Inteligência artificial e ondas oceânicas entram em nova fase após análise de 1 bilhão de registros revelar paredões de 20 metros
O estudo encontrou padrões que ajudam a explicar como essas formações extremas surgem em alto-mar
Durante séculos, relatos de marinheiros sobre ondas gigantes que surgiam de repente pareciam exageros difíceis de comprovar. Agora, uma análise de escala inédita mostrou que paredões oceânicos com mais de 20 metros podem nascer da combinação momentânea de ondas comuns, e a inteligência artificial ajudou a transformar esse fenômeno imprevisível em uma equação capaz de estimar riscos.
Como ondas gigantes podem surgir aparentemente do nada?
As chamadas ondas errantes, também conhecidas como ondas anômalas ou rogue waves, são definidas como ondas com altura superior ao dobro da altura significativa do mar ao redor. Elas podem aparecer em poucos instantes, elevar-se muito acima das demais e desaparecer logo depois, dificultando registros e previsões.
O primeiro caso amplamente aceito pela ciência foi medido em 1º de janeiro de 1995 na plataforma petrolífera Draupner, no Mar do Norte. Os instrumentos registraram uma onda de aproximadamente 26 metros, muito maior do que as ondas presentes naquele momento. A medição confirmou que os paredões descritos por navegadores não pertenciam apenas ao folclore marítimo.
O que a inteligência artificial revelou sobre as ondas oceânicas?
A inteligência artificial indicou que a sobreposição linear de diferentes sistemas de ondas é o fator dominante na formação de grande parte das ondas errantes observadas no mundo real. Quando ondas que viajam em direções ou ritmos diferentes se cruzam de maneira específica, suas cristas podem se somar temporariamente e produzir um pico muito maior.
O estudo não afirma que toda onda extrema nasce de uma única causa. Correntes, profundidade, direção das ondas, ventos e efeitos não lineares também podem influenciar o fenômeno. A principal descoberta foi mostrar, com um conjunto gigantesco de observações, que a interferência construtiva conhecida há séculos explica uma parcela importante dos casos registrados.
- Cruzamento de sistemas de ondas vindos de direções diferentes
- Sobreposição momentânea de cristas no mesmo ponto
- Formação de picos seguidos por depressões profundas
- Dissipação rápida depois do encontro entre as ondas
Para visualizar como ondas comuns podem se somar e formar estruturas muito maiores, o canal Physics Girl, que conta com mais de 3,4 milhões de inscritos no YouTube, apresenta o vídeo “How science explains monster waves”. O material aborda a onda de Draupner, a sobreposição de cristas e outros processos físicos ligados ao surgimento de ondas errantes, alinhado ao tema tratado acima:
Por que foi necessário analisar mais de 1 bilhão de ondas?
Ondas errantes são eventos relativamente raros em um ponto específico do oceano, o que dificulta a identificação de padrões em registros curtos. Para superar esse obstáculo, os pesquisadores reuniram medições contínuas realizadas por boias em 158 locais próximos à costa dos Estados Unidos e de seus territórios.
Somados, os dados correspondiam a aproximadamente 700 anos de observações ininterruptas e incluíam mais de 1 bilhão de ondas individuais. Nesse conjunto, a equipe identificou cerca de 100 mil eventos que atendiam aos critérios de ondas errantes. A proporção equivaleria a aproximadamente uma ocorrência diária em algum ponto aleatório dos oceanos, embora a maioria não atingisse dimensões extremas.
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Como a inteligência artificial transformou os registros em uma fórmula?
Os pesquisadores utilizaram técnicas de aprendizado de máquina, incluindo regressão simbólica. Diferentemente de modelos que entregam apenas uma previsão final, essa abordagem procura construir expressões matemáticas capazes de mostrar quais variáveis contribuem para determinado resultado.
O trabalho, publicado no periódico Proceedings of the National Academy of Sciences, combinou altura, direção, período das ondas, profundidade da água e características do estado do mar. Em vez de permanecer como uma caixa-preta, o modelo produziu uma expressão que pode ser analisada e incorporada a sistemas de avaliação de risco.
O que muda para navios e plataformas em alto-mar?
A nova fórmula não funciona como um alarme capaz de anunciar exatamente onde uma onda de 20 metros surgirá nos segundos seguintes. Sua utilidade está em calcular a probabilidade de condições favoráveis à formação de ondas errantes em determinada região e período.
Companhias de navegação podem usar esse tipo de informação durante o planejamento de rotas, comparando áreas em que sistemas de ondas se cruzam de forma perigosa. Serviços meteorológicos também podem incorporar o modelo a previsões marítimas, melhorando alertas para cargueiros, embarcações menores, plataformas e operações offshore.
- Avaliar o risco antes da definição de uma rota
- Identificar mares cruzados com maior potencial de extremos
- Reforçar alertas para embarcações e plataformas
- Evitar áreas perigosas quando houver alternativa segura

A inteligência artificial pode prever cada paredão de 20 metros?
Ainda não. O oceano é um sistema dinâmico, com medições incompletas e mudanças rápidas. A fórmula calcula probabilidades a partir das condições disponíveis, mas não garante que uma onda específica surgirá nem informa com precisão absoluta o ponto e o segundo em que isso acontecerá.
A transformação mais importante está na capacidade de converter uma quantidade gigantesca de observações em conhecimento físico compreensível. A inteligência artificial não descobriu que ondas podem se somar, princípio conhecido desde o século XVIII. Ela mostrou, usando 1 bilhão de registros reais, que essa combinação simples possui um papel muito maior do que se imaginava na criação dos paredões que durante séculos fizeram parte das histórias mais temidas do mar.
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