração que teria dado errado e um incêndio que deveria durar poucos dias. Pesquisas recentes, porém, revelaram que parte dessa história provavelmente aconteceu de maneira diferente.
Por que a Cratera de Darvaza abriu um buraco de quase 70 metros no deserto?
A cratera fica em uma região extremamente rica em gás natural. Ela possui aproximadamente 60 a 70 metros de diâmetro e cerca de 20 a 30 metros de profundidade, dimensões suficientes para transformar o buraco em uma enorme cicatriz visível na paisagem plana e árida do Karakum.
A explicação tradicional afirma que uma perfuração soviética atingiu uma cavidade subterrânea cheia de gás e provocou o colapso do terreno. Durante muitos anos, 1971 apareceu como a data aceita para esse acidente. Entretanto, documentos históricos são escassos, e pesquisas modernas encontraram evidências de que tanto a formação quanto o início do incêndio podem ter ocorrido em momentos diferentes dos relatados popularmente.
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O que teria acontecido quando a Cratera de Darvaza começou a liberar gás?
A história repetida durante décadas afirma que especialistas soviéticos decidiram incendiar o gás para impedir que grandes quantidades fossem liberadas diretamente na atmosfera. A expectativa, segundo essa versão, era de que o reservatório superficial se esgotasse rapidamente. Em vez disso, o fogo permaneceu ativo durante décadas.
A sequência mais conhecida da história costuma ser apresentada assim.
- Uma operação de perfuração alcançou uma formação rica em gás
- O terreno cedeu e formou uma grande cratera
- Gás natural começou a escapar continuamente
- O material inflamável foi incendiado
- Esperava-se que as chamas durassem pouco tempo
- O abastecimento subterrâneo continuou alimentando o fogo por décadas
O vídeo publicado pelo canal Fact Feast apresenta a Cratera de Darvaza, sua localização no Turcomenistão e a famosa história que transformou o buraco em uma das formações mais conhecidas da Ásia Central. As imagens aéreas ajudam a dimensionar a cratera e mostram como numerosos focos de combustão ocupam seu interior.
A Cratera de Darvaza realmente está queimando continuamente desde 1971?
Essa é justamente a parte da história que começou a mudar. Uma pesquisa publicada em 2026 na Geophysical Research Letters analisou imagens históricas de satélite e encontrou fortes indícios de que a combustão visível começou entre o fim de 1987 e o início de 1988. O estudo também aponta incerteza sobre o próprio ano de formação da cratera, com 1963 e 1971 entre as possibilidades discutidas.
Portanto, a famosa narrativa de um incêndio iniciado imediatamente após um acidente em 1971 não está tão bem comprovada quanto parecia. O fato incontestável é que Darvaza permaneceu queimando por décadas e continuou liberando metano mesmo enquanto a intensidade das chamas diminuía. Essa descoberta não torna o fenômeno menos impressionante, mas muda significativamente a história repetida em documentários e redes sociais.
Como o fogo consegue continuar mesmo depois de tantas décadas?
O combustível não está armazenado apenas dentro do buraco visível. A cratera está conectada a uma formação geológica que contém gás natural, cujo principal componente é o metano. Enquanto esse gás consegue migrar através das rochas e alcançar pontos onde existe combustão, novas chamas podem continuar aparecendo.
Por isso, jogar água ou simplesmente cobrir pequenas regiões em chamas não resolveria necessariamente o problema. A questão principal está no fluxo subterrâneo de gás. Para reduzir o incêndio de maneira duradoura, é necessário diminuir o fornecimento desse combustível, e foi justamente nessa direção que esforços recentes no Turcomenistão começaram a avançar.
| Característica | Cratera de Darvaza | O que isso significa |
|---|---|---|
| Diâmetro | Cerca de 60 a 70 metros | Uma enorme abertura no terreno desértico |
| Profundidade | Cerca de 20 a 30 metros | Expõe diferentes pontos de saída de gás |
| Combustível | Gás natural rico em metano | Mantém diversos focos de combustão |
| Situação recente | Chamas muito menos intensas | O fluxo de gás vem sendo reduzido |
Por que a Cratera de Darvaza está queimando muito menos do que no passado?
Nos últimos anos, especialistas do Turcomenistão passaram a aumentar a retirada de gás em poços próximos. A ideia é interceptar uma parcela maior do combustível antes que ele consiga migrar até a cratera. O efeito já se tornou perceptível: aquela intensa iluminação que antes podia ser vista de grandes distâncias diminuiu consideravelmente.
A pesquisa com satélites também identificou uma redução gradual na intensidade da queima. Isso não significa, porém, que o problema tenha desaparecido. Entre 2020 e 2025, instrumentos espaciais ainda detectaram dezenas de plumas de metano na região, indicando que parte do gás consegue escapar sem ser completamente consumida pelas chamas.

Por que ninguém simplesmente fecha o buraco e apaga o fogo de uma vez?
Porque a cratera é apenas a manifestação visível de um sistema subterrâneo. Selar a superfície sem controlar adequadamente a pressão e os caminhos percorridos pelo gás poderia simplesmente fazer o metano encontrar outras rotas através do terreno. Por isso, reduzir o fornecimento subterrâneo tende a ser uma tarefa muito mais complexa do que extinguir uma fogueira convencional.
Além disso, a frase de que “ninguém consegue apagar” a Porta do Inferno já não descreve perfeitamente a situação atual. As chamas continuam existindo, mas sua intensidade caiu drasticamente e trabalhos recentes procuram reduzir ainda mais o gás que chega ao local. Depois de décadas funcionando como uma gigantesca fogueira no meio do Karakum, a Cratera de Darvaza pode estar entrando lentamente em uma fase muito diferente daquela que a tornou famosa no mundo inteiro.
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