Fósseis de 518 milhões de anos parecem uma garrafa com tentáculos e animal muda a história da linhagem das estrelas-do-mar
Fóssil de corpo mole da China revela um sistema de tentáculos que antecede a separação entre equinodermos e hemicordados
Quatro fósseis minúsculos preservados no sudoeste da China revelaram um animal que não se parece com nenhuma estrela-do-mar moderna. Batizado de Yujingia glutenotunica, ele viveu há cerca de 518 milhões de anos e combinava corpo cilíndrico mole com uma coroa de apêndices. Yujingia surgiu muito perto da base evolutiva dos ambulacrários, grupo que hoje reúne estrelas-do-mar, ouriços, pepinos-do-mar e hemicordados.
Como era Yujingia há 518 milhões de anos?
Os quatro exemplares vieram da biota de Chengjiang, em Yunnan, famosa pela preservação excepcional de organismos de corpo mole do Cambriano. Os fósseis medem aproximadamente 8,5 a 22 milímetros e preservam contorno corporal, massa visceral e delicados apêndices que dificilmente sobreviveriam em depósitos comuns.
Sua parte inferior era arredondada e alongada, lembrando uma pequena garrafa. Essa forma inspirou o nome Yujingia, referência a um tipo tradicional de vaso. Ao redor da região superior havia dois conjuntos de apêndices, criando uma anatomia muito diferente dos equinodermos adultos encontrados nos oceanos atuais.
Como os tentáculos capturavam alimento no mar cambriano?
Alguns apêndices eram pinados, com pequenas ramificações laterais alternadas e sulcos associados à alimentação. Os pesquisadores interpretam essas estruturas como um sistema para capturar partículas suspensas na água e conduzi-las em direção à região oral.
Outro conjunto de apêndices provavelmente ajudava o animal a permanecer temporariamente preso ao fundo marinho. Assim, ele teria levado uma vida semissedentária, mas não necessariamente ficava permanentemente cimentado ao substrato. A capacidade exata de deslocamento ainda é uma reconstrução baseada em sua anatomia.
- Corpo mole e aproximadamente cilíndrico;
- Comprimento entre 8,5 e 22 mm;
- Apêndices pinados para alimentação;
- Sulcos associados ao transporte de partículas;
- Estruturas provavelmente usadas para fixação temporária.
Este vídeo apresenta diretamente a biota de Chengjiang, depósito fossilífero onde Yujingia foi encontrado.
Por que esse animal não parecia uma estrela-do-mar?
Estrelas-do-mar modernas possuem simetria radial pentâmera quando adultas e um esqueleto interno formado por pequenas placas calcárias. Yujingia, em contraste, apresentava corpo bilateral, mole e sem um esqueleto mineralizado semelhante ao dos equinodermos atuais.
Essa combinação é justamente o que torna o fóssil importante. Ela mostra que algumas estruturas relacionadas à alimentação por tentáculos apareceram antes da aquisição de características que hoje identificamos imediatamente com estrelas-do-mar e outros equinodermos.
Onde Yujingia aparece na árvore evolutiva dos animais?
No estudo publicado na Current Biology, os pesquisadores analisaram 505 características morfológicas distribuídas entre 100 táxons vivos e fósseis. As reconstruções filogenéticas colocaram Yujingia em um conjunto de formas tentaculadas imediatamente anterior ao último ancestral comum dos ambulacrários modernos.
Ambulacraria inclui dois grandes ramos atuais: Echinodermata, com estrelas-do-mar, ofiúros, ouriços, pepinos e lírios-do-mar, e Hemichordata, que inclui vermes-bolota e pterobrânquios. Portanto, o fóssil não é uma estrela-do-mar primitiva, mas um parente próximo de uma etapa ancestral anterior à separação desses grupos.

O que mudou na reconstrução do ancestral das estrelas-do-mar?
Uma hipótese tradicional imaginava o ancestral dos ambulacrários mais parecido com um animal vermiforme, que vivia no fundo e filtrava partículas utilizando estruturas associadas à faringe. A nova reconstrução coloca maior peso em um organismo com tentáculos especializados para alimentação suspensívora.
Os resultados sugerem que sistemas complexos de captura de partículas surgiram profundamente na história do grupo. Posteriormente, diferentes linhagens modificaram radicalmente esse plano inicial, produzindo desde os hemicordados vermiformes até a arquitetura radial dos equinodermos.
Por que Yujingia muda a história evolutiva das estrelas-do-mar?
O fóssil preenche parte de uma lacuna importante do Cambriano: como dois grupos parentes acabaram adquirindo corpos tão diferentes. Ele indica que características hoje separadas entre equinodermos e pterobrânquios podem remontar a estágios muito antigos da evolução dos ambulacrários.
Yujingia também mostra por que fósseis de corpo mole são decisivos. Sem a preservação excepcional de Chengjiang, seus tentáculos, revestimento corporal e estruturas internas provavelmente desapareceriam, deixando justamente as características necessárias para reconhecer sua posição evolutiva fora do registro fóssil.
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