O peso das baterias faz carros elétricos poluírem o ar 1.850 vezes mais que motores a combustão, afirma estudo
A comparação considera partículas liberadas pelo desgaste dos pneus, mas o número exige contexto e interpretação cuidadosa
A afirmação de que carros elétricos poluem o ar 1.850 vezes mais que modelos a combustão ganhou força nas redes sociais, mas mistura comparações diferentes. O número existe em um relatório sobre partículas liberadas pelos pneus, porém não mede a poluição total dos carros elétricos nem demonstra que as baterias, sozinhas, produzam esse resultado. O contexto muda completamente a interpretação.
Por que o peso das baterias entrou no debate sobre poluição?
Os carros elétricos carregam conjuntos de baterias que podem pesar centenas de quilos. Esse peso adicional aumenta a carga suportada pelos pneus e pode contribuir para maior desgaste, especialmente em veículos grandes, conduzidos com acelerações intensas ou equipados com compostos pouco resistentes.
Quando o pneu se desgasta, libera partículas formadas por borracha sintética, cargas minerais e outros componentes. Parte desse material fica na pista, no solo e na água, enquanto uma fração menor pode permanecer suspensa no ar. O problema é real e afeta carros elétricos, híbridos e veículos movidos a combustíveis.
O peso das baterias faz carros elétricos poluírem 1.850 vezes mais?
Não. O número de 1.850 vezes compara a massa média de partículas geradas pelo desgaste dos pneus de carros em geral com as emissões de partículas do escapamento de veículos modernos a gasolina, não a poluição total de elétricos contra a de carros a combustão. A comparação foi publicada em 2022 pela empresa britânica Emissions Analytics e voltou a circular em 2024.
Segundo a análise original da Emissions Analytics, a média calculada para o desgaste dos pneus ao longo de sua vida útil foi 1.850 vezes superior à massa de partículas medida no escapamento de automóveis modernos equipados com filtros eficientes. A própria empresa apresentou outro cálculo, de quase 400 vezes, ao estimar o efeito de meia tonelada adicional de bateria, mantendo as demais condições iguais.
- O valor compara partículas dos pneus com partículas do escapamento
- O cálculo não representa todas as emissões dos veículos
- Todos os carros liberam resíduos pelo desgaste dos pneus
- Veículos pesados podem aumentar a geração dessas partículas
Para ampliar o tema, o canal Everything Electric CARS, que conta com mais de 1,11 milhão de inscritos no YouTube, apresenta o vídeo “The Secret Pollution That All Cars Are Guilty Of”. O conteúdo visita pesquisadores do Imperial College London e mostra como o desgaste dos pneus libera partículas, por que o problema atinge diferentes tipos de automóvel e quais soluções estão sendo estudadas, alinhado ao tema tratado acima:
Como o peso das baterias pode aumentar o desgaste dos pneus?
Quanto maior a massa transportada, maior tende a ser a força exercida sobre pneus e pavimento. Nos carros elétricos, o torque entregue rapidamente pelo motor também pode acelerar o desgaste quando o motorista realiza arrancadas fortes, frenagens frequentes ou curvas em velocidade elevada. Mesmo assim, o resultado depende do projeto do veículo, do pneu, da calibragem e da condução.
Não é correto presumir que todo elétrico desgaste pneus mais rapidamente que qualquer carro a combustão. Um SUV a gasolina pode ser mais pesado do que um elétrico compacto, enquanto pneus desenvolvidos para suportar maior carga podem apresentar desempenho diferente. Fabricantes também ajustam compostos, desenhos e estruturas para reduzir resistência ao rolamento e prolongar a durabilidade.
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O que o estudo realmente comparou sobre o peso das baterias?
A comparação mais divulgada colocou, de um lado, partículas de desgaste produzidas por pneus e, do outro, partículas sólidas emitidas pelo escapamento de carros modernos a gasolina. Ela não incluiu, naquele número de 1.850 vezes, todos os gases do motor, como dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio, nem uma avaliação completa do ciclo de vida de cada tecnologia.
A diferença é decisiva porque “poluição” engloba substâncias e impactos distintos. Partículas de pneus, gases do escapamento, produção de eletricidade, fabricação de baterias e emissões de carbono não podem ser reunidos em uma única proporção sem indicar exatamente o que está sendo medido.
Por que o número de 1.850 vezes pode induzir ao erro?
O valor parece comparar diretamente um carro elétrico inteiro com um automóvel a gasolina inteiro, mas não faz isso. Além disso, o levantamento da Emissions Analytics não passou por revisão científica por pares, e especialistas e fabricantes questionam até que ponto seus testes representam diferentes pneus, veículos, estradas e formas de condução.
A comparação também usa escapamentos modernos, cujas emissões de partículas ficaram muito baixas com filtros mais eficientes. Isso aumenta matematicamente a diferença em relação à massa liberada pelos pneus. Mesmo assim, motores a combustão continuam emitindo dióxido de carbono e outros poluentes que não aparecem nessa proporção específica.
- Separar partículas dos pneus das emissões de gases
- Comparar veículos de tamanho e peso semelhantes
- Considerar direção, calibragem e qualidade dos pneus
- Avaliar fabricação, uso e fonte da eletricidade

O peso das baterias elimina o benefício ambiental dos carros elétricos?
Não. O peso pode aumentar uma categoria de poluição não proveniente do escapamento, mas isso não significa que veículos elétricos tenham impacto total maior em todas as situações. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos afirma que elétricos normalmente apresentam menor pegada de carbono durante sua vida útil do que carros novos a gasolina, mesmo quando a geração da eletricidade e a fabricação são consideradas.
O debate levantado pelo estudo aponta para outro problema: trocar o motor não resolve sozinho os impactos provocados por automóveis grandes e pesados. Carros menores, pneus duráveis, calibragem correta, aceleração moderada e transporte coletivo continuam importantes. O número de 1.850 vezes revela a dimensão esquecida do desgaste dos pneus, mas usá-lo para afirmar que baterias fazem elétricos poluírem mais que motores a combustão distorce o que foi realmente medido.
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