Mariposa ouve o ultrassom dos morcegos e muda o voo antes que o predador consiga alcançá-la
Órgãos timpânicos detectam pulsos de ecolocalização e acionam viradas, interrupções do voo e outras respostas evasivas
A mariposa Spodoptera litura possui órgãos timpânicos capazes de detectar frequências usadas por morcegos durante a ecolocalização. Experimentos mostraram que a audição ultrassônica pode desencadear uma mudança brusca de comportamento antes do contato com o predador: dependendo da intensidade e do ritmo dos pulsos, o inseto tenta se afastar da fonte sonora ou interrompe o voo e mergulha, transformando o próprio som do caçador em um aviso antecipado de perigo.
Como a audição ultrassônica permite que a mariposa perceba um morcego?
Em S. litura, os órgãos timpânicos ficam no tórax, próximos à base das asas posteriores. Cada ouvido possui uma membrana sensível às vibrações e células receptoras que transformam o ultrassom em sinais nervosos. Ensaios fisiológicos encontraram maior sensibilidade em torno de 24,2 kHz, dentro da faixa utilizada por diferentes morcegos insetívoros.
A percepção não informa apenas que existe som no ambiente. Quando o morcego ainda está relativamente distante, diferenças entre os sinais recebidos pelos dois lados do corpo podem favorecer uma resposta direcional. À medida que o sinal se torna intenso, aproximando-se das condições de um ataque, entram em cena manobras mais radicais e menos previsíveis.
O que acontece com a audição ultrassônica quando os pulsos ficam mais intensos?
Pesquisadores testaram S. litura com ruído ultrassônico pulsado produzido artificialmente. Pulsos de seis milissegundos repetidos dez vezes por segundo provocaram respostas evasivas frequentes quando a intensidade ultrapassou aproximadamente 58 dB peSPL na posição do ouvido do inseto.
Com estímulos menos extremos, a mariposa tende a tentar virar para longe da fonte. Em condições que simulam maior proximidade do predador, pode parar de bater as asas, comportamento que na natureza pode resultar em uma queda rápida. A mudança reduz a previsibilidade da trajetória para um morcego em perseguição.
- Virada para longe da origem do ultrassom;
- Interrupção repentina do batimento das asas;
- Queda ou mergulho em respostas de último instante;
- Manobras irregulares quando o risco aumenta;
- Reação dependente da estrutura e intensidade dos pulsos.
Este vídeo do HHMI BioInteractive mostra experimentos sobre as defesas acústicas de mariposas contra morcegos.
Como os pesquisadores conseguem registrar uma mudança de rota?
Nos experimentos modernos com S. litura, mariposas foram mantidas em voo estacionário e filmadas no escuro com câmeras infravermelhas enquanto alto-falantes reproduziam diferentes padrões ultrassônicos. Os pesquisadores classificaram respostas como ausência de reação, tentativa de virar para longe e interrupção do voo.
Esse arranjo não reconstrói uma longa trajetória livre pelo espaço. Ele mede o início da manobra evasiva em condições controladas. Experimentos clássicos realizados com mariposas voando livremente em campo complementam esse resultado: indivíduos expostos a ultrassom menos intenso foram fotografados mudando de direção e afastando-se da fonte sonora.
O que a audição ultrassônica revela sobre a aproximação do predador?
O estudo publicado na PNAS testou 35 configurações acústicas e mostrou que duração, frequência de repetição e intensidade dos pulsos alteram o tipo de resposta de S. litura. Um estímulo de cinco milissegundos repetido dez vezes por segundo interrompeu o voo de 79,2% dos indivíduos testados naquela condição.
Esses parâmetros se sobrepõem parcialmente às características das chamadas de busca de morcegos insetívoros. O resultado sustenta a ideia de que o ouvido da mariposa funciona como um sistema de alerta: antes do contato físico, a sequência acústica produzida pelo próprio caçador fornece informações suficientes para iniciar uma fuga.

Uma mariposa sempre responde da mesma maneira ao ultrassom?
Não. A resposta depende tanto das propriedades do som quanto da distância provável do predador. Nos testes com três espécies de Spodoptera, pulsos curtos repetidos em determinados intervalos foram especialmente eficazes para provocar interrupção do voo, enquanto outras combinações favoreceram tentativas de virar.
Essa diferença combina com um modelo conhecido para mariposas com tímpanos. Um morcego distante favorece fuga orientada para longe; quando ele está muito próximo, uma manobra abrupta ou queda pode ser mais útil do que manter uma rota previsível.
Ouvir morcegos significa que toda mariposa consegue escapar?
Não. Detectar um ataque melhora as opções defensivas, mas não garante sobrevivência. Morcegos também ajustaram suas estratégias ao longo da evolução e podem reduzir a intensidade das chamadas, aproximar-se de maneira diferente ou aproveitar momentos em que a presa possui menos tempo para reagir.
Também não se deve generalizar a habilidade para todos os insetos noturnos. Há mariposas sem órgãos auditivos funcionais e espécies que utilizam outras defesas. Em S. litura, porém, os experimentos unem fisiologia e comportamento: o ultrassom é detectado pelo ouvido e pode alterar imediatamente a tentativa de voo.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)