O bizarro avião circular que os militares construíram em segredo e mal conseguia passar de um metro do chão
O projeto prometia decolagem vertical e velocidade de caça, mas seu formato incomum escondia um grave problema de estabilidade
Em plena Guerra Fria, uma aeronave baixa, circular e equipada com duas cabines começou a deslizar sobre uma pista canadense. Seu formato lembrava os objetos misteriosos que dominavam o cinema da época, mas o veículo não era cenário, truque fotográfico nem relato de testemunha assustada.
Por que os militares apostaram em uma aeronave com formato tão estranho?
Na década de 1950, Estados Unidos e União Soviética disputavam qualquer tecnologia capaz de oferecer vantagem no campo de batalha. Uma aeronave que dispensasse pistas longas poderia decolar perto das tropas, atravessar terrenos destruídos e operar em bases improvisadas. Os militares buscavam algo que reunisse a mobilidade de um helicóptero com a velocidade de um caça.
O engenheiro britânico John Frost, que trabalhava na fabricante canadense Avro Canada, acreditava que um corpo circular poderia distribuir o fluxo de ar ao redor de toda a borda. Seus primeiros estudos eram muito mais ambiciosos do que o veículo que acabaria construído. A proposta inicial envolvia uma máquina supersônica, capaz de subir verticalmente e depois acelerar como um avião convencional.
Como o Avrocar deveria voar sem asas convencionais?
O projeto que materializou parte dessa ideia recebeu o nome Avro Canada VZ-9 Avrocar. No centro do disco havia um grande conjunto chamado turborrotor, alimentado por três motores a jato. O sistema captava o ar, acelerava esse fluxo e o direcionava para as bordas, criando uma almofada de pressão sob a fuselagem durante a decolagem.
- Três motores a jato acionavam o turborrotor central
- O ar pressurizado era conduzido até a borda circular
- Defletores direcionavam o fluxo para controlar o veículo
- Duas cabines individuais acomodavam os pilotos
- Um trem de pouso curto sustentava o disco no solo
Para complementar o tema, o vídeo “That Time Canada Built a Flying Saucer; the story of the Avro Canada VZ-9 Avrocar” apresenta a história do projeto e imagens do protótipo em testes, ajudando a visualizar sua decolagem vertical e os problemas de estabilidade:
A intenção era que, depois de subir, o disco inclinasse o fluxo de ar para trás e avançasse rapidamente. Na prática, ele funcionava melhor muito perto do chão, onde o ar comprimido ficava preso entre a fuselagem e a superfície. Esse fenômeno, chamado efeito solo, aumentava temporariamente a sustentação e fazia o veículo parecer um enorme aerodeslizador militar.
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Por que o Avrocar perdia o controle quando tentava subir?
A poucos centímetros da pista, o protótipo conseguia flutuar e realizar deslocamentos curtos. Quando passava de aproximadamente um metro de altura, porém, saía da região em que o efeito solo ajudava a estabilizá-lo. O fluxo sob o disco tornava-se irregular, e a aeronave começava a balançar para a frente, para trás e para os lados.
Os engenheiros apelidaram esse comportamento de hubcapping, em referência ao movimento instável de uma calota metálica girando ou oscilando no chão. O piloto precisava corrigir continuamente a atitude do aparelho, mas os controles respondiam com pouca precisão. Em vez de se transformar em um caça ágil, o disco mal conseguia manter um voo estável fora de sua almofada de ar.
O que os testes revelaram sobre o desempenho do disco voador?
Os números ficaram muito abaixo das expectativas divulgadas no início do programa. O veículo construído tinha cerca de 5,5 metros de diâmetro, pouco mais de um metro de altura e peso vazio superior a 1,3 tonelada. Embora seus estudos iniciais previssem velocidades impressionantes, os protótipos permaneceram lentos e próximos do solo.
| Característica | Resultado aproximado |
|---|---|
| Diâmetro | 5,5 metros |
| Altura | Cerca de 1,1 metro |
| Motores | Três turbojatos Continental J69 |
| Tripulação prevista | Dois pilotos |
| Velocidade obtida nos testes | Aproximadamente 56 km/h |
A baixa altura também expunha o aparelho a pedras, poeira e detritos levantados pelo próprio jato de ar. O ruído era intenso, a potência disponível não entregava a sustentação esperada e o sistema consumia combustível rapidamente. Modificações nas saídas de ar e nos controles trouxeram melhorias pontuais, mas não resolveram o problema central de estabilidade.
O Avrocar foi realmente construído para imitar um disco voador?
Não há evidência de que o objetivo principal fosse enganar observadores ou fazer o veículo parecer uma nave extraterrestre. A semelhança nasceu da solução aerodinâmica escolhida pelos engenheiros. Naqueles anos, contudo, relatos de objetos voadores não identificados estavam em alta, e a aparência circular tornou inevitável a associação com os discos vistos em revistas e filmes.
O sigilo militar ampliou essa aura. O trabalho canadense recebeu financiamento dos Estados Unidos e esteve ligado a programas classificados que exploravam aeronaves de decolagem vertical. Quando documentos e fotografias vieram a público, o aparelho parecia confirmar uma fantasia popular: governos realmente haviam financiado uma máquina circular capaz de deixar o chão, ainda que seu desempenho fosse muito menos extraordinário do que os rumores sugeriam.

Como terminou a experiência do disco voador militar?
Depois de anos de testes e milhões de dólares investidos, o programa foi encerrado em 1961. Apenas dois protótipos foram construídos. As avaliações mostraram que seriam necessárias mudanças profundas para transformar o conceito em uma aeronave militar útil, e não havia garantia de que novos investimentos produziriam a velocidade, a altitude e o controle originalmente prometidos.
Um dos exemplares preservados pode ser visto no Museu Nacional da Força Aérea dos Estados Unidos, em Ohio. O fracasso operacional não tornou a experiência inútil: seus testes forneceram dados sobre ventiladores canalizados, efeito solo e decolagem vertical. A máquina que deveria revolucionar a aviação terminou imóvel em um museu, ainda parecendo estranha demais para pertencer ao mundo real.
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