Mesmo tendo oito braços disponíveis, polvos procurando objetos escondidos preferiram usar apenas três, quatro ou cinco deles ao mesmo tempo
Experimentos com 14 polvos revelam como os animais distribuem tarefas entre seus oito braços para explorar objetos escondidos sem depender da visão
Uma pesquisa com 14 polvos revelou que os animais utilizaram simultaneamente três a cinco braços na maioria dos testes de exploração sem visão direta. Durante 117 ensaios, cientistas observaram como esses moluscos procuravam objetos escondidos, coordenavam movimentos e mantinham os demais membros disponíveis para sustentar o corpo.
Por que os polvos não utilizam todos os braços simultaneamente?
Os polvos possuem oito braços flexíveis, equipados com ventosas capazes de detectar características físicas e químicas das superfícies. Essa combinação permite localizar alimentos escondidos em fendas e cavidades, mesmo quando os olhos não conseguem acompanhar diretamente o que acontece.
Entretanto, explorar um esconderijo exige mais do que alcançar objetos. O animal também precisa manter estabilidade, manipular obstáculos e controlar sua posição. Os experimentos indicaram que distribuir essas tarefas entre diferentes braços pode favorecer a coordenação, sem exigir que todos participem diretamente da procura.
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O que os 117 experimentos revelaram sobre os braços dos polvos?
A equipe analisou 117 ensaios envolvendo 14 indivíduos da espécie Octopus bimaculoides. Os pesquisadores registraram 2.327 ações individuais dos braços e 394 episódios de recrutamento, quando outro membro passava a participar da manipulação de um objeto.
O resultado mais importante mostrou que três, quatro ou cinco braços eram utilizados simultaneamente com maior frequência. Nenhum ensaio registrou os oito braços explorando o interior da estrutura experimental ao mesmo tempo.
Cinco resultados destacaram padrões de comportamento:
- Três braços foram utilizados simultaneamente em 32 ensaios;
- Quatro braços participaram juntos em 36 ensaios;
- Cinco braços também apareceram em 36 ensaios;
- Braços vizinhos foram recrutados em aproximadamente 44% das transições;
- Todos os oito braços participaram da exploração ao longo dos experimentos.
O vídeo científico da Nature explica como os polvos utilizam receptores químicos nas ventosas para reconhecer superfícies e encontrar alimento sem depender exclusivamente da visão.
Como os braços dos polvos conseguem explorar objetos sem enxergá-los?
As ventosas possuem receptores quimiotáteis, estruturas que combinam informações de contato e sinais químicos. Dessa maneira, os braços conseguem investigar superfícies e reconhecer características de possíveis alimentos, mesmo dentro de espaços onde a visão não alcança.
O sistema nervoso também apresenta uma organização distribuída. Muitas respostas motoras são processadas nos próprios braços, enquanto o cérebro participa da coordenação geral. Essa arquitetura permite movimentos complexos, embora os experimentos não tenham determinado exatamente como cada decisão de recrutamento é produzida.
Como os cientistas investigaram a coordenação dos braços dos polvos?
O estudo publicado na revista Biology Open, em julho de 2025, foi conduzido por Ashley Gendreau, Camille Boucaud, Kendra Buresch, Allison Rooney, Halia Morris e Roger Hanlon. A pesquisa contou com participação de instituições norte-americanas, incluindo o Marine Biological Laboratory.
Os animais exploraram uma estrutura opaca semelhante a uma cúpula rochosa, contendo diferentes objetos escondidos. Três câmeras registraram os movimentos, posteriormente examinados pelos pesquisadores. A análise considerou quais braços iniciavam a exploração, quais eram recrutados e quantos participavam simultaneamente de cada tentativa.

Quais padrões de utilização dos braços dos polvos apareceram nos resultados?
A distribuição mostrou uma preferência clara por grupos intermediários de membros. O uso simultâneo de quatro ou cinco braços ocorreu em aproximadamente 30,8% dos ensaios, respectivamente, enquanto três braços apareceram em 27,4%. A diferença entre essas três configurações não foi estatisticamente significativa.
Outro resultado interessante envolveu a escolha inicial dos membros. Em 75% dos primeiros contatos, os animais utilizaram braços anteriores. Entretanto, ao longo das explorações, todos os oito membros apresentaram frequências semelhantes de utilização, sem especialização rígida.
| Braços simultâneos | Ensaios | Frequência |
|---|---|---|
| Três | 32 | 27,35% |
| Quatro | 36 | 30,77% |
| Cinco | 36 | 30,77% |
| Seis | 5 | 4,27% |
O que essa descoberta pode ensinar sobre robótica e comportamento animal?
Os resultados podem contribuir para o desenvolvimento de robôs flexíveis com múltiplos braços. Sistemas inspirados nessa coordenação poderiam distribuir atividades entre manipuladores diferentes, permitindo explorar, segurar e movimentar objetos em ambientes estreitos. Entretanto, essas aplicações ainda dependem de estudos adicionais.
A investigação também possui limitações: envolveu uma única espécie e condições controladas de laboratório. Não ficou demonstrado que utilizar três a cinco braços seja sempre energeticamente mais eficiente. Experimentos futuros poderão investigar como diferentes obstáculos, presas e condições ambientais modificam essa distribuição de tarefas.
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