Lago formado sobre uma geleira desaparece em poucas horas e instrumentos revelam que a água abriu caminho por baixo do gelo
O desaparecimento do lago coincidiu com sinais que seriam difíceis de explicar apenas por escoamento superficial.
Um lago formado sobre a camada de gelo da Groenlândia desapareceu em menos de duas horas, mas a água não simplesmente escorreu pela superfície. Instrumentos instalados na região registraram aumento de atividade sísmica, elevação temporária do gelo e aceleração de seu movimento, indicando que a água abriu uma fratura que atravessou cerca de 980 metros de gelo até alcançar a base. O episódio ofereceu uma das demonstrações mais claras de como lagos superficiais podem se conectar rapidamente ao sistema de drenagem existente sob uma geleira.
Como um lago consegue desaparecer em menos de duas horas?
Durante o verão, a neve e o gelo da Groenlândia derretem e parte dessa água se acumula em depressões na superfície, formando os chamados lagos supraglaciais. No evento documentado em 2006, um lago de aproximadamente 5,7 quilômetros quadrados continha cerca de 44 bilhões de litros de água antes de drenar quase completamente em aproximadamente 90 minutos.
A explicação não foi uma simples abertura lateral. O peso da coluna de água ajudou a manter uma fratura cheia, permitindo que ela se propagasse para baixo. Esse processo, chamado de hidrofraturamento, pode levar água superficial através de centenas de metros de gelo.
- a água se acumula sobre a geleira;
- uma fratura começa a se abrir abaixo do lago;
- a pressão da água mantém essa fissura ativa;
- a fratura avança em profundidade;
- o lago passa a descarregar rapidamente até a base do gelo.
Como os cientistas souberam que a água realmente chegou por baixo do gelo?
O desaparecimento do lago coincidiu com sinais que seriam difíceis de explicar apenas por escoamento superficial. Os pesquisadores registraram aumento de atividade sísmica, deslocamento horizontal do gelo, elevação temporária da superfície e uma aceleração brusca do movimento da camada de gelo.
Esse conjunto de medições indicou que a água chegou ao contato entre gelo e rocha. Ao se espalhar temporariamente nessa região, ela aumentou a pressão sob a geleira e reduziu parte da resistência ao deslizamento. Nas horas seguintes, o gelo voltou a baixar e desacelerou à medida que a água foi redistribuída pelo sistema subglacial.
O que acontece quando tanta água chega à base de uma geleira?
A base de uma geleira não é necessariamente um bloco completamente congelado contra a rocha. Em muitas regiões existe um sistema complexo de canais, cavidades e fluxos de água derretida. Quando uma grande quantidade de água chega de forma repentina, a pressão pode aumentar e fazer o gelo deslizar mais rapidamente por algum tempo.
Observações mais recentes confirmaram que drenagens rápidas podem ocorrer em poucas horas e que movimentos do gelo e da água na base começam até antes de alguns eventos. Redes de GPS de alta frequência permitem detectar elevação e deslizamento basal associados à abertura das fraturas.
Isso ajuda a entender alguns efeitos imediatos:
- a água superficial alcança regiões profundas muito rapidamente;
- a pressão na base pode subir de forma abrupta;
- o gelo pode acelerar temporariamente;
- novos caminhos de drenagem podem permanecer ativos depois do evento;
- a água pode ser redistribuída por canais abaixo da camada de gelo.

Isso significa que todo lago sobre uma geleira vai abrir uma fratura até a base?
Não. Esse é justamente um dos limites mais importantes da descoberta. Lagos supraglaciais podem desaparecer por mecanismos diferentes. Alguns transbordam lateralmente, outros drenam por canais já existentes e apenas uma parte produz hidrofraturas que alcançam a base. Estudos recentes mostram que olhar somente imagens de satélite antes e depois do desaparecimento nem sempre permite determinar qual mecanismo ocorreu.
Espessura do gelo, tensões locais, presença de fraturas, volume do lago e existência de outros caminhos de água na região influenciam o processo. Por isso, observar um lago desaparecer rapidamente não significa automaticamente que uma nova fratura atravessou toda a geleira.
O lago desaparecido revelou uma conexão rápida entre a superfície e o fundo da geleira
O episódio na Groenlândia mostrou diretamente que água acumulada na superfície pode atravessar quase um quilômetro de gelo em poucas horas. A combinação entre nível do lago, GPS e registros sísmicos permitiu reconstruir uma sequência que começa com uma fratura e termina com água alcançando o sistema de drenagem subglacial.
O evento não prova que todas as geleiras ou todos os lagos respondem da mesma forma, nem que uma drenagem isolada determine o comportamento de toda uma camada de gelo. O que ele demonstra é algo mais específico e importante: em condições adequadas, a superfície e a base de uma geleira podem se conectar muito mais rapidamente do que sua enorme espessura faria imaginar.
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