Equipe perfura 2.800 metros da Antártida, retira cilindros de gelo nunca expostos ao ar moderno e começa a acessar um registro climático de mais de 1,5 milhão de anos
Cilindros levados a laboratórios europeus guardam gases, partículas e isótopos de um período decisivo para os ciclos glaciais.
O gelo antigo da Antártida retirado pelo Beyond EPICA forma um testemunho contínuo de 2.800 metros, com bolhas que mantiveram gases isolados da atmosfera moderna. As análises já confirmam ao menos 1,2 milhão de anos e investigam camadas capazes de ampliar esse limite.
O que a equipe retirou debaixo da Antártida?
Os pesquisadores extraíram um testemunho de gelo contínuo em Little Dome C, na Antártida Oriental. A perfuração atravessou 2.800 metros da camada congelada até alcançar o substrato rochoso sob a geleira.
Cada trecho saiu como um cilindro protegido em temperaturas negativas e transportado em contêineres refrigerados. O ar de interesse científico permanece selado em pequenas bolhas internas até ser liberado de maneira controlada nos laboratórios.

Como as bolhas preservam uma atmosfera tão antiga?
A neve acumulada é comprimida lentamente até se transformar em gelo, aprisionando pequenas amostras do ar existente naquele período. Essas bolhas guardam concentrações antigas de dióxido de carbono, metano e outros gases sem contato direto com a atmosfera atual.
Isótopos de hidrogênio e oxigênio ajudam a estimar temperaturas passadas, enquanto poeira, sais marinhos e partículas vulcânicas revelam mudanças ambientais. A combinação permite comparar gases de efeito estufa, temperatura e duração dos ciclos glaciais.
Quais números definem a dimensão do Beyond EPICA?
A campanha alcançou o leito rochoso em janeiro de 2025, após mais de 200 dias de perfuração distribuídos por quatro temporadas. O trabalho ocorreu a cerca de 3.200 metros de altitude, sob temperaturas médias de verão próximas de −35 °C.
O British Antarctic Survey confirmou um registro contínuo de pelo menos 1,2 milhão de anos. A meta científica é alcançar informações de até 1,5 milhão de anos, embora as camadas basais ainda exijam datação detalhada.
Os principais marcos mostram o alcance técnico e histórico da operação.
O que os laboratórios procuram dentro dos cilindros?
Os laboratórios medem gases, isótopos, partículas e compostos químicos ao longo de cada profundidade. Uma técnica de fluxo contínuo derrete lentamente a parte externa do cilindro e encaminha a água para instrumentos capazes de produzir séries quase ininterruptas.
As bolhas são examinadas por métodos específicos para evitar contaminação moderna. A equipe pretende reconstruir a composição atmosférica durante a Transição do Pleistoceno Médio, quando o ritmo dominante das eras glaciais mudou profundamente.
Cada indicador responde a uma parte diferente da história climática.
Por que um registro de 1,5 milhão de anos seria decisivo?
O intervalo inclui a mudança dos ciclos glaciais de aproximadamente 41 mil para 100 mil anos, ocorrida entre 900 mil e 1,2 milhão de anos atrás. A causa dessa reorganização permanece entre as grandes questões da paleoclimatologia.
Comparar gases e temperatura antes, durante e depois da transição pode mostrar como o sistema climático respondeu a pequenas mudanças orbitais. Também oferece dados independentes para testar modelos usados na projeção de futuras alterações climáticas.
O núcleo pode contribuir para quatro linhas de investigação:
- Relacionar dióxido de carbono e metano às temperaturas antigas.
- Comparar ciclos glaciais de 41 mil e 100 mil anos.
- Testar a sensibilidade climática em condições diferentes das atuais.
- Aprimorar cronologias construídas com sedimentos marinhos.
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Quais limites ainda cercam a idade do gelo?
O recorde contínuo confirmado ultrapassa 1,2 milhão de anos, não 1,5 milhão de forma definitiva. Os aproximadamente 210 metros mais profundos estão deformados, possivelmente misturados ou recongelados, o que dificulta ordenar as camadas e atribuir datas precisas.
A idade máxima dependerá do cruzamento entre gases, isótopos, impurezas e amostras rochosas retiradas sob o gelo. Mesmo com essa incerteza, o Beyond EPICA já ampliou em cerca de 400 mil anos o antigo limite contínuo de 800 mil anos.
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