Halley só volta em 2061, mas cientistas já desenham uma missão para acompanhá-lo em vez de passar voando
Conceito HCREM propõe alcançar Halley antes de sua fase mais ativa e acompanhá-lo durante anos ao redor do periélio
O cometa Halley só voltará ao periélio em julho de 2061, mas pesquisadores já estudam como aproveitar essa oportunidade rara. Um conceito chamado HCREM propõe algo muito mais ambicioso do que repetir os rápidos sobrevoos realizados em 1986: encontrar o cometa ainda distante do Sol, igualar sua velocidade e acompanhá-lo durante anos enquanto sua superfície desperta, libera gases e forma a coma característica dos cometas ativos.
Por que encontrar o cometa Halley é tão difícil?
O Halley percorre uma órbita altamente inclinada e retrógrada, movendo-se ao redor do Sol no sentido oposto ao dos planetas. Isso transforma qualquer encontro em um desafio de dinâmica orbital, porque uma nave lançada da Terra precisa realizar uma enorme mudança de orientação e velocidade para viajar ao lado do cometa.
Foi justamente essa dificuldade que limitou as missões de 1986. Sondas como a europeia Giotto atravessaram rapidamente a região próxima ao núcleo, obtendo imagens e medições históricas, mas tiveram pouco tempo para observar mudanças. Um encontro orbital, ou rendezvous, permitiria substituir minutos de passagem por anos de acompanhamento.
Como a nova missão conseguiria viajar ao lado do cometa?
O conceito HCREM combina propulsão elétrica de baixo empuxo com uma assistência gravitacional de um planeta gigante. Em um dos cenários estudados, a nave passaria por Júpiter para realizar grande parte da mudança necessária no plano orbital, evitando gastar uma quantidade impraticável de propelente.
Depois, um propulsor de efeito Hall ajustaria gradualmente a trajetória até reduzir a velocidade relativa em relação ao alvo. Os pesquisadores consideram tecnologias já existentes, embora isso não signifique que a missão esteja aprovada ou financiada. O projeto permanece como estudo de viabilidade.
- Lançamento previsto antes de 2040;
- Assistência gravitacional em planeta gigante;
- Propulsão elétrica de baixo empuxo;
- Geradores radioisotópicos para fornecer energia;
- Encontro com velocidade relativa próxima de zero.
Este documentário da NASA mostra por que alcançar Halley sempre foi tão difícil:
Quando a nave alcançaria o cometa Halley?
A proposta tenta chegar ao alvo quando ele ainda estiver além da órbita de Saturno. Nessa região, materiais muito voláteis, como monóxido e dióxido de carbono, já podem produzir atividade, enquanto a sublimação intensa de gelo de água ainda não teria começado.
Esse momento é cientificamente valioso porque permitiria acompanhar a transição de um núcleo relativamente frio para um objeto cada vez mais ativo. À medida que Halley se aproximasse do Sol, a nave observaria mudanças na superfície, no fluxo de gases, na poeira e na formação progressiva da coma.
Por que os pesquisadores querem evitar outro simples sobrevoo?
O principal objetivo é registrar processos que um flyby rápido não consegue acompanhar. O estudo publicado na revista Planetary and Space Science descreve a estratégia de rendezvous, a trajetória e uma câmera de campo extremamente amplo: https://doi.org/10.1016/j.pss.2025.106165.
A câmera proposta teria campo de visão próximo de 100 graus. A ideia é observar simultaneamente detalhes do núcleo e material lançado ao espaço, acompanhando blocos, jatos e nuvens de poeira por distâncias maiores. Isso ajudaria a relacionar estruturas da superfície aos episódios de atividade cometária.

O que tornaria essa missão diferente da Giotto e da Rosetta?
A Giotto foi projetada para uma passagem rápida por Halley em 1986. Já a Rosetta, lançada em 2004, demonstrou décadas depois que é possível acompanhar um cometa por longo período: ela permaneceu junto de 67P/Churyumov–Gerasimenko enquanto o objeto se aproximava e depois se afastava do Sol.
A HCREM combina a filosofia de acompanhamento prolongado da Rosetta com um alvo muito mais difícil orbitalmente. O conceito também dispensa grandes painéis solares, utilizando geradores termoelétricos de radioisótopos para fornecer energia a enormes distâncias do Sol e durante operações próximas à poeira da coma.
Por que a missão ao cometa Halley precisa ser planejada agora?
O próximo periélio está previsto para 28 de julho de 2061, mas a trajetória estudada exige lançamento antes de aproximadamente 2040. Depois disso, com as tecnologias analisadas, a nave chegaria tarde demais para observar algumas das etapas iniciais de ativação do núcleo.
Por enquanto, HCREM é apenas um conceito científico, não uma missão selecionada por NASA, ESA ou outra agência. Ainda assim, o estudo mostra por que decisões tomadas décadas antes podem definir o que será possível aprender em 2061: acompanhar Halley desde o frio Sistema Solar exterior permitiria observar processos que nenhum sobrevoo rápido mostrou em 1986.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)