Essa moda dos anos 70 está destruindo o Brasil inteiro
Tributos vão para o governo enquanto infraestrutura sai do seu bolso
Ao olhar para o mapa urbano brasileiro em 2026, uma coisa salta aos olhos: a multiplicação de condomínios fechados, principalmente os horizontais, aqueles conjuntos de casas muradas que parecem pequenas cidades particulares. Essa transformação vem mudando bairros inteiros em Curitiba, São Paulo, no litoral do Rio Grande do Sul e em dezenas de municípios de porte médio.
Por que os condomínios horizontais viraram febre no Brasil?
O canal Elementar, com seus 1,52 milhões de inscritos, explora como o fenômeno dos condomínios fechados começou a ganhar força nos anos 1970, com projetos como Alphaville, inspirados nos subúrbios norte-americanos. A partir daí, morar “atrás dos muros” passou a ser associado a qualidade de vida, prestígio e a ideia de um bairro planejado.
Ao longo dos anos 2000, essa lógica se consolidou: a cidade “normal” ficou mais densa, caótica e violenta, enquanto os condomínios horizontais ofereciam uma narrativa de conforto e exclusividade. A pandemia, o home office e a busca por espaço fizeram essa tendência disparar em lugares como Novo Hamburgo e Xangri-lá, onde o número de empreendimentos explodiu em poucos anos.
Segurança, status ou novo estilo de vida?
Os condomínios são vendidos como resposta direta ao medo da violência, com portarias 24 horas, câmeras, muros altos e controle de acesso. Mas estudos como o de Denise Mônaco dos Santos mostram que reduzir tudo à criminalidade é simplificar demais um fenômeno que envolve também marketing e mudanças culturais.
As propagandas imobiliárias não falam só de segurança: oferecem exclusividade, natureza e um “novo estilo de vida”, com imagens de famílias andando de bicicleta e slogans como “São Paulo é mais verde aqui”. Essas campanhas revelam não apenas o que as pessoas desejam, mas ajudam a moldar esse desejo, transformando o condomínio fechado em símbolo de aspiração social.
Para entender o apelo desse modelo, vale observar a infraestrutura oferecida:
- Piscinas, academias e trilhas de caminhada mantidas pelos próprios moradores
- Quadras de tênis, padel, campos de futebol e espaços kids com acesso controlado
- Áreas verdes projetadas, lagos artificiais e paisagismo que imitam “bairros-jardim”
- Salões de festas, gourmets e até coworkings internos para home office
- Sistema de segurança privada, com rondas, câmeras e equipe própria
Que impactos essa onda traz para as cidades?
O crescimento acelerado de condomínios horizontais cria um efeito direto na forma como as cidades se organizam. Em Xangri-lá, por exemplo, cerca de 41,8% do território já é ocupado por 43 condomínios fechados, com previsão de mais 19 até 2026, criando um verdadeiro corredor murado ao longo da Estrada do Mar.
Esse avanço levanta problemas ambientais, urbanos e sociais: há registros de extravasamento em estações de tratamento de esgoto mantidas pelos próprios empreendimentos e disputa por espaço público. Na orla, foi preciso um decreto (8/2024) para limitar barracas e guarda-sóis pré-montados dos condomínios na areia, mostrando como surge uma cidade dupla: uma parte privada e outra pública.

Por que os condomínios são tão vantajosos para as prefeituras?
Do ponto de vista fiscal, os condomínios horizontais são um achado para os cofres municipais: em Xangri-lá, 46,5% da arrecadação vem desses empreendimentos, que bancam sua própria infraestrutura interna, enquanto o poder público atua basicamente “até o portão”. Iluminação, segurança, áreas verdes e saneamento são pagos pelos moradores, mas o IPTU é recolhido normalmente.
Esse arranjo cria uma conta curiosa, em que o morador paga duas vezes: financia a mini cidade privada e continua responsável pelos tributos da cidade oficial. Para entender melhor essa lógica urbana, observe a tabela com os principais pontos dessa equação:
O futuro das cidades muradas ainda está em aberto?
Com a tendência dos condomínios horizontais em alta e o home office consolidado, tudo indica que esse modelo ainda vai crescer em muitas cidades médias e regiões turísticas. A combinação de sensação de segurança, lazer completo, valorização imobiliária e vantagens fiscais para os municípios alimenta um ciclo que interessa a incorporadoras, moradores e prefeituras.
Ao mesmo tempo, o avanço desses espaços privados levanta perguntas sobre segregação, uso do espaço público e sustentabilidade ambiental. Quem se interessa por cidades, arquitetura e economia urbana encontra nesse tema um campo fértil de histórias e contradições, um convite aberto para explorar como o Brasil está redesenhando a forma de morar.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)