Leandro Karnal, historiador brasileiro: “Estar acompanhado não é garantia de eliminar a solidão”, por que a pessoa mais sozinha pode ser a que divide a casa com alguém
Solidão atinge 1 em cada 6 pessoas, diz OMS: por que dividir a casa com alguém não garante companhia
Uma em cada seis pessoas no mundo é afetada pela solidão, e o problema está ligado a cerca de 871 mil mortes por ano
Organização Mundial da Saúde, junho de 2025
A solidão não depende de morar sozinho, e sim da distância entre as conexões que a pessoa deseja e as que ela realmente tem. É essa a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS), que estima que uma em cada seis pessoas no mundo seja afetada por ela. O historiador Leandro Karnal resumiu o paradoxo em entrevista à BBC News Brasil, em 2018. Para ele, “o século 21 é o momento com maior horror à solidão e, paradoxalmente, o mais solitário da história”.
Como alguém pode se sentir sozinho morando com outra pessoa?
Isso acontece porque a solidão mede a qualidade do vínculo, não a quantidade de gente por perto. Duas pessoas podem dividir a mesa todos os dias sem conversar sobre nada que importe. A OMS reforça que a solidão é uma experiência subjetiva, vivida de formas diferentes por pessoas na mesma situação.
Karnal dedicou um livro inteiro ao tema, O Dilema do Porco-Espinho, lançado pela Planeta em 2018, sobre como encarar a solidão. O título remete à imagem clássica dos animais que precisam se aproximar para se aquecer, mas se ferem quando chegam perto demais. Relações humanas vivem esse mesmo equilíbrio. O isolamento total não resolve, e a proximidade sem cuidado também machuca.
Na entrevista à BBC, Karnal comparou as redes sociais a um analgésico. Segundo ele, elas “oferecem alguma ideia de companhia sem dar, de fato, o gosto orgânico de uma amizade ou de um afeto sólido”. A observação ajuda a entender por que alguém cercado de gente pode continuar sozinho.

Qual a diferença entre solidão e isolamento social?
A diferença está entre o sentimento e o fato. A OMS separa os dois conceitos, e essa distinção ajuda a entender por que alguém acompanhado pode sofrer tanto quanto quem vive só.
Cada situação pede um tipo de cuidado diferente. Veja como a OMS e o debate sobre o tema diferenciam cada uma:
Quem é mais afetado pela solidão, segundo a OMS?
Os jovens aparecem entre os mais afetados, contrariando a ideia de que solidão é coisa da velhice. O relatório também mostra diferenças fortes entre países ricos e pobres.
O retrato traçado pela organização em 2025 inclui estes pontos:
- Entre 17% e 21% das pessoas de 13 a 29 anos relatam solidão.
- Em países de baixa renda, o índice chega a 24%, o dobro dos 11% das nações ricas.
- Até um em cada três idosos pode ser afetado pelo isolamento social.
- Cerca de 100 mortes por hora estão associadas à solidão no mundo.
A OMS também aponta que a solidão dobra o risco de depressão. Conexões fortes, ao contrário, estão ligadas a menor risco de AVC, doenças cardíacas e diabetes. Os dados mostram associação, e não permitem dizer que a solidão sozinha causa cada uma dessas doenças.
O que ajuda a reduzir a solidão dentro de casa?
Ajuda trocar convivência automática por conversa de verdade, mesmo em doses pequenas. A OMS recomenda ações simples, como procurar amigos, fazer trabalho voluntário e participar de grupos locais.
Dentro de casa, a mudança começa por hábitos. Uma refeição sem celular, uma pergunta além do “como foi o dia” e um passeio a dois já abrem espaço para reaproximação. Quando o distanciamento persiste, a terapia individual ou de casal é um caminho possível.
Como transformar companhia em conexão de verdade?
Transformar companhia em conexão exige atenção, e não apenas presença. Estar ao lado de alguém é o começo, e ser ouvido é o que faz diferença. Se você já se sentiu sozinho em casa, conte nos comentários o que ajudou a mudar essa sensação.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)