Este peixe é descrito como tendo cinco corações, não possui mandíbula nem estômago e transforma água do mar em uma massa de muco em segundos
A hagfish libera mucinas e fios proteicos que incorporam água salgada e formam rapidamente uma defesa fibrosa contra predadores
A feiticeira-do-Pacífico (Eptatretus stoutii), também conhecida como hagfish, parece reunir características improváveis em um único vertebrado. Ela não possui mandíbula, não tem estômago nem olhos verdadeiros e é descrita pelo Monterey Bay Aquarium como portadora de cinco estruturas cardíacas. Quando atacada, porém, surge sua adaptação mais impressionante: glândulas espalhadas pelo corpo liberam muco e fios proteicos que, misturados à água salgada, formam rapidamente uma massa fibrosa capaz de atrapalhar predadores.
Por que a feiticeira-do-Pacífico é descrita como um peixe de cinco corações?
A circulação das hagfish é muito diferente daquela encontrada na maioria dos peixes. Existe um coração principal, responsável pela circulação sistêmica, acompanhado por estruturas acessórias que ajudam o sangue a retornar através de um sistema de baixa pressão e grandes espaços cheios de sangue.
A expressão “cinco corações” é uma simplificação anatômica usada inclusive pelo Monterey Bay Aquarium para Eptatretus stoutii. Nem todas essas bombas são corações verdadeiros no mesmo sentido do órgão principal: estruturas cardinais e caudais podem depender de musculatura próxima para movimentar o sangue.
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Como um vertebrado consegue viver sem mandíbula e sem estômago?
As hagfish pertencem a uma linhagem de vertebrados sem mandíbula. No lugar de maxilares, utilizam uma estrutura semelhante a uma língua raspadora equipada com elementos queratinizados para retirar alimento. A feiticeira-do-Pacífico consome pequenos invertebrados e também aproveita carcaças de peixes no fundo marinho.
Seu sistema digestivo também não possui um estômago verdadeiro. O alimento segue por um trato relativamente simples, uma característica que se soma a outras particularidades anatômicas desse grupo e mostra que a ausência de estruturas comuns em outros vertebrados não impede uma estratégia alimentar eficiente.
- Não possui mandíbula.
- Não apresenta estômago verdadeiro.
- Tem visão extremamente reduzida.
- Localiza alimento principalmente por olfato e tato.
- Pode consumir invertebrados e matéria animal em decomposição.
Este vídeo do Smithsonian Channel mostra a hagfish e sua extraordinária produção defensiva de muco.
Como a feiticeira-do-Pacífico transforma água do mar em muco tão rapidamente?
Ao ser perturbada, a hagfish libera pelas glândulas uma quantidade relativamente pequena de material contendo vesículas de mucina e feixes compactados de fios proteicos. Assim que esse conteúdo encontra a água do mar, as vesículas se expandem enquanto os feixes começam a se desenrolar.
O resultado pode surgir em menos de um segundo. Em vez de simplesmente produzir litros de secreção dentro do corpo, o animal fornece uma espécie de estrutura molecular capaz de incorporar uma enorme quantidade da própria água ao redor. Estudos descrevem o material final como extremamente diluído e composto quase totalmente por água do mar aprisionada entre mucinas e fibras.
Por que esse muco funciona contra predadores?
A função defensiva fica especialmente evidente contra animais que respiram por brânquias. Quando um predador tenta morder a hagfish, a rede viscosa e fibrosa pode preencher sua boca e alcançar as brânquias, dificultando o fluxo normal de água e incentivando o atacante a interromper a investida.
Os fios proteicos são fundamentais para manter a estrutura coesa. Alguns podem atingir aproximadamente dez centímetros quando totalmente desenrolados, formando uma malha que retém água. Por isso, o material funciona menos como um muco convencional espesso e mais como uma rede tridimensional extremamente fina.

O que torna a feiticeira-do-Pacífico tão diferente de outros peixes?
A ficha do Monterey Bay Aquarium sobre Eptatretus stoutii registra uma combinação rara: cinco corações na descrição popular, ausência de mandíbula, olhos verdadeiros e estômago, além da produção de muco defensivo. A espécie pode alcançar cerca de 64 centímetros e ocorre no fundo do Pacífico oriental.
A produção do muco é particularmente eficiente porque a maior parte do volume final não foi secretada pelo peixe. Um estudo experimental encontrou cerca de 99,996% de água do mar no material formado, enquanto mucinas e fios representavam apenas frações minúsculas da massa.
| Característica | O que ocorre |
|---|---|
| Mandíbula | Ausente. |
| Estômago | Não possui estômago verdadeiro. |
| Muco defensivo | Pode se formar em menos de um segundo. |
| Composição final | É formada quase inteiramente por água do mar. |
Por que essa defesa chama tanta atenção dos pesquisadores?
O mecanismo reúne velocidade, enorme expansão e uso mínimo de material biológico. Experimentos mostraram que a interação entre sais da água, mucinas e fios proteicos controla o rápido desenvolvimento da rede, fazendo desse sistema natural um objeto de interesse para estudos de hidrogéis e materiais fibrosos.
A anatomia incomum e o muco não são curiosidades desconectadas. Juntos, eles mostram uma linhagem de vertebrados que seguiu uma trajetória evolutiva muito diferente da maioria dos peixes atuais e ainda sobrevive usando uma das defesas químico-mecânicas mais rápidas conhecidas no ambiente marinho.
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