Esse pequeno país quase escondido na Ásia parece silencioso demais, mas guarda palácios bilionários, regras rígidas e muito ouro
O pequeno país de Bornéu combina riqueza extrema, tradição islâmica, palácios monumentais e turismo controlado
Brunei cabe em 72 horas de visto de trânsito, mas deixa uma impressão que demora muito mais para passar. É um dos países mais ricos do Sudeste Asiático, move-se sobre petróleo e gás, proíbe álcool, aplica a lei islâmica e abriga o maior palácio residencial do mundo. Um sultanato silencioso, dourado e profundamente particular.
O país que fica dentro de outro país e quase ninguém conhece
Brunei fica na ilha de Bornéu, espremido entre territórios da Malásia, e isso não é só geografia: o país é literalmente dividido em duas partes separadas por terra malaia. Por décadas, atravessar de uma metade à outra exigia cruzar uma fronteira internacional dentro do próprio país. Em 2019, uma ponte de aproximadamente 30 quilômetros resolveu o problema de uma vez. Antes disso, foi um sultanato com influência sobre regiões que hoje pertencem às Filipinas, Vietnã e Malásia, depois ficou sob domínio britânico por cerca de cem anos e conquistou independência do Reino Unido somente em 1984.
Quem chega hoje encontra ruas limpas, organizadas e silenciosas, comparáveis à ordem de Cingapura ou Dubai. A única marca de posto de gasolina no país é a Shell, a mesma que extraiu petróleo da região de Seria desde 1929 e ajudou a construir a riqueza que financia tudo o que se vê aqui.

O sultão que tem um palácio maior do que qualquer outro no mundo
O sultão Hassanal Bolkiah não é apenas o governante de Brunei. É a figura central da vida pública, da arquitetura, da sinalização urbana e do calendário do país. Durante as comemorações de seu aniversário, celebradas por 15 dias seguidos, multidões se reúnem nas ruas para vê-lo passar, fachadas são cobertas com placas amarelas de felicitação e mercados temporários abrem em toda parte. Seu filho, o príncipe Mateen, acumulou grande popularidade nas redes sociais e se tornou um dos rostos mais reconhecidos do sultanato no exterior.
A residência oficial do sultão, o Palácio Nurul Iman, entrou para o Guinness Book como o maior palácio residencial do mundo. Os números falam por si:
- Custo de construção estimado em 1,4 bilhão de dólares
- Área de aproximadamente 200 mil metros quadrados
- 1.788 quartos distribuídos pela estrutura
- Salão de banquetes para 5 mil convidados
- Mesquita interna com capacidade para 1.500 fiéis
- Garagem com espaço para 110 carros
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Ouro nas cúpulas, mármore italiano e lendas nas ruas
O ouro aparece com frequência incomum em Brunei. A Mesquita Sultan Omar Ali Saifuddien, construída em 1958, tem cúpula revestida com folhas de ouro e piso de mármore italiano, e fica a poucos metros da vila flutuante que deu origem ao país. A Mesquita Jame’ Asr Hassanil Bolkiah, associada ao sultão atual, foi projetada em torno do número 29, referência à posição do monarca na linhagem dinástica: são 29 torres e uma fonte com numeração correspondente. No museu da família real, uma carruagem dourada usada na cerimônia de entronização do sultão é exibida como peça central. Ela foi puxada por mais de 40 pessoas no dia da coroação.
Mas nem tudo em Brunei é ouro e protocolo. O país guarda lendas que misturam tradição, moralidade e imaginação popular, entre elas um túmulo ligado a membros da família governante punidos por uma relação proibida, e a história de um filho que teria abandonado a mãe e sido amaldiçoado como punição. São narrativas que circulam entre os moradores com a mesma naturalidade das regras religiosas.
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Joe HaTTab mostrando como é a vida por dentro de um dos países mais ricos do planeta.
A lei islâmica que chocou o mundo e ainda vigora no país
Cerca de 78% da população de Brunei é muçulmana, e o islã não é apenas religião: é estrutura legal. Em 2019, o governo anunciou a implementação da lei islâmica, o que gerou repercussão internacional intensa. O álcool é proibido em todo o território nacional. O fumo também é proibido em espaços públicos. Existe um prédio governamental dedicado exclusivamente à administração da lei islâmica. Na prática, segundo relatos de visitantes, a aplicação de algumas normas teria sido reduzida, embora nenhum anúncio oficial tenha confirmado isso.
O Hotel Empire, um dos mais luxuosos da Ásia, tem 360 quartos, vista para o Mar da China Meridional, nove piscinas e uma suíte de 660 metros quadrados com cinema interno. Poderia facilmente ser classificado como sete estrelas, mas recebe certificação cinco estrelas porque simplesmente não serve álcool.
Brunei é um lugar que não tenta parecer o que não é
Em Kampong Ayer, chamada de “Veneza do Oriente”, cerca de 39 mil pessoas vivem em casas sobre a água em Bandar Seri Begawan, a capital. A vila tem escolas, museus e mesquitas flutuantes, e preserva a identidade histórica de um povo que construiu sua origem sobre o mar. É lá que se come o Nasi Katok, arroz com frango frito que rivaliza com qualquer rede internacional, e o Soto, sopa tradicional do Sudeste Asiático que aparece em quase toda mesa da região.
Brunei não tenta ser outro país. Não imita Dubai, não corre para o turismo em massa, não abandona suas regras para agradar visitantes. Se você quer entender como petróleo, fé, monarquia e tradição podem conviver em 5.765 quilômetros quadrados sem se contradizer, esse sultanato silencioso merece mais do que as 72 horas que o visto permite. Comece a planejar antes que a janela feche.
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