“Ironheart foi um erro antes mesmo de ser lançada”
Críticos culturais dos EUA dizem que a Marvel escondeu a série por vergonha: cara, desajeitada e sem conexão com o legado de Tony Stark
Poucas produções recentes revelam tanto sobre o desgaste da Marvel quanto Ironheart.
Concebida no auge das “substituições” de personagens clássicos por versões “woke”, a série chegou já defasada.
A protagonista, Riri Williams, é uma invenção de uma das fases menos populares dos quadrinhos e nunca conseguiu gerar empatia com o público. Nem nas HQs, nem nas telas.
Will Jordan, crítico escocês conhecido como Critical Drinker, resumiu a produção com uma analogia: “Ironheart é como aquele trabalho da escola que você faz errado e torce para o professor esquecer de chamar seu nome.”
Para ele, a Marvel percebeu tardiamente que havia criado um problema impossível de resolver. “Sabiam que não havia o que consertar. Então ficaram em silêncio, tentaram enterrar a série e torceram para o público esquecer.”
Gary Buechler, do canal Nerdrotic, é ainda mais direto: “Ironheart é a síntese da fase 5 da Marvel: orçamento de 150 milhões de dólares, roteiro incoerente, elenco escolhido por identidade e não por talento, e uma heroína insuportável.”
Segundo ele, o projeto é um produto da era dos grandes gestos simbólicos de 2020, mas lançado num momento em que o público já não se impressiona com esse tipo de discurso. “É uma sinalização de virtude caríssima e fora de hora.”
A comparação com Tony Stark, inevitável, é o que mais incomoda os críticos.
A série tenta a todo custo desvincular Riri do legado de Homem de Ferro, mas falha justamente por depender dessa comparação.
“Ela é uma adolescente gênio que provavelmente aprendeu a montar supercomputadores com massinha de modelar quando era um feto”, ironiza Jordan. Buechler acrescenta: “Se ela é tão brilhante assim, por que prefere se envolver com criminosos em vez de vender sua tecnologia por bilhões?”
Nem mesmo a introdução do vilão Mephisto, vivido por Sacha Baron Cohen, serviu para gerar expectativa.
A presença do personagem foi desperdiçada em cenas breves, sem impacto narrativo. “A Marvel teve a audácia de apresentar um dos maiores vilões do universo em um roteiro tão fraco que sua participação não significa nada”, diz Buechler.
A recepção do público foi tão fria quanto a do mercado.
No Rotten Tomatoes, a série tem 86% de aprovação da crítica, mas apenas 56% do público.
No Metacritic, a média dos críticos é 57 de 100, enquanto a pontuação dos usuários despenca para 2,2 de 10.
O trailer oficial acumulou mais de 543 mil menções negativas no YouTube, superando os 219 mil likes. Antes mesmo da estreia, a série já era alvo de rejeição generalizada.
Críticas especializadas apontam problemas claros de construção narrativa.
Os episódios iniciais foram considerados desajeitados e sem identidade própria, e mesmo com alguma melhora técnica nos capítulos seguintes, o conjunto nunca empolga.
O roteiro foi chamado de preguiçoso, os personagens secundários de irrelevantes, e o vilão de mal desenvolvido.
A protagonista, Riri Williams, foi descrita por veículos e comentaristas como invejosa, moralmente ambígua e pouco carismática.
A tentativa de inserir discurso social foi criticada como forçada, datada e mal integrada ao universo da trama.
A série se apoia em referências diretas a movimentos de extrema-esquerda como Black Lives Matter, num momento em que parte do público parece estar menos receptiva a esse tipo de abordagem.
Ainda que algumas análises elogiem tentativas isoladas de reinventar a origem da personagem e equilibrar ação com sensibilidade, o consenso geral é de que a série falha em engajar o público tradicional da Marvel.
A divisão entre crítica e audiência só evidencia o problema central: Ironheart não sabe para quem está falando.
A própria atriz Dominic Thorne tentou legitimar a personagem mencionando uma conversa com Robert Downey Jr., em que teria recebido palavras de incentivo do intérprete original do Homem de Ferro.
Para o Critical Drinker, isso soa como desespero. “Ele é um ator, não o imperador da Marvel. Isso não muda nada.”
A atriz ainda afirmou que Riri é mais inteligente e mais capaz que Tony, o que irritou parte do público. “Tony Stark construiu uma armadura com sucata, vigiado por terroristas. Riri teve todos os recursos e todo o tempo do mundo. A comparação não se sustenta”, afirma Jordan.
Ao fim da temporada, o saldo é de fracasso narrativo e desgaste de imagem.
Os dois principais críticos da cultura pop no YouTube são unânimes: Ironheart é o projeto que nunca deveria ter sido produzido.
“Poético que a série tenha o mesmo destino do gibi que a originou: cancelada”, diz Buechler. “É o produto de um tempo em que a Marvel achava que podia tudo. E foi lançado num momento em que não consegue mais nada”, conclui Jordan.]
“Ironheart é uma aula de como transformar egoísmo em virtude”
Para Greg Owen, Ironheart não é apenas mais uma decepção no catálogo da Marvel, é um exemplo perfeito de como valores morais distorcidos estão sendo embalados como virtude em nome de representatividade.
Ele afirma que a série é uma “aula de moralidade deturpada”, e que sua protagonista, Riri Williams, “é uma pessoa terrível que se esconde atrás do discurso de vítima para justificar cada decisão egoísta.”
Owen observa que, já na metade da temporada, Riri se revela como alguém movida por vaidade, ambição desmedida e desejo de superação forçada de heróis anteriores, sem qualquer senso de responsabilidade.
“Ela mente, rouba, chantageia, acredita estar acima das regras e acha que está tudo bem porque, afinal, o mundo nunca reconheceu seu gênio.” Para o crítico, esse tipo de personagem não está passando por um arco de heroína, mas de vilã, embora tudo aponte que a série tentará redimi-la sem consequência real.
“O roteiro tenta normalizar a ideia de que, se você for contra algo pior, ou se tiver uma boa justificativa social, então pode agir sem ética. Isso não é heroísmo, é relativismo moral preguiçoso“, diz Owen0.
Ele também destaca o que chama de “confusão motivacional extrema” da protagonista.
Riri é obcecada por construir uma armadura melhor que a de Tony Stark, mas não há ligação convincente entre suas motivações e seu passado.
Seu comportamento é, nas palavras do crítico, “mais parecido com o de Napoleão do que com o de uma estudante idealista”. Ela age por orgulho, não por um senso de dever.
A trajetória, segundo Owen, não tem construção sólida, apenas um amontoado de eventos que pretendem ser profundos, mas são apenas ruído. “Ela começa já corrompida, e qualquer tentativa de transformá-la em heroína depois disso vai soar vazia e artificial.”
A análise ainda aponta que Ironheart representa o “pagar para ver” da Disney, que passou anos ignorando o público em nome de um discurso simbólico.
“Como a nova Branca de Neve, é uma lição do que acontece quando se despreza o público.” Para Owen, a Marvel optou por investir em um personagem impopular, sem arco coerente, e entregou “uma história rasa com protagonistas rasas, onde a aparência de profundidade substitui o real desenvolvimento dos personagens.”
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