O pedaço de piche de bétula mastigado há 5.700 anos que preservou cerca de 390 milhões de leituras de DNA e permitiu reconstruir um genoma humano completo sem nenhum osso no sítio
Um pedaço de resina mastigado há 5.700 anos permitiu reconstruir um genoma humano completo sem nenhum osso no sítio. Entenda como isso foi possível

O que você vai ver
- O que é o pedaço de piche mastigado há 5.700 anos.
- Por que a resina conseguiu preservar tanto DNA.
- O que os cientistas descobriram sobre quem mastigou o piche.
- Que outros vestígios biológicos apareceram na mesma amostra.
Nenhum osso humano foi encontrado no sítio arqueológico dinamarquês de Syltholm, mas um pequeno pedaço de resina escura, mastigado há 5.700 anos e cuspido no barro, guardava informação suficiente para reconstruir o genoma completo de quem o mastigou.
O que é o pedaço de piche mastigado há 5.700 anos?
O objeto é um pedaço de piche de bétula, substância obtida ao aquecer a casca dessa árvore, usada na pré-história como uma espécie de cola natural para fixar pontas de ferramentas de pedra em cabos de madeira. Antes de virar cola, porém, o piche precisava ser amolecido na boca, processo que deixava marcas de dentes na resina.
Encontrado no sítio de Syltholm, no sul da Dinamarca, esse pedaço específico de piche mastigado permitiu aos pesquisadores recuperar cerca de 390 milhões de leituras de material genético, quantidade suficiente para montar um genoma humano completo, feito raro mesmo em sítios que preservam ossos.
DNA analysis of ancient birch 'chewing gum' reveals it was chomped by a Danish hunter-gatherer with dark skin and blue eyes who dined on duck and hazelnuts 5,700 years ago…
— Archaeo – Histories (@archeohistories) April 14, 2025
Thousands of years ago, a young Neolithic woman in what is now Denmark chewed on a piece of birch… pic.twitter.com/TvcMrpa13t
Por que a resina conseguiu preservar tanto DNA?
O piche de bétula é uma substância hidrofóbica, ou seja, repele água, característica que ajudou a isolar o material genético preso em seu interior da umidade e de outros fatores ambientais que normalmente degradam o DNA ao longo de milênios.
Essa propriedade transformou o pedaço de piche numa espécie de cápsula biológica improvisada, capturando não só o DNA da saliva de quem o mastigou, mas também vestígios genéticos de tudo que passava pela boca dessa pessoa no momento da mastigação.
O que os cientistas descobriram sobre quem mastigou o piche?
A análise genética revelou que o piche foi mastigado por uma mulher, apelidada informalmente de “Lola” pelos próprios pesquisadores. As características físicas reconstruídas a partir do DNA indicavam pele escura, cabelo escuro e olhos azuis, combinação de traços já observada em outros europeus pré-históricos da mesma época analisados em estudos anteriores.
O genoma também indicou que essa mulher provavelmente pertencia a um grupo de caçadores-coletores geneticamente mais próximo de populações do continente europeu do que dos primeiros agricultores que já viviam na região escandinava naquele período.
Que outros vestígios biológicos apareceram na mesma amostra?
Além do DNA humano, os pesquisadores identificaram material genético de micro-organismos presentes na boca da mulher, incluindo bactérias associadas à cavidade oral e, possivelmente, vestígios de um vírus que pode ter estado presente em sua saliva no momento em que ela mastigava o piche.
A amostra também revelou DNA de avelã e de pato selvagem, provavelmente restos de alimentos consumidos pouco antes ou depois de mastigar a resina, o que deu aos pesquisadores uma pista adicional sobre a dieta dessa comunidade de caçadores-coletores no norte da Europa.

Por que essa descoberta muda a forma de estudar sítios sem esqueletos?
Antes desse estudo, a reconstrução de genomas antigos dependia quase sempre da existência de ossos ou dentes bem preservados no sítio arqueológico, condição que exclui uma enorme quantidade de locais onde a acidez do solo ou as condições climáticas destroem completamente o material esquelético ao longo dos milênios.
Provar que um item cotidiano descartado, como um pedaço de goma de mascar pré-histórica, pode conter DNA suficiente para reconstruir um genoma completo abre a possibilidade de reanalisar sítios já escavados havia décadas, procurando por vestígios biológicos indiretos que antes eram descartados ou ignorados por não parecerem relevantes.
- Piche de bétula: cola natural pré-histórica, amolecida na boca antes do uso.
- Idade da amostra: 5.700 anos, sítio de Syltholm, Dinamarca.
- Genoma completo reconstruído sem nenhum osso humano encontrado no local.
- DNA revelou também micróbios orais, avelã e pato selvagem consumidos pela mulher.
Material genético preservado por acaso também tem ajudado cientistas a reconstruir a história de espécies desaparecidas, como mostra o caso do último tigre-da-Tasmânia, filmado andando em círculos numa jaula antes de desaparecer para sempre.
Mais detalhes sobre a reconstrução do genoma a partir do piche de bétula estão disponíveis no estudo publicado na Nature Communications.
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