Neve cobriu um dos lugares mais secos da Terra e transformou por algumas horas uma paisagem conhecida pela quase ausência de precipitação
Tempestades raras cobriram o Deserto do Atacama com neve em agosto de 2026, enquanto satélites da NASA registraram a transformação da paisagem
Uma paisagem marcada por rochas áridas e montanhas sem vegetação apareceu coberta de branco nas imagens de satélite. Uma rara nevasca atingiu o Deserto do Atacama, no Chile, em agosto de 2026, espalhando neve dos Andes até regiões próximas ao Oceano Pacífico. O fenômeno surpreendeu pela extensão e revelou como sistemas atmosféricos excepcionais conseguem levar umidade a um dos lugares mais secos da Terra.
Por que o Deserto do Atacama quase nunca recebe chuva ou neve?
Localizado no norte do Chile, o Atacama está entre os desertos não polares mais áridos do planeta. A Cordilheira dos Andes dificulta a chegada de umidade pelo leste, enquanto a corrente fria de Humboldt contribui para limitar a formação de nuvens carregadas de chuva.
Além disso, sistemas persistentes de alta pressão favorecem a estabilidade atmosférica. Essa combinação mantém determinadas áreas praticamente sem precipitação durante longos períodos, criando condições ideais para observatórios astronômicos que dependem de céu limpo.
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Como a rara nevasca conseguiu atravessar as barreiras naturais do deserto?
Em agosto de 2026, duas tempestades de inverno atingiram o norte chileno. A segunda apresentou alcance particularmente incomum, levando precipitação desde as montanhas andinas até áreas próximas ao litoral, inclusive sobre o núcleo hiperárido do Atacama.
O fenômeno esteve associado a uma baixa pressão desprendida da circulação atmosférica principal, conhecida como baixa segregada. Com a entrada de umidade oceânica e temperaturas suficientemente baixas, parte da precipitação alcançou o solo como neve.
A combinação atmosférica envolveu cinco condições importantes:
- Um sistema de baixa pressão avançou sobre o norte chileno;
- A circulação transportou umidade proveniente do Pacífico;
- O ar frio favoreceu a formação de cristais de gelo;
- As montanhas registraram precipitação em forma de neve;
- Áreas mais baixas receberam chuva, provocando inundações.
O vídeo Cold front brings snow to the Atacama Desert and creates a stunning contrast, publicado pelo UOL em agosto de 2026, mostra a localidade de Machuca coberta de neve durante o episódio.
Como a neve conseguiu transformar tão rapidamente a paisagem do Atacama?
A diferença visual foi especialmente marcante no planalto de Chajnantor, situado a mais de cinco mil metros de altitude. A região normalmente apresenta terrenos vulcânicos secos, mas as tempestades depositaram neve sobre extensas superfícies rochosas.
Mesmo em um deserto, a altitude permite temperaturas suficientemente baixas para ocorrer precipitação congelada. Entretanto, a neve costuma desaparecer rapidamente em muitas áreas devido à radiação solar intensa, ao ar seco e à sublimação, processo em que o gelo passa diretamente para vapor.
O que os satélites da NASA revelaram sobre a extensão da nevasca?
O Observatório da Terra da NASA publicou, em 27 de agosto de 2026, imagens obtidas pelos satélites Landsat 8, Landsat 9 e Terra. Os registros documentaram as alterações na superfície antes e depois das tempestades.
As imagens de 6 e 14 de agosto mostraram a transformação do planalto de Chajnantor. Já o registro de 19 de agosto revelou neve muito mais espalhada, alcançando áreas próximas à costa, ao sul da cidade portuária de Antofagasta.

Por que a nevasca também provocou problemas em cidades e observatórios?
A precipitação não ocorreu exclusivamente na forma de neve. Na cidade costeira de Taltal, foram registrados quase 40 milímetros de chuva em três dias, aproximadamente dez vezes sua média anual, segundo informações apresentadas pela NASA.
As chuvas provocaram enxurradas e fluxos de lama em diferentes localidades. Observatórios astronômicos também precisaram interromper temporariamente suas atividades, incluindo o complexo ALMA, que colocou suas antenas em posição de proteção.
| Local ou registro | Efeito observado |
|---|---|
| Planalto de Chajnantor | Cobertura de neve identificada pelo Landsat 9 |
| Interior do Atacama | Neve extensa registrada em 19 de agosto |
| Taltal | Quase 40 mm de chuva em três dias |
| Observatório ALMA | Suspensão temporária das operações |
O que essa rara nevasca revela sobre o comportamento do clima no Atacama?
O climatologista René Garreaud, da Universidade do Chile, explicou que as baixas segregadas respondem por grande parte da precipitação de inverno na região. O fortalecimento do El Niño também contribuiu para um contexto atmosférico favorável a tempestades no centro-norte chileno.
Entretanto, um episódio excepcional não significa que o deserto esteja deixando de ser árido. Nevascas também foram registradas em 2011 e 2025. Compreender a frequência dessas ocorrências exige acompanhar tendências de longo prazo, distinguindo variações naturais, influência do El Niño e possíveis mudanças relacionadas ao aquecimento global.
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