Estudo brasileiro de mais de 50 anos confirma cratera de 21 km no Piauí como a segunda maior da América do Sul
Marcas microscópicas em rochas comprovaram impacto meteorítico ocorrido há milhões de anos
No meio do sertão nordestino, escondida sob morros que parecem comuns à primeira vista, existe uma das marcas mais violentas da história do nosso planeta. Uma cratera de 21 quilômetros de diâmetro em São Miguel do Tapuio, no interior do Piauí, acaba de ser confirmada oficialmente como a segunda maior cratera de impacto meteorítico da América do Sul, fruto de um estudo brasileiro publicado na revista Meteoritics & Planetary Science, da The Meteoritical Society, referência mundial em pesquisa de meteoritos.
Quase cinco décadas para provar o que estava debaixo dos pés
A estrutura circular já era conhecida desde os anos 1980, quando apareceu em imagens de radar do Projeto Radambrasil. Mas a forma circular sozinha não basta como prova: grandes formações do tipo podem surgir tanto de processos internos da Terra quanto de impactos extraterrestres. Era preciso encontrar evidências diretas no centro da cratera, justamente a região mais inacessível de toda a área.
A pesquisa foi liderada pelo professor emérito Álvaro Crósta, do Instituto de Geociências da Unicamp, que conduziu três expedições ao local ao longo de décadas sem conseguir alcançar o núcleo da formação. A região é extremamente isolada, a cerca de 215 km de Teresina, com relevo acidentado e vegetação densa e espinhosa típica da Caatinga.

Como uma expedição em 2017 mudou tudo
A virada veio na expedição de 2017, quando Crósta e o professor Marcos Alberto Rodrigues Vasconcelos, da Universidade Federal da Bahia, conseguiram finalmente se aproximar do núcleo da formação. Para vencer o terreno quase impenetrável, a equipe contou com dois apoios fundamentais.
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A cicatriz microscópica que comprova tudo
A confirmação definitiva estava em deformações microscópicas nos grãos de quartzo das rochas, chamadas de marcas de deformação por choque. Essas estruturas só se formam sob pressões da ordem de 20 gigapascais, equivalentes a cerca de 200 mil atmosferas. Como explicou o próprio Crósta ao Jornal da Unicamp: “Nenhum outro processo geológico é capaz de gerar pressões tão elevadas em rochas das porções mais superficiais da crosta da Terra.”
“Os estudos de crateras de impacto nos permitem entender a evolução das superfícies dos planetas ao longo do tempo geológico. Na Terra, ajudam também a entender a frequência das grandes colisões cósmicas e fornecem elementos para a proteção do nosso planeta em relação a eventos similares futuros.”Álvaro Crósta, professor emérito da Unicamp e líder da pesquisa

O tamanho do impacto que formou a cratera piauiense
O meteorito que criou a estrutura tinha cerca de 2,2 quilômetros de diâmetro e atingiu a superfície a aproximadamente 60 mil quilômetros por hora. A energia liberada foi tão brutal que pulverizou quase todo o corpo celeste, convertendo seus fragmentos em gases. A idade exata ainda não foi determinada, mas estima-se que o impacto ocorreu entre 159 e 267 milhões de anos atrás. Séculos de erosão apagaram boa parte do relevo original, tornando a cratera praticamente invisível a olho nu.
Com essa confirmação, o Piauí passa a abrigar a segunda maior cratera do continente, atrás apenas do Domo do Araguainha, na divisa entre Mato Grosso e Goiás, com cerca de 40 km de diâmetro. A estrutura piauiense é agora a nona confirmada no Brasil e a 37ª maior do mundo, entre cerca de 200 identificadas no planeta.
O que essa descoberta significa para o Brasil e para a ciência
O estudo envolveu pesquisadores de universidades federais do Ceará, de Santa Catarina, de São Carlos e de Brasília, além da USP. As amostras foram analisadas em microscópio na Universidade de Viena, na Áustria. Os resultados ainda serão apresentados por Crósta no congresso anual da The Meteoritical Society, em agosto de 2026, em Frankfurt. Todas as nove crateras confirmadas no Brasil tiveram a participação do professor, que aponta haver outras estruturas ainda em estudo.
Uma cicatriz com centenas de milhões de anos estava esperando, em pleno sertão nordestino, para ser finalmente reconhecida. Se a ciência brasileira levou quase cinco décadas para provar o que estava diante dos olhos, imagina o que ainda pode estar escondido sob o solo do país. Compartilhe essa descoberta: o Brasil é maior do que a gente imagina, e a ciência que acontece aqui merece ser conhecida.
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