Micróbios agarrados a algas de lagos africanos reduziram um gás-estufa potente, revelando uma parceria microscópica com efeito na química da água
Estudo de 79 lagos africanos mostra como bactérias associadas ao fitoplâncton consomem metano dissolvido e influenciam as emissões aquáticas
Na superfície de lagos africanos, bactérias associadas a microalgas ajudam a consumir metano antes que ele alcance a atmosfera. Uma pesquisa da Universidade de Liège, na Bélgica, analisou 79 lagos e identificou uma relação entre a abundância de fitoplâncton e a oxidação desse gás de efeito estufa. Os resultados revelam um mecanismo microscópico importante para compreender o balanço de metano nos ecossistemas aquáticos e aperfeiçoar modelos de emissões.
Como os micróbios associados às algas conseguem consumir metano?
Nos sedimentos dos lagos, microrganismos produtores de metano decompõem matéria orgânica em ambientes com pouco ou nenhum oxigênio. Parte do gás resultante se dissolve na água e pode alcançar a atmosfera. Entretanto, durante esse percurso, bactérias metanotróficas conseguem utilizar o metano como fonte de carbono e energia.
Algumas dessas bactérias vivem associadas à superfície de microalgas do fitoplâncton. Essa proximidade pode oferecer condições favoráveis à oxidação do metano, especialmente em águas iluminadas e oxigenadas. A associação representa uma interação ecológica relevante, mas não significa que todas as espécies de algas hospedem as mesmas bactérias.
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Por que a quantidade de algas influencia a oxidação do metano?
O fitoplâncton reúne organismos microscópicos que realizam fotossíntese e contribuem para a produção de matéria orgânica nos ambientes aquáticos. Quando sua biomassa aumenta, também podem surgir mais superfícies disponíveis para colonização bacteriana, favorecendo determinadas comunidades microbianas.
Os pesquisadores investigaram diferentes fatores envolvidos nesse processo:
- Produção de metano nos sedimentos;
- Abundância de fitoplâncton;
- Atividade de bactérias metanotróficas;
- Oxidação do metano dissolvido;
- Transferência do gás para a atmosfera.

O que os pesquisadores observaram nos lagos africanos?
A investigação mostrou que a oxidação do metano era particularmente intensa nos lagos com maior produtividade fitoplanctônica. Essa relação sustenta a interpretação de que bactérias associadas às microalgas participam do consumo do gás, embora a associação física não tenha sido demonstrada diretamente em todas as amostras.
Outro resultado importante apareceu nos lagos relacionados às florestas inundadas da Bacia do Congo. Nesses ambientes, os pesquisadores identificaram elevada oxidação de metano, possivelmente favorecida pela entrada de bactérias provenientes de solos florestais alagados. Portanto, diferentes fontes microbianas podem contribuir para o mesmo processo.
Quanto metano pode ser consumido antes de chegar à atmosfera?
O estudo publicado na revista Nature Communications, em 29 de setembro de 2026, foi conduzido por Alberto V. Borges e colaboradores. A equipe analisou padrões espaciais da oxidação do metano em 79 lagos africanos com diferentes características ambientais e níveis de produtividade.
Os resultados indicaram que a oxidação microbiana representou mais de 70% da remoção do metano dissolvido na camada superficial misturada, superando a parcela perdida por emissão difusiva. Esse percentual descreve o balanço investigado no estudo, não uma redução universal de 70% nas emissões de todos os lagos.
Como essa descoberta pode melhorar os modelos de emissões aquáticas?
Modelos de emissões precisam representar tanto a produção quanto o consumo de gases. Quando consideram apenas a geração de metano nos sedimentos, podem deixar de captar processos que modificam a quantidade efetivamente liberada pela superfície da água.
A pesquisa também revelou uma relação importante com a eutrofização, processo associado ao enriquecimento excessivo de nutrientes. O aumento do fitoplâncton pode favorecer a produção de metano nos sedimentos, mas também estimular sua oxidação. Nos lagos analisados, o segundo processo conseguiu, em determinadas condições, superar o aumento da produção.
Por que esse mecanismo ainda precisa ser estudado em outros lagos?
As condições ambientais variam entre lagos tropicais, temperados e polares. Temperatura, profundidade, oxigenação e composição das comunidades microbianas podem modificar o equilíbrio entre produção e consumo de metano. Por isso, os resultados africanos não devem ser automaticamente extrapolados para todos os ecossistemas aquáticos.
Também é importante distinguir a oxidação do metano de sua eliminação completa como fonte de aquecimento. O processo transforma metano principalmente em dióxido de carbono, que também contribui para o efeito estufa, embora apresente menor potencial de aquecimento por unidade de massa em horizontes temporais usuais. A descoberta fornece informações para representar melhor a atividade microbiana e suas consequências na química dos lagos.
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