O erro de cálculo de apenas 2 milímetros em uma solda que quase derrubou um arranha-céu famoso de 59 andares no meio da cidade
Equipes soldaram placas de aço durante a madrugada enquanto um plano de evacuação era preparado para os quarteirões de Manhattan
Em 1978, a crise do Citicorp colocou engenheiros diante de uma possibilidade assustadora: um dos arranha-céus mais reconhecidos de Nova York poderia não resistir a uma combinação específica de ventos fortes, enquanto milhares de pessoas trabalhavam dentro dele sem conhecer o problema.
Como a crise do Citicorp começou dentro do arranha-céu de 59 andares?
O Citicorp Center foi concluído em 1977 no movimentado centro de Manhattan, onde hoje funciona o edifício conhecido como 601 Lexington Avenue. A torre possui 59 andares, cerca de 279 metros de altura e uma cobertura inclinada que ajudou a transformá-la em um marco visual de Nova York.
O desafio começou antes mesmo da construção, pois a Igreja Luterana de São Pedro ocupava uma parte do terreno e exigiu que seu novo templo permanecesse estruturalmente separado da torre. Por isso, os projetistas apoiaram o edifício sobre quatro enormes colunas posicionadas no centro de cada lado, e não nos cantos, criando uma solução ousada que exigia um sistema especial de contraventamentos.
Quais são os 4 fatos que tornaram o caso tão perigoso?
O engenheiro estrutural William LeMessurier desenvolveu grandes contraventamentos metálicos em formato de “V” para distribuir o peso e resistir à ação do vento. No entanto, uma revisão feita depois da inauguração mostrou que a estrutura enfrentava uma vulnerabilidade que não aparecia nos cálculos mais comuns usados durante o projeto.
- A torre possuía 59 andares.
- As colunas principais ficavam no centro das fachadas.
- As conexões receberam parafusos no lugar das soldas previstas.
- Ventos diagonais aumentavam as forças sobre as juntas.
O vídeo publicado pela National Academy of Engineering apresenta uma palestra do próprio William LeMessurier sobre a crise. Ele explica o projeto da torre, a descoberta da vulnerabilidade e as decisões tomadas para reforçar o edifício, tornando o material especialmente relevante por registrar a versão do engenheiro diretamente envolvido no caso.
O suposto erro de 2 milímetros causou a crise do Citicorp?
Não existem registros técnicos confiáveis que indiquem que uma solda com diferença de apenas dois milímetros tenha provocado a emergência. Essa versão simplifica e distorce o caso, pois o problema real envolveu a combinação entre os cálculos dos ventos diagonais e a substituição de conexões soldadas por juntas parafusadas durante o detalhamento da construção.
LeMessurier havia considerado principalmente os ventos que atingiam diretamente uma das faces do prédio. Quando refez os cálculos para os chamados ventos de quadrante, que alcançavam simultaneamente duas fachadas, ele encontrou um aumento de aproximadamente 40% nas cargas sobre partes do sistema e uma elevação ainda maior das forças aplicadas às conexões parafusadas.
Por que os ventos diagonais ameaçavam tanto o edifício?
Em um prédio convencional, colunas localizadas nos cantos ajudam a distribuir as forças geradas pelo vento. No Citicorp Center, porém, as colunas centrais deixavam os cantos suspensos, enquanto os contraventamentos transportavam as cargas até os quatro grandes apoios posicionados nas fachadas.
| Elemento analisado | Situação original | Risco identificado |
|---|---|---|
| Direção do vento | Análise concentrada nas fachadas | Ventos diagonais atingiam duas faces |
| Conexões metálicas | Soldas previstas no conceito | Parafusos ofereciam menor resistência |
| Amortecedor de massa | Reduzia a oscilação da torre | Dependia de energia elétrica |
| Condição crítica | Tempestade com vento comum | Furacão atingindo os cantos da torre |
A torre também utilizava um amortecedor de massa instalado perto do topo para reduzir a oscilação provocada pelo vento. No entanto, o equipamento dependia do fornecimento elétrico e poderia parar durante uma tempestade, justamente quando seria mais necessário, por isso foram instalados geradores de emergência e sistemas adicionais de monitoramento.
Como os trabalhadores reforçaram o prédio sem revelar a operação?
Depois de confirmar a vulnerabilidade, LeMessurier comunicou o problema aos responsáveis pelo Citicorp e participou da preparação de um reforço emergencial. As equipes removeram partes das paredes internas e soldaram placas de aço com cerca de cinco centímetros de espessura sobre aproximadamente 200 conexões parafusadas, ampliando a resistência do sistema estrutural.
Grande parte do trabalho aconteceu à noite, quando os escritórios estavam vazios, enquanto as atividades normais continuavam durante o dia. O público recebeu poucas informações e planos de evacuação foram preparados para os quarteirões próximos, mas a operação permaneceu praticamente desconhecida por muitos anos, favorecida inclusive por uma greve dos principais jornais da cidade.

Como a crise do Citicorp quase terminou durante a passagem de um furacão?
Cerca de seis semanas depois do início dos reparos, o furacão Ella avançou pela costa leste dos Estados Unidos e chegou a ameaçar a região de Nova York. Naquele momento, apenas parte dos reforços estava pronta, por isso engenheiros, autoridades e equipes de emergência acompanharam a trajetória da tempestade com grande preocupação.
Ella mudou de direção e seguiu para o oceano antes de atingir a cidade, permitindo que os trabalhadores concluíssem a reforma em outubro de 1978. Segundo o material histórico do programa Building Big, da PBS, as placas foram instaladas durante aproximadamente três meses e corrigiram de forma permanente a vulnerabilidade das conexões.
O que a crise do Citicorp ensinou à engenharia mundial?
A história tornou-se um dos estudos de caso mais conhecidos sobre responsabilidade profissional, porém ela também provoca debates. LeMessurier recebeu reconhecimento por admitir o risco e ajudar a organizar os reparos, mas críticos destacam que o problema nasceu de falhas de supervisão, verificação e comunicação durante o projeto.
Além disso, o sigilo impediu que trabalhadores, moradores e pessoas que circulavam nas proximidades compreendessem o perigo enquanto os reparos estavam em andamento. O caso só ganhou ampla repercussão em 1995 e, desde então, mostra que projetos inovadores exigem cálculos independentes, revisão de alterações construtivas e comunicação transparente quando a segurança pública está ameaçada.