No fundo do oceano próximo a uma pequena ilha japonesa existe uma estrutura rochosa maior que muitos edifícios, formada por grandes terraços e superfícies retas que alimentam uma discussão iniciada há quase 40 anos
Fraturas naturais do arenito ajudam a explicar os grandes terraços, enquanto possíveis sinais de intervenção humana continuam sem comprovação arqueológica
Ao sul da ilha de Yonaguni, no extremo oeste do Japão, uma massa de arenito submersa chama atenção por seus degraus, paredes aparentes e extensas superfícies planas. O Monumento de Yonaguni tornou-se conhecido em 1986 e mede aproximadamente 100 metros de comprimento, 60 metros de largura e 25 metros de altura segundo a Organização Nacional de Turismo do Japão. Apesar da aparência arquitetônica, processos geológicos observados na própria ilha oferecem uma explicação plausível para grande parte dessas formas.
Como o Monumento de Yonaguni pode ter adquirido formas tão regulares naturalmente?
Yonaguni possui extensas exposições do Grupo Yaeyama, formado principalmente por arenitos do Mioceno. Estudos geológicos da ilha registram numerosas falhas e juntas — fraturas que cortam a rocha em direções relativamente regulares. Quando blocos se desprendem ao longo desses planos, podem surgir paredes retas, superfícies horizontais e encontros que visualmente lembram ângulos construídos.
A erosão marinha continua modificando essas estruturas depois que as fraturas se formam. Ondas, correntes e intemperismo removem partes mais frágeis e destacam planos de estratificação existentes no arenito. O geólogo Robert Schoch, que mergulhou no local, considera a estrutura essencialmente natural e aponta formações terrestres semelhantes em Yonaguni como evidência importante.
Quais características fazem algumas pessoas enxergarem uma construção antiga?
Quem defende intervenção humana chama atenção principalmente para a combinação das formas, não apenas para uma linha reta isolada. Masaaki Kimura, pesquisador da Universidade de Ryukyus, interpretou determinados terraços, paredes, supostos caminhos e marcas na superfície como sinais de trabalho humano e chegou a comparar o conjunto a antigos gusuku, fortalezas encontradas em Okinawa.
- Grandes terraços aparecem em diferentes níveis.
- Algumas paredes parecem quase verticais.
- Há superfícies extensas aparentemente niveladas.
- Certos recortes lembram escadas e caminhos.
- Kimura descreveu possíveis marcas de ferramentas.
O documentário indicado pelo próprio geólogo Robert Schoch apresenta imagens detalhadas da formação e contrapõe justamente as interpretações natural e artificial, permitindo observar por que o mesmo conjunto pode parecer arquitetura para alguns pesquisadores e geologia fraturada para outros.
Por que o Monumento de Yonaguni não precisa ter sido esculpido para parecer artificial?
Rochas sedimentares não se quebram necessariamente em formas arredondadas e irregulares. Camadas depositadas sucessivamente podem gerar planos aproximadamente paralelos, enquanto tensões tectônicas criam conjuntos de fraturas que cortam essas camadas em outras direções. Essa combinação é capaz de produzir blocos com faces relativamente planas e cantos surpreendentemente definidos.
Esse mecanismo pode ser observado fora da água. Em Sanninu-dai, na própria ilha, autoridades japonesas reconhecem oficialmente uma paisagem de arenito marcada por falhas e juntas submetidas à erosão. Em 2024, a área foi designada como monumento natural e local de valor paisagístico, reforçando que geometrias marcantes fazem parte da geologia conhecida de Yonaguni.
O tamanho da estrutura comprova alguma intervenção humana?
Não. Dimensões monumentais tornam o local impressionante, mas tamanho e regularidade não são evidências arqueológicas suficientes. A própria Organização Nacional de Turismo do Japão descreve a formação principal com cerca de 100 por 60 metros e aproximadamente 25 metros de altura, deixando em aberto as interpretações natural, modificada por pessoas ou artificial.
| Característica | Explicação possível |
|---|---|
| Superfícies planas | Estratificação do arenito |
| Paredes retas | Fraturas e falhas |
| Terraços | Erosão diferencial entre camadas |
| Possíveis cortes | Intervenção humana ainda não demonstrada |
Por que as autoridades japonesas não tratam o local como uma construção arqueológica?
A questão principal é a ausência de evidências humanas inequívocas ligadas diretamente à estrutura. Em resposta oficial registrada pela Prefeitura de Okinawa, autoridades afirmaram que não haviam sido identificadas construções artificiais ou artefatos suficientes para determinar que o local fosse um sítio arqueológico. A posição previa reavaliação caso evidências claras fossem encontradas.
Atualmente, o próprio município de Yonaguni utiliza a expressão “formação submarina” ao apresentar esse patrimônio natural aos visitantes. O site oficial de Yonaguni destaca grandes formações submersas constituídas principalmente por rochas sedimentares, enquanto locais arqueológicos e bens culturais oficialmente reconhecidos seguem procedimentos específicos de proteção e registro.

O que ainda mantém o Monumento de Yonaguni no centro da discussão?
A controvérsia permanece porque a hipótese geológica explica muitas formas, mas não impede completamente a possibilidade de populações antigas terem utilizado ou modificado partes de uma estrutura originalmente natural. Essa interpretação intermediária também foi admitida por Schoch: um maciço natural poderia ter recebido alterações localizadas sem ter sido inteiramente construído por seres humanos.
Quase quatro décadas depois da descoberta, faltam objetos arqueológicos, contextos de ocupação e marcas indiscutíveis de escavação capazes de demonstrar uma grande construção humana. O mistério real, portanto, está menos em uma “cidade perdida” e mais em saber até que ponto falhas, estratificação e erosão conseguem produzir uma paisagem submersa com aparência arquitetônica tão convincente.
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