No interior do Turcomenistão, uma enorme cratera permanece em combustão há décadas, formando um círculo de fogo com dezenas de metros de largura em uma região desértica praticamente sem construções ao redor
Pesquisas recentes corrigem a história do incêndio enquanto novos poços reduzem o gás que alimenta as famosas chamas no deserto de Karakum
No deserto de Karakum, a cratera de Darvaza tornou-se conhecida como “Porta do Inferno” por abrigar inúmeros focos alimentados por gás natural que emerge do subsolo. A depressão tem cerca de 69 metros de largura e aproximadamente 30 metros de profundidade. Embora durante décadas tenha produzido um brilho intenso visível à distância, as chamas diminuíram bastante nos últimos anos devido a trabalhos para reduzir o fluxo de gás que chega à formação.
Como a cratera de Darvaza realmente se formou no deserto?
A história mais repetida afirma que uma perfuração soviética colapsou em 1971 e que geólogos incendiaram o gás esperando que ele terminasse rapidamente. O problema é que não existem registros históricos sólidos capazes de confirmar todos esses detalhes. Fontes e pesquisadores já apontaram datas diferentes para o colapso e para a ignição.
Uma pesquisa publicada em 2026 trouxe evidências importantes ao analisar antigas imagens Landsat: o fogo provavelmente começou entre o fim de 1987 e o início de 1988, enquanto a própria formação da cratera ainda pode remontar a 1963 ou 1971. Portanto, a ligação com atividades soviéticas de exploração de gás é bem sustentada, mas a versão clássica de um incêndio iniciado em 1971 não deve ser apresentada como fato comprovado.
Por que o fogo conseguiu continuar queimando durante tantas décadas?
A região fica sobre a bacia Amu-Darya, rica em reservas de hidrocarbonetos. Fissuras e caminhos subterrâneos continuam permitindo que gás, composto principalmente por metano, alcance o interior da depressão. Enquanto existe combustível chegando, oxigênio disponível e temperatura suficiente para sustentar a combustão, diferentes pontos podem permanecer acesos.
O processo pode ser resumido em quatro elementos principais:
- Gás natural migra de formações subterrâneas;
- O metano alcança fissuras abertas na cratera;
- O gás entra em contato com o oxigênio atmosférico;
- Focos já acesos mantêm a combustão enquanto existe alimentação suficiente.
Este vídeo apresenta a cratera, sua localização no deserto de Karakum e a história por trás da longa combustão.
A cratera de Darvaza libera apenas gás que acaba sendo queimado?
Não. A chama converte boa parte do metano queimado principalmente em dióxido de carbono e vapor d’água, mas pesquisas recentes mostram que uma parcela significativa pode escapar sem combustão. Satélites hiperespectrais detectaram dezenas de plumas de metano sobre Darvaza entre 2020 e 2025.
O estudo estimou cerca de 71 mil toneladas de metano emitidas nesse período de cinco anos, com grande incerteza estatística associada à estimativa. Isso também explica por que simplesmente apagar as chamas não resolveria necessariamente o problema: sem bloquear ou reduzir a fonte subterrânea, o metano poderia continuar chegando à superfície.
Por que não basta jogar terra ou concreto sobre o fogo?
Cobrir a superfície poderia reduzir o acesso ao oxigênio e apagar alguns focos, mas não necessariamente impediria o gás de encontrar novos caminhos pelas rochas e sedimentos. Especialistas alertam que qualquer tentativa de fechamento precisa considerar pressão, fraturas subterrâneas e localização real das zonas que alimentam o vazamento.
Uma alternativa discutida é atuar diretamente no reservatório, perfurando e operando poços capazes de interceptar ou reduzir a alimentação de gás. Essa estratégia vem sendo aplicada pelo Turcomenistão: novos poços próximos passaram a extrair gás e a intensidade das chamas caiu visivelmente a partir de 2024 e 2025.

O que os números revelam sobre a cratera de Darvaza hoje?
A escala física mudou pouco, mas o aspecto visual está mudando rapidamente. Fotografias antigas mostram praticamente todo o interior iluminado por numerosas chamas; registros recentes mostram focos muito menores. Autoridades turcomenas afirmam que a intensidade da combustão caiu aproximadamente três vezes durante o período monitorado desde 2023.
Uma análise científica publicada em 2026 confirmou uma tendência gradual de redução do fogo, embora não tenha encontrado uma relação simples entre menos chamas e menos metano emitido. Isso reforça a necessidade de distinguir visualmente apagar o incêndio de controlar efetivamente o gás subterrâneo.
| Característica | Informação |
|---|---|
| Diâmetro | Cerca de 69 m |
| Profundidade | Aproximadamente 30 m |
| Início provável do fogo | Fim de 1987 ou início de 1988 |
| Situação recente | Chamas fortemente reduzidas |
A famosa Porta do Inferno pode finalmente deixar de queimar?
Essa possibilidade tornou-se mais concreta. Em 2025, o governo informou que poços próximos estavam desviando e aproveitando parte do gás, deixando apenas pequenos focos visíveis na cratera. Relatos publicados no fim daquele ano também registraram que autoridades preparavam medidas técnicas destinadas a extinguir completamente o incêndio.
Ainda assim, controlar a fonte é mais importante do que apagar a última chama. Darvaza mostra justamente por que um acidente envolvendo um reservatório subterrâneo pode permanecer ativo durante décadas: aquilo que aparece na superfície representa apenas a saída visível de um sistema geológico muito maior escondido sob o deserto.
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