O dispositivo eletrônico cheio de ouro está esquecido na sua gaveta
Cientistas transformam resíduos de queijo em ouro a partir de eletrônicos descartados
Sob a tela rachada daquele smartphone aposentado e na placa-mãe do notebook abandonado no fundo do armário existe algo que poucos imaginam. Esses aparelhos guardam quantidades reais de ouro, um metal essencial para a condução elétrica em circuitos modernos. E uma pesquisa suíça publicada em 2024 mostrou como recuperar esse tesouro escondido usando um ingrediente improvável: as proteínas do soro de leite que sobram da fabricação de queijos.
Como funciona o método que transforma queijo em ouro?
O processo desenvolvido pelo ETH Zurich, instituto federal suíço de tecnologia, parte de uma esponja feita com fibrilas proteicas extraídas do soro do leite. A equipe liderada pelo professor Raffaele Mezzenga publicou o estudo no periódico ETH Zurich em março de 2024, com detalhes técnicos no Advanced Materials.
O caminho da matéria-prima até a pepita final segue etapas bem definidas em laboratório. Veja o passo a passo simplificado da técnica:
- As proteínas do soro são desnaturadas em condições ácidas e altas temperaturas, formando nanofibrilas em gel
- O gel é seco e transformado em uma esponja porosa altamente seletiva
- Placas de circuito de eletrônicos descartados são dissolvidas em solução ácida, liberando íons metálicos
- A esponja é mergulhada na solução e captura preferencialmente os íons do metal precioso
- O aquecimento da esponja consolida o material em uma pepita sólida

Quanto ouro é possível recuperar de eletrônicos descartados?
Os resultados do experimento suíço impressionam pela escala doméstica. A partir de 20 placas-mãe de computadores antigos, os pesquisadores extraíram uma pepita de 450 miligramas com 91% de pureza, equivalente a 22 quilates.
O dado financeiro do estudo é ainda mais revelador. Segundo cálculos do próprio Mezzenga divulgados pela ScienceDaily, o valor do material recuperado supera em 50 vezes os custos de matéria-prima e energia gastos no processo. Compare os métodos de recuperação do metal precioso:
| Aspecto | Método tradicional | Método com soro de leite |
| Energia consumida | Muito alta | Baixa |
| Químicos tóxicos | Necessários | Substituídos por subproduto alimentar |
| Custo vs. valor recuperado | Pouca margem | 50 vezes inferior ao valor obtido |
| Pureza final | Variável | 22 quilates (91%) |
Por que o lixo eletrônico se tornou um problema global?
O volume de aparelhos descartados cresce em ritmo alarmante e desproporcional à capacidade de reciclagem. Segundo o Global E-waste Monitor 2024, publicado pela ONU em parceria com a União Internacional de Telecomunicações, o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, volume suficiente para encher 1,55 milhão de caminhões.
O dado mais impactante, porém, está no que se perde. Apenas 22,3% desse total foi formalmente coletado e reciclado no ano analisado, deixando o equivalente a 62 bilhões de dólares em metais valiosos espalhados em aterros e gavetas pelo planeta. A projeção é que o número chegue a 82 milhões de toneladas até 2030, segundo a União Internacional de Telecomunicações.

Vale a pena tentar reproduzir o experimento em casa?
A resposta direta é não, e a equipe suíça faz questão de reforçar esse alerta. O processo envolve manuseio de ácidos fortes em temperaturas elevadas, com riscos sérios de queimaduras químicas, intoxicação e contaminação ambiental. Sem equipamentos de proteção individual e ventilação adequada, qualquer tentativa caseira pode causar acidentes graves.
O verdadeiro destino dessa pesquisa é industrial, voltada à economia circular e à mineração urbana. A ideia é que centros de reciclagem profissionais possam adotar o método em escala, recuperando metais preciosos sem o passivo ambiental das técnicas convencionais. Para o consumidor comum, o papel mais útil continua sendo destinar aparelhos antigos a pontos oficiais de coleta.
Você sabe onde está seu próximo aparelho aposentado agora?
A descoberta do ETH Zurich reforça uma verdade incômoda sobre nossos hábitos de consumo. Cada smartphone, notebook ou videogame guardado por anos numa gaveta carrega valor que poderia voltar ao ciclo produtivo de forma limpa. Se tem um aparelho antigo parado em casa, dá uma olhada nele com outros olhos, ele provavelmente vale mais do que você imagina.
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