Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. O contexto de Canudos que a frase solta faz esquecer
Euclides da Cunha e "o sertanejo é, antes de tudo, um forte": o contexto de denúncia de Canudos que a frase solta apaga
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.” A frase é de Euclides da Cunha, no livro Os Sertões, e costuma circular como elogio isolado à resistência do povo do sertão, sem o contexto de denúncia em que ela nasceu.
O que Euclides realmente descreve nessa frase?
A frase completa continua assim: “Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.” Euclides descreve o sertanejo como um paradoxo físico: por fora, desengonçado e sem a “plástica impecável” que a elite litorânea da época valorizava; por dentro, com uma resistência física que os corpos “elegantes” do litoral não tinham.
Ele mesmo chama essa figura de “Hércules-Quasímodo”: força e feiura aparente reunidas na mesma pessoa, um contraste deliberado com os padrões estéticos da época.

O que foi a Guerra de Canudos, em poucas linhas?
Canudos foi uma comunidade pobre e autônoma na Bahia, liderada por Antônio Conselheiro, destruída pelo Exército brasileiro entre 1896 e 1897 depois de resistir a sucessivas expedições militares.
Euclides da Cunha foi até lá como correspondente de guerra do jornal O Estado de S. Paulo, presenciando os momentos finais do cerco antes da queda do arraial, em outubro de 1897.
Novembro de 1896
primeiro confronto entre seguidores de Antônio Conselheiro e tropas do governo da Bahia.
Setembro de 1897
Euclides da Cunha chega a Canudos como correspondente, testemunhando os momentos finais do cerco.
5 de outubro de 1897
rendição final do arraial, praticamente destruído após meses de cerco militar.
1902
Euclides publica Os Sertões, transformando a cobertura jornalística em livro.
Como o livro está organizado, além dessa frase isolada?
Os Sertões se divide em três partes: “A Terra”, que descreve a geografia árida do sertão baiano; “O Homem”, de onde vem a frase sobre o sertanejo; e “A Luta”, que narra em detalhe o cerco e a destruição de Canudos.
Essa estrutura não é acidental: Euclides constrói o argumento em camadas, do ambiente físico ao ser humano que ele molda, até chegar à guerra que esse mesmo ambiente e esse mesmo povo sofreram nas mãos do próprio país.
Por que a frase é denúncia, não elogio simples de resistência?
Euclides descreve a força do sertanejo logo antes de narrar o abandono e a violência a que essa mesma população foi submetida pelo próprio Estado brasileiro. A força não é celebrada como destino, é apresentada como algo que tornou ainda mais brutal ver aquele povo ser exterminado em nome do progresso.
Ler a frase isolada, como elogio genérico à resistência brasileira, apaga justamente o ponto central do livro: a força do sertanejo não impediu, e talvez até tenha custado mais caro diante de, uma guerra movida contra a própria população que Euclides descreve com tanta admiração.

Como Euclides virou testemunha do massacre que narrou?
Enviado para cobrir o que a imprensa da época tratava como um conflito simples contra “fanáticos”, Euclides chegou a Canudos e viu de perto a desproporção entre o poder do Exército e a resistência de uma comunidade pobre e mal armada.
Os Sertões, hoje em domínio público, nasce dessa virada: o relato que começou como cobertura de guerra terminou como um dos maiores textos de denúncia da história brasileira, documentando:
- a desproporção entre o poder militar do Exército e a resistência de uma comunidade pobre e mal armada.
- o abandono anterior do Estado, que deixou aquela população à própria sorte antes mesmo do conflito começar.
- a inversão de quem a imprensa da época chamava de “bárbaro” ao longo da guerra.
Esse mesmo cuidado de reler um clássico da literatura brasileira sem cortar o contexto que muda seu sentido também vale para “ao vencedor, as batatas”, de Machado de Assis.

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