Gado chegou a Madagascar e grandes animais começaram a desaparecer na mesma época: ossos antigos ligam a expansão dos rebanhos a uma virada ecológica
Análise de ossos antigos revela expansão rápida da pecuária e sua possível relação com extinções e mudanças na vegetação
O gado em Madagascar se espalhou rapidamente há aproximadamente 1.200 anos, justamente quando florestas recuavam e grandes animais nativos desapareciam. Uma pesquisa publicada em setembro de 2026 analisou ossos antigos e revelou uma transformação ecológica que pode ter envolvido pecuária, mudanças climáticas e atividades humanas.
Como o gado em Madagascar transformou a história da ilha?
Durante milhões de anos, Madagascar desenvolveu uma fauna singular, marcada pelo isolamento geográfico. Lêmures gigantes, hipopótamos-pigmeus, tartarugas enormes e aves-elefante habitavam diferentes ambientes. Entretanto, a expansão das populações humanas e a introdução de animais domésticos coincidiram com profundas mudanças nessa biodiversidade.
Uma investigação liderada por cientistas da Universidade Estadual do Oregon e da Universidade Columbia identificou evidências de que bovinos, ovelhas e cabras alcançaram rapidamente diferentes regiões da ilha. A expansão ocorreu aproximadamente 1.200 anos atrás, período associado à redução de florestas e ao declínio de grandes herbívoros endêmicos.
O que os ossos antigos revelaram sobre a chegada dos rebanhos?
Os pesquisadores reuniram restos de animais domésticos encontrados em 23 sítios arqueológicos espalhados por Madagascar. A equipe utilizou datação por radiocarbono e análises químicas para reconstruir quando esses animais viveram e quais tipos de vegetação consumiam.
Os resultados indicaram que a pecuária já alcançava o interior da ilha há cerca de 1.200 anos. Cinco informações ajudam a compreender a descoberta:
- Foram analisados materiais provenientes de 23 sítios arqueológicos;
- O conjunto reuniu informações isotópicas de 126 espécimes;
- Noventa e quatro exemplares receberam datação direta por radiocarbono;
- A pesquisa incluiu bovinos, ovelhas e cabras;
- Os resultados indicaram mudanças alimentares relacionadas à transformação da vegetação.

Por que o gado em Madagascar pode ter contribuído para as extinções?
A introdução de grandes herbívoros modifica ecossistemas porque acrescenta novos consumidores de vegetação. Quando rebanhos aumentam, podem intensificar o pastoreio, alterar a regeneração de plantas e compartilhar recursos com espécies nativas. Essa competição pode se tornar especialmente importante em ambientes submetidos a outras pressões.
Em Madagascar, os pesquisadores consideram uma combinação de fatores: criação de animais, caça, uso do fogo, transformação de habitats e variações climáticas. Estudos anteriores identificaram sobreposição alimentar entre determinados animais introduzidos e herbívoros nativos. Entretanto, a coincidência cronológica não demonstra que os bovinos, isoladamente, provocaram as extinções.
Como os cientistas identificaram mudanças na alimentação dos animais?
O estudo, conduzido por Sean Hixon, Leanne Phelps e colaboradores de instituições internacionais, foi publicado em 23 de setembro de 2026 na revista Proceedings of the Royal Society B. A pesquisa científica original combinou informações cronológicas e análises dos isótopos estáveis de carbono e nitrogênio preservados no colágeno ósseo.
Esses indicadores permitem investigar aspectos da alimentação antiga. Os resultados sugerem que os bovinos passaram a consumir proporcionalmente mais plantas associadas a determinados ambientes úmidos e aproximadamente 10% mais carbono proveniente de gramíneas C4 ou plantas CAM. Essa mudança acompanha transformações na paisagem, embora diferentes fatores possam explicar o comportamento alimentar identificado.
Quais dados mostram a expansão do gado em Madagascar?
Os registros arqueológicos ajudam a reconstruir a presença dos rebanhos ao longo do tempo. A identificação de bovinos no interior da ilha indica que sua dispersão ocorreu relativamente cedo, embora ainda existam lacunas regionais importantes na documentação disponível.
As informações também permitem relacionar a expansão pecuária com estudos independentes sobre vegetação e megafauna. As datas mostram acontecimentos aproximadamente contemporâneos, mas não estabelecem uma sequência causal definitiva entre introdução dos rebanhos, desmatamento e desaparecimento das espécies.
| Indicador | Resultado |
|---|---|
| Locais investigados | 23 sítios |
| Espécimes com dados isotópicos | 126 |
| Espécimes datados diretamente | 94 |
| Expansão para o interior | Há cerca de 1.200 anos |
O que a descoberta revela sobre o desaparecimento dos animais gigantes?
A pesquisa amplia a compreensão de uma transformação ambiental que não pode ser atribuída facilmente a uma única causa. As aves-elefante, os grandes lêmures e os hipopótamos-pigmeus desapareceram após períodos de interação entre mudanças ecológicas e atividades humanas. A introdução de rebanhos provavelmente integrou esse processo mais amplo.
Os cientistas pretendem compreender melhor como essas relações variaram entre regiões com diferentes condições climáticas e vegetacionais. Os resultados também oferecem informações históricas relevantes para a conservação atual: Madagascar depende economicamente da pecuária, mas precisa proteger ecossistemas que abrigam espécies encontradas em nenhum outro lugar do planeta.
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