No inverno do Alasca, a rã-da-madeira congela até o coração parar de bater e pode sobreviver a -12 °C, porque transforma glicogênio em glicose para proteger as células do gelo
O anfíbio acumula glicose nos tecidos e controla onde o gelo se forma para atravessar meses congelado e retomar suas funções na primavera
Quando o inverno chega ao interior do Alasca, a rã-da-madeira (Rana sylvatica, também classificada como Lithobates sylvaticus) pode ficar rígida, parar de respirar e não apresentar batimentos cardíacos detectáveis. Parece morta, mas seu organismo entra em um estado extremo de tolerância ao congelamento e pode permanecer assim durante meses.
Como a rã-da-madeira consegue sobreviver completamente imóvel durante o inverno?
Essas rãs passam o inverno em abrigos rasos sob folhas e matéria vegetal no chão da floresta, não enterradas profundamente. Pesquisadores que acompanharam indivíduos no Alasca registraram animais permanecendo congelados por até 218 dias e sobrevivendo a temperaturas do abrigo inferiores a -18 °C. Portanto, os -12 °C do título estão dentro da capacidade comprovada para populações do Alasca.
O congelamento não transforma cada célula em um bloco sólido. Grande parte do gelo se forma fora das células e ao redor dos órgãos. Essa diferença é crucial, porque cristais dentro das células poderiam romper estruturas e causar danos irreversíveis. A estratégia da espécie consiste justamente em controlar onde o gelo se forma.
Por que a rã-da-madeira transforma glicogênio em tanta glicose?
Quando o congelamento começa, sinais fisiológicos estimulam a quebra rápida do glicogênio armazenado principalmente no fígado. A glicose resultante é distribuída para tecidos como coração, músculos e outros órgãos, aumentando fortemente sua concentração e ajudando as células a reter água durante a formação de gelo ao redor delas.
Entre as etapas desse mecanismo estão.
- Glicogênio acumulado funciona como reserva de carboidrato.
- O início do congelamento estimula sua conversão em glicose.
- A glicose alcança diferentes tecidos pelo sangue.
- O açúcar reduz a perda de água das células.
- Outros crioprotetores, incluindo ureia, também participam da tolerância ao frio.
Neste vídeo produzido pela University of Alaska Fairbanks, pesquisadores mostram diretamente como as rãs-da-madeira do Alasca enfrentam o congelamento natural e explicam o acúmulo de glicose que ajuda esses anfíbios a atravessar meses de frio intenso.
O coração realmente para quando o animal congela?
Sim. Durante o congelamento profundo, os movimentos desaparecem, a respiração cessa e os batimentos cardíacos deixam de ser detectáveis. O fluxo sanguíneo também é interrompido. Para a maioria dos vertebrados, uma combinação como essa produziria rapidamente danos incompatíveis com a sobrevivência.
O metabolismo da rã, entretanto, cai drasticamente. Ela não precisa manter o funcionamento normal de órgãos enquanto permanece congelada. Quando as condições aquecem, o organismo consegue reiniciar gradualmente suas funções, incluindo circulação, atividade nervosa e movimentos.
| Durante o frio | Resposta do organismo |
|---|---|
| Formação de gelo | Ocorre principalmente fora das células |
| Glicogênio | É convertido rapidamente em glicose |
| Coração | Batimentos tornam-se indetectáveis |
| Primavera | Funções fisiológicas são retomadas |
A glicose funciona como um anticongelante igual ao usado em carros?
Não. Chamá-la de “anticongelante natural” ajuda a explicar o fenômeno, mas pode criar uma impressão errada. A glicose não impede que o corpo congele. Pelo contrário, uma parcela muito grande da água corporal pode virar gelo enquanto o animal continua vivo.
Sua função é crioprotetora: ela ajuda a diminuir a desidratação celular e estabiliza estruturas enquanto água é retirada das células pela formação de gelo extracelular. A ureia e outros mecanismos fisiológicos também contribuem, portanto a sobrevivência não depende exclusivamente de açúcar.

Por que a rã-da-madeira do Alasca suporta temperaturas tão extremas?
As populações do Alasca demonstram tolerância particularmente elevada. Em condições naturais, pesquisadores encontraram concentrações de glicose nos músculos 13 vezes maiores e no coração 10 vezes maiores do que em animais congelados em laboratório, diferença associada ao padrão natural de repetidos congelamentos e descongelamentos durante o outono.
O estudo publicado no Journal of Experimental Biology registrou sobrevivência de indivíduos expostos naturalmente a -18,1 °C. A University of Alaska Fairbanks também relata que ciclos sucessivos de congelamento podem estimular liberações repetidas de glicose antes do período mais severo do inverno.
Como o animal volta à atividade depois de meses sem respirar?
Quando a temperatura sobe, o gelo começa a desaparecer e as funções fisiológicas retornam progressivamente. O coração volta a bater, a circulação é restabelecida e, depois, movimentos e comportamentos normais reaparecem. O National Park Service descreve esse retorno como uma sequência que começa internamente antes de o animal voltar a se locomover.
A glicose acumulada também pode ser reutilizada e armazenada novamente como glicogênio. O resultado é um dos exemplos mais extremos de tolerância ao congelamento entre vertebrados: um pequeno anfíbio capaz de atravessar grande parte do inverno aparentemente sem sinais vitais e, na primavera, voltar aos lagos temporários para iniciar outro ciclo de reprodução.
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