O fenômeno que faz o céu ‘sangrar’ e aconteceu apenas poucas vezes nos últimos 100 anos
O espetáculo do céu carmesim revela o impacto brutal da maior explosão solar registrada nas últimas décadas.
Na noite de 10 de maio de 2024, milhões de pessoas ao redor do mundo olharam para cima e viram o céu “sangrar”. Um vermelho intenso cobriu regiões onde a aurora boreal simplesmente não acontece, como o centro do México, o sul da Flórida e a Namíbia. Não era um efeito digital: foi a maior tempestade geomagnética em mais de vinte anos, um evento raro que talvez só se repita algumas vezes por século.
Por que a cor vermelha é tão especial nesse fenômeno?
A aurora é causada pela colisão de partículas solares contra a nossa atmosfera. O oxigênio a cerca de 100 a 150 km de altitude produz o verde que estamos acostumados a ver. Mas quando a colisão acontece acima de 200 km, a densidade do ar é tão baixa que o oxigênio emite um brilho vermelho, exatamente o mesmo princípio que acende uma lâmpada de néon.
Segundo o Centro de Previsão do Clima Espacial da NOAA, esse tom só aparece em tempestades solares extremas, pois a energia precisa ser imensa para excitar as camadas superiores da atmosfera. É isso que torna o “céu sangrando” um sinal inconfundível de um evento G5, o nível máximo na escala de tempestades geomagnéticas.
Entenda quando a cor da aurora fica vermelha:
| Fator | Detalhe |
|---|---|
| Causa da aurora | Colisão de partículas solares na atmosfera |
| Cor verde (mais comum) | Oxigênio a 100 a 150 km de altitude |
| Cor vermelha (rara) | Oxigênio acima de 200 km de altitude |
| Princípio físico | Mesmo mecanismo da lâmpada de néon |
| Nível da tempestade necessário | G5, nível máximo geomagnético |
| Fonte científica | Centro de Previsão do Clima Espacial da NOAA |
O que torna o evento de maio de 2024 um marco histórico?
Não foi apenas a cor, mas a extensão. As partículas solares derrubaram momentaneamente o campo magnético da Terra, que serve como escudo. O oval da aurora, normalmente restrito aos polos, expandiu-se até latitudes médias. Relatos de avistamentos chegaram de Portugal, do Uruguai e até do Nordeste do Brasil, algo impensável fora de um máximo solar.
Este evento foi o primeiro G5 desde 2003 e é considerado o mais bem documentado da história. Cientistas do mundo todo agora analisam os dados para entender melhor como a atmosfera superior se aqueceu e se distorceu com o impacto, usando modelos como o TIEGCM da NASA.
Existe perigo real por trás dessa beleza?
Sim, e ele é invisível. A Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA) emitiu alertas de G4 a G5 em maio de 2024 porque as ejeções de massa coronal que colorem o céu também podem corromper o sinal de GPS e derrubar a rede elétrica. Apesar do show vermelho, o evento não causou um apagão global, mas várias operadoras de satélite e redes de energia ficaram em alerta máximo.
As mesmas correntes elétricas que pintam o céu podem sobrecarregar transformadores e confundir sistemas de navegação aérea. A beleza do fenômeno é, na prática, o aviso visual de que a Terra acabou de absorver um golpe colossal do Sol.
Por que esse fenômeno aconteceu justamente em 2024 e 2025?
O Sol segue um ciclo de 11 anos. Em outubro de 2024, o Ciclo Solar 25 atingiu seu pico oficial. Embora o número de manchas solares comece a cair, a fase de declínio do ciclo é historicamente mais propícia a tempestades violentas. Lisa Upton, do Southwest Research Institute, explica que manchas solares maiores e magneticamente mais complexas se formam nesse período, e suas interações produzem erupções e CMEs extremamente potentes.
Por isso, especialistas do Instituto Meteorológico Finlandês alertam que, apesar de o pico ter passado, 2025 e 2026 ainda podem reservar supertempestades. Cada uma delas carrega a possibilidade de ver novamente o céu noturno vermelho-vivo em locais improváveis.
Quando a humanidade viu um céu vermelho como esse antes?
Eventos dessa magnitude são colecionados na memória científica. A aurora é um fenômeno que ocorre desde sempre, mas a última vez que uma tempestade G5 havia sido registrada antes de 2024 foi em outubro de 2003. Na época, as famosas “tempestades de Halloween” também provocaram auroras vermelhas e causaram apagões na Suécia. Para encontrar algo mais forte, é preciso voltar ao Evento de Carrington em 1859, quando telégrafos pegaram fogo e o céu ficou carmesim sobre Roma e Havana.
Abaixo, veja os eventos mais raros em que o céu “sangrou” no último século:
- 1921: A Grande Tempestade Solar provoca incêndios em telégrafos e auroras vermelhas sobre o Caribe.
- 1989: Uma ejeção de massa coronal derruba a rede elétrica de Quebec e acende o céu sobre a América do Norte.
- 2003: As tempestades de Halloween colorem o céu de vermelho e afetam satélites e redes de comunicação.
- 2024: O primeiro G5 em 20 anos espalha o tom avermelhado sobre todos os continentes e entra para a história.

Leia também: A psicologia revela por que a geração atual sente um pânico real de atender ligações telefônicas sem aviso prévio
Como se preparar para o próximo céu sangrento?
A NOAA e outras agências mantêm um monitoramento constante do clima espacial. Qualquer pessoa pode acompanhar a previsão de auroras em tempo real no site do SWPC. Quando uma CME é detectada, o alerta chega com até três dias de antecedência, tempo suficiente para ajustar satélites e colocar redes elétricas em modo seguro.
Da próxima vez que o Sol enviar uma nuvem de plasma diretamente contra nós, e o céu da sua cidade começar a brilhar em um vermelho sobrenatural, você saberá que está testemunhando uma das poucas vezes em cem anos em que a Terra literalmente se banha em sangue cósmico.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)