“Estão empurrando música de robô goela abaixo”
Ted Gioia acusa Spotify e TikTok de esconderem o uso de inteligência artificial para economizar com artistas e manipular ouvintes
O historiador musical americano Ted Gioia voltou a criticar o uso de inteligência artificial na indústria fonográfica.
A nova ofensiva vem na esteira do artigo “Como abandonar o Spotify: um guia prático”, assinado por Kate Ellen e Seth Werkheiser. O texto sustenta que o modelo de negócios do Spotify tornou-se insustentável para artistas e depende de contratos frágeis com grandes gravadoras.
Segundo os autores, se artistas independentes deixassem a plataforma, o sistema poderia desabar rapidamente.
Em entrevista ao canal do músico Rick Beato, publicada em 2024, Gioia denuncia a substituição de artistas humanos por faixas geradas por IA em plataformas como Spotify e TikTok. Ele aponta a ausência de transparência no uso da tecnologia: “Se a inteligência artificial é tão maravilhosa, por que mantê-la em segredo?”
Um dos exemplos citados por Gioia é o compositor sueco Johan Röhr, responsável por mais de 15 bilhões de reproduções no Spotify, superando nomes como Michael Jackson e Elton John.
Röhr opera com 656 pseudônimos distintos. Para Gioia, trata-se de uma estratégia para mascarar a origem das faixas e driblar o pagamento de royalties a músicos reais.
As composições, majoritariamente instrumentais e voltadas para relaxamento ou estudo, aparecem em 144 playlists oficiais da plataforma, chegando a representar até 40% do conteúdo.
Gioia suspeita que o próprio Spotify esteja criando essas músicas com IA para manter os direitos autorais e cortar custos.
Ele compara a prática à publicação de textos automatizados com autores fictícios, alertando para a manipulação deliberada do público.
No TikTok, a situação é semelhante.
A Universal Music chegou a retirar temporariamente suas faixas da rede social, acusando o uso de IA para evitar o pagamento de direitos autorais. A decisão foi revertida, o que, segundo Gioia, demonstra a dependência das gravadoras das plataformas digitais.
Segundo ele, o mercado musical está estagnado porque as gravadoras só contratam artistas com milhões de seguidores.
“Os algoritmos apenas repetem o que já foi ouvido”, diz. Ele propõe um teste: “Conte os acordes de uma música. Depois, conte os compositores. Se tem mais gente do que acordes, algo está errado.” Gioia critica a lógica de comitê: faixas com quatro acordes e oito autores, todos disputando centavos em royalties.
Para Gioia, a música deixou de ser arte e virou ativo financeiro.
Gravadoras como a Universal investem cinco vezes mais na aquisição de catálogos antigos do que na gravação de novidades.
Ele prevê, no entanto, uma reação: a ascensão da “microcultura” de criadores independentes, que se conectam diretamente com seus públicos.
Cita como exemplo a cantora Taylor Swift, cuja turnê mundial esgotou ingressos em cinco continentes.
A crítica central de Gioia é que a cultura está sendo substituída por um sistema automatizado de distribuição de conteúdo.
Ele conclui: “Se continuarmos assim, a cultura vai morrer. E ninguém vai perceber. Porque vai ser tudo automático.”
Quem é Ted Gioia
Ted Gioia é historiador da música, crítico cultural e pianista.
Formado por Stanford e Oxford, é autor de obras como A História do Jazz e Os Padrões do Jazz. Publica ensaios no Substack e é considerado uma das vozes mais influentes da crítica musical contemporânea.
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