Golfinhos perseguiram peixes até eles devolverem a própria comida e vídeo registrou uma estratégia de roubo alimentar difícil de imaginar
Golfinho observado na Austrália perseguiu xaréus até regurgitarem alimento, revelando uma forma incomum de cleptoparasitismo entre cetáceos
Na Grande Barreira de Corais, na Austrália, um golfinho-nariz-de-garrafa foi filmado perseguindo peixes até que eles regurgitassem suas refeições. Em vez de capturar os animais, o cetáceo consumia o alimento expelido enquanto as vítimas escapavam. Publicado em setembro de 2026, o estudo documentou 11 episódios desse comportamento, conhecido como cleptoparasitismo, e revelou uma estratégia alimentar incomum que ainda não havia sido descrita com tantos detalhes em cetáceos.
Como o golfinho conseguia fazer os peixes devolverem a comida?
As observações aconteceram nas proximidades da ilha Lady Elliot, na porção sul da Grande Barreira de Corais. O protagonista era um golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) macho, apelidado de Bubbles, que se aproximava de cardumes de xaréus-olhudos (Caranx sexfasciatus).
Durante as perseguições, Bubbles selecionava um peixe e acompanhava suas mudanças de direção. O alvo acabava regurgitando parte do alimento ingerido, que era imediatamente capturado pelo golfinho. O comportamento foi observado repetidamente, mas ainda não está demonstrado se a regurgitação era provocada deliberadamente ou se surgia como reação ao estresse da perseguição.
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Quantas vezes os golfinhos foram filmados roubando alimento?
Embora a estratégia tenha chamado atenção por envolver um cetáceo, todos os episódios confirmados no estudo pertenciam ao mesmo indivíduo. Entre 2021 e 2025, pesquisadores e mergulhadores documentaram 20 registros de busca alimentar, incluindo 11 interações nas quais Bubbles consumiu comida regurgitada.
As gravações permitiram identificar uma sequência característica:
- Aproximação de um cardume de xaréus;
- Seleção de um peixe específico;
- Perseguição com mudanças rápidas de direção;
- Emissão de sons durante a aproximação;
- Regurgitação do alimento pelo peixe;
- Captura da comida expelida pelo golfinho.
Por que esse comportamento é considerado cleptoparasitismo?
O cleptoparasitismo acontece quando um animal se apropria de alimento obtido por outro organismo. Esse comportamento é conhecido em diferentes grupos, incluindo aves que roubam presas de outras aves. Entre mamíferos marinhos, entretanto, registros tão detalhados são relativamente raros.
No caso de Bubbles, a particularidade está na obtenção de comida que já havia sido ingerida pelos peixes. O golfinho não precisava necessariamente capturar e matar o xaréu perseguido. Em uma ocasião, os pesquisadores observaram até dez repetições desse processo durante aproximadamente 30 minutos.
O que os sons emitidos pelo golfinho revelaram sobre a estratégia?
O estudo publicado na revista Ecology and Evolution, em 13 de setembro de 2026, foi liderado por Romney Edwards-Francis, da Universidade da Sunshine Coast, com participação de pesquisadores de outras instituições.
As análises acústicas identificaram sequências intensas de cliques de ecolocalização e sons tonais de baixa frequência. Estes últimos apresentaram duração média de 0,88 segundo. Os autores investigaram se os sinais poderiam participar da perseguição, mas não demonstraram que os sons, isoladamente, provocassem a regurgitação dos peixes.
O golfinho poderia estar economizando energia durante a alimentação?
Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores é que roubar alimento regurgitado poderia exigir menos energia do que capturar e consumir os próprios peixes. Entretanto, o estudo não mediu diretamente os gastos energéticos das perseguições nem comparou sua eficiência com outras estratégias.
Outra possibilidade é que Bubbles tenha desenvolvido um comportamento aprendido por experiência individual. A repetição durante vários anos favorece essa interpretação, mas não comprova aprendizagem social ou transmissão da técnica para outros golfinhos.
O que essa descoberta revela sobre a inteligência alimentar dos golfinhos?
Golfinhos-nariz-de-garrafa apresentam grande flexibilidade comportamental. Em diferentes populações, já foram observadas técnicas que envolvem ferramentas, cooperação e maneiras particulares de capturar presas. O comportamento de Bubbles acrescenta outro exemplo dessa diversidade.
Entretanto, seria incorreto afirmar que todos os golfinhos conseguem induzir vômitos ou que essa prática representa uma estratégia comum da espécie. Até agora, os registros confirmam o comportamento de um indivíduo. Novas observações poderão revelar se outros cetáceos utilizam recursos semelhantes e esclarecer o papel dos sons durante as perseguições.
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