José Saramago: “Dentro de nós há uma coisa que não tem nome; essa coisa é o que somos”. O que sobra quando tudo o resto é tirado
José Saramago e a frase "dentro de nós há uma coisa que não tem nome": o que resta quando a identidade social desaparece
“Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.” A frase está em Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, único escritor de língua portuguesa a vencer o Nobel de Literatura.
Quem foi José Saramago?
Saramago nasceu em 1922, numa família pobre do interior de Portugal, e trabalhou como serralheiro mecânico antes de se dedicar integralmente à literatura já adulto, publicando seu romance de maior repercussão internacional só depois dos 60 anos.
Autor de obras como Memorial do Convento e O Evangelho Segundo Jesus Cristo, ficou conhecido por um estilo marcado por ironia, crítica social e uma sintaxe que dispensa boa parte da pontuação convencional.
“La forma más peligrosa de ceguera es creer que tu propio punto de vista es la única realidad”.
— Letras Breves (@LetrasBreves) January 29, 2026
José Saramago. pic.twitter.com/ZWMovEGG4d
Quem diz essa frase dentro do romance?
A fala pertence a uma personagem identificada só como “a mulher dos óculos escuros”, uma das protagonistas do livro. Como quase todos os personagens do romance, ela nunca recebe um nome próprio: é chamada por características ou funções, como “o médico” ou “a mulher do médico”.
Essa escolha não é acidente: reforça a ideia de que, numa situação-limite, o que sobra de cada pessoa não são os rótulos sociais de sempre, mas algo mais essencial e sem nome fácil de dar.
Do que trata Ensaio sobre a Cegueira, sem entregar o final?
O romance, publicado originalmente em 1995, narra uma epidemia súbita de cegueira branca que se espalha por uma cidade sem nome, obrigando as autoridades a isolar os primeiros contaminados numa quarentena que rapidamente perde qualquer estrutura civilizada.
Sem revelar o desfecho, o livro usa a cegueira coletiva como lente para observar o que emerge das pessoas quando as regras normais de convívio social desaparecem de uma hora para outra.
O que resta de uma pessoa quando tudo o mais é tirado?
Privados de identidade nomeada, de rotina e de qualquer estrutura social reconhecível, os personagens do romance são reduzidos a decisões concretas: ajudar ou abandonar, mentir ou dizer a verdade, manter alguma dignidade ou desistir dela.

A “coisa sem nome” que a personagem menciona é justamente esse resíduo: o que a pessoa escolhe fazer quando papel social, nome e status já não servem de referência para nada.
- Sem nome próprio, sobra só a ação: o que cada um faz importa mais do que quem cada um “era” antes.
- Sem hierarquia reconhecida, sobra só o caráter: quem ajuda e quem só protege a si mesmo aparece sem disfarce.
Essa mesma pergunta sobre o que resta de essencial numa pessoa, depois de tirado tudo o que é rótulo social, também atravessa a obra de Clarice Lispector, outra escritora de língua portuguesa marcada por investigar o que existe por trás da identidade nomeada.
Por que Saramago é o único Nobel de Literatura em língua portuguesa?
Saramago recebeu o Prêmio Nobel de Literatura de 1998, reconhecimento inédito até hoje para um autor que escreve em português, o que deu ainda mais projeção internacional a romances como Ensaio sobre a Cegueira, publicado no Brasil pela Companhia das Letras.
A obra do escritor português, marcada pelo estilo de frases longas e pela ausência de pontuação convencional em diálogos, discute com frequência temas como poder, fé e comportamento humano em situações extremas, sempre com um distanciamento irônico do próprio narrador.

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