O maxilar deste tubarão dispara para fora da cabeça e ajuda um predador rosado a caçar na escuridão profunda
Sensores elétricos e mandíbulas extremamente móveis permitem ataques rápidos em ambientes profundos com pouca luz
Com focinho achatado, pele rosada e mandíbulas capazes de avançar subitamente para fora da cabeça, o tubarão-duende parece construído para um ambiente onde enxergar é difícil. O tubarão-duende Mitsukurina owstoni combina sensores elétricos no focinho com uma das projeções de mandíbula mais extremas conhecidas entre tubarões, permitindo capturar peixes, lulas e crustáceos no mar profundo.
Como o tubarão-duende encontra presas onde quase não existe luz?
O focinho comprido e achatado, chamado rostro, contém numerosas ampolas de Lorenzini. Esses órgãos sensoriais detectam campos elétricos muito fracos produzidos pela atividade muscular e nervosa de outros animais, oferecendo informações importantes quando a iluminação é reduzida.
Isso não significa que o tubarão-duende seja completamente dependente da eletrorecepção ou incapaz de enxergar. Seus olhos também participam da percepção do ambiente, mas o sistema elétrico fornece uma vantagem adicional para localizar organismos próximos no fundo ou na coluna d’água.
Até onde o maxilar consegue avançar para fora da cabeça?
Filmagens analisadas em laboratório mostraram que as mandíbulas podem avançar uma distância equivalente a aproximadamente 8,6% a 9,4% do comprimento total do animal. Em relação ao comprimento da cabeça, a projeção alcançou cerca de um terço.
O movimento é extremamente rápido. Durante ataques registrados em dois indivíduos, a mandíbula inferior chegou a avançar a aproximadamente 3,1 metros por segundo. Os pesquisadores chamaram essa sequência de “alimentação por estilingue”, porque as mandíbulas parecem ser lançadas subitamente na direção da presa.
- Mandíbula superior projetada para a frente;
- Mandíbula inferior com deslocamento ainda maior;
- Velocidade máxima próxima de 3,1 m/s;
- Projeção de até cerca de 9,4% do corpo;
- Movimento combinado com grande abertura da boca.
Este vídeo mostra o mecanismo de alimentação do tubarão-duende.
Como o tubarão-duende executa um ataque tão rápido?
Antes da projeção, a mandíbula inferior gira para baixo e para trás, aumentando muito a abertura da boca. Em seguida, as duas mandíbulas avançam rapidamente enquanto a boca começa a se fechar sobre a presa. Depois, todo o conjunto retorna para a posição normal.
O mecanismo está relacionado à suspensão móvel das mandíbulas e a ligamentos capazes de permitir grande deslocamento em relação ao crânio. Essa combinação é especialmente útil para um animal de corpo relativamente flácido e nadadeiras pequenas, que provavelmente não depende de perseguições prolongadas em alta velocidade.
O que as filmagens revelaram sobre esse sistema de caça?
Durante décadas, o comportamento alimentar era inferido principalmente por anatomia e por exemplares capturados. A situação mudou quando pesquisadores analisaram cinco eventos de ataque registrados no mar em 2008 e 2011, envolvendo dois indivíduos vivos.
O estudo publicado na Scientific Reports mostrou que a projeção observada era maior e mais rápida do que aquela documentada em outros tubarões analisados pelos autores. A interpretação proposta é que esse mecanismo compensa, ao menos parcialmente, uma capacidade de natação menos explosiva.

Por que a pele desse tubarão parece rosada?
A aparência rosada não vem de pigmentação intensa semelhante à de muitos peixes coloridos. A pele é relativamente translúcida, permitindo que vasos sanguíneos contribuam para o tom observado em exemplares vivos ou recém-capturados.
O tubarão-duende habita águas profundas e possui distribuição ampla, com registros em diferentes oceanos. Adultos são frequentemente encontrados a centenas de metros de profundidade, embora indivíduos possam ocorrer em diferentes faixas dependendo da idade e da região.
Esse mecanismo transforma o tubarão-duende em um caçador especializado?
A anatomia sugere uma estratégia adequada a encontros relativamente próximos com presas. Em vez de acelerar como alguns outros tubarões, ele pode reduzir rapidamente a distância restante projetando a boca para a frente no instante final do ataque.
O tubarão-duende mostra como diferentes estruturas podem trabalhar juntas em ambientes profundos: o rostro ajuda a detectar sinais elétricos, enquanto mandíbulas altamente móveis ampliam o alcance do bote. O resultado é um sistema de alimentação raro, adaptado a capturar presas onde velocidade e visão nem sempre são suficientes.
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