Fábrica em Guariba transforma bagaço de cana em milhões de litros de etanol
Unidade da Raízen aproveita fibras deixadas pelo processamento da cana e amplia a produção sem depender apenas dos açúcares da colheita
Em Guariba, no interior de São Paulo, uma unidade industrial da Raízen aproveita o material fibroso que sobra depois do processamento da cana-de-açúcar. A fábrica de Bonfim tem capacidade para produzir 82 milhões de litros por ano de etanol celulósico, ampliando o aproveitamento de uma mesma colheita sem depender exclusivamente dos açúcares presentes no caldo da planta.
Onde fica a fábrica de etanol celulósico que reaproveita o bagaço?
A unidade funciona no Parque de Bioenergia Bonfim, em Guariba, no estado de São Paulo. Inaugurada em maio de 2024, recebeu investimento divulgado de aproximadamente R$ 1,2 bilhão. A planta foi projetada para operar integrada à usina convencional, aproveitando principalmente o bagaço gerado durante a fabricação de açúcar e etanol de primeira geração.
Sua capacidade nominal chega a 82 milhões de litros anuais. Esse número representa capacidade instalada, e não necessariamente produção efetiva em todos os anos. A integração é importante porque o resíduo fibroso já está disponível dentro do complexo industrial, reduzindo etapas logísticas para transformá-lo novamente em insumo produtivo.
Como o etanol celulósico é produzido a partir de uma sobra agrícola?
O etanol convencional utiliza principalmente açúcares fermentáveis obtidos do caldo da cana e do melaço. No processo de segunda geração, o alvo muda: a indústria procura acessar a celulose e a hemicelulose presentes no bagaço e, dependendo da configuração da unidade, também pode aproveitar palha de cana.
A biomassa passa por etapas destinadas a romper sua estrutura resistente. Depois do pré-tratamento, enzimas ajudam a liberar açúcares que podem ser fermentados por microrganismos. O etanol resultante possui a mesma molécula do produzido pela rota convencional e pode chegar aos mesmos mercados.
- Aproveitamento de biomassa que já passou pela usina;
- Conversão da fração celulósica em açúcares fermentáveis;
- Fermentação dos açúcares liberados;
- Produção adicional sem exigir proporcionalmente mais cana.
Este vídeo da própria Raízen mostra a expansão de suas plantas de E2G.
O que muda quando a usina deixa de depender apenas do caldo da cana?
Uma tonelada de cana não contém somente sacarose aproveitável para açúcar ou etanol tradicional. Depois da extração do caldo permanece uma quantidade expressiva de material lignocelulósico. Historicamente, grande parte desse bagaço também serve como combustível para caldeiras e geração de eletricidade dentro das próprias usinas.
O E2G cria outro destino de maior valor para parte dessa biomassa. Isso não significa que todo o bagaço possa simplesmente ser desviado para fermentação, porque as usinas ainda precisam equilibrar geração de vapor, eletricidade e outros usos. A vantagem está em obter mais produto comercial da mesma matéria-prima agrícola.
O que os estudos mostram sobre transformar bagaço e palha em combustível?
A dificuldade técnica está em acessar os carboidratos estruturais protegidos por uma matriz de celulose, hemicelulose e lignina. Um estudo publicado na Renewable Energy analisou diferentes configurações para converter bagaço e palha de cana em etanol, incluindo pré-tratamento, hidrólise e rotas biológicas mais integradas.
Os pesquisadores modelaram instalações de grande escala e mostraram que mudanças no processo podem alterar investimento, custos e viabilidade econômica. Isso ajuda a explicar por que o etanol celulósico levou anos para sair do laboratório e alcançar operação comercial: converter um resíduo barato não significa, por si só, ter um processo industrial simples ou barato.

Quanto etanol celulósico essas fábricas já conseguem produzir?
A planta de Bonfim foi projetada para 82 milhões de litros anuais. Como referência de operação real, a Raízen informou produção total de 120,2 mil metros cúbicos de E2G na safra 2025/26, equivalentes a 120,2 milhões de litros. Esse volume reúne suas plantas de segunda geração em operação e não deve ser atribuído somente a Bonfim.
O avanço foi expressivo diante dos 58,8 milhões de litros registrados na safra 2024/25. Na divulgação mais recente, a empresa associou o crescimento à estabilização operacional das unidades Bonfim, Univalem e Barra, mostrando que a tecnologia já ultrapassou a fase de demonstração isolada.
Até onde o reaproveitamento do bagaço pode reduzir a pressão sobre novas lavouras?
Segundo a Raízen, o uso da biomassa residual pode elevar em cerca de 50% o potencial de produção de etanol a partir da mesma área cultivada. Esse percentual representa potencial tecnológico e depende das condições industriais, disponibilidade de resíduos e integração energética de cada parque.
O ganho central está na produtividade da biomassa já colhida. Em vez de obter combustível apenas dos açúcares diretamente extraídos da cana, a indústria passa a explorar também parte das fibras que permaneceriam como subproduto. A expansão, portanto, pode ocorrer com menor dependência de direcionar mais caldo ou ampliar proporcionalmente a área agrícola.
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