Entenda as graves denúncias contra o algoritmo do Spotify
Jornalista denuncia estratégias do Spotify para priorizar músicas baratas e driblar royalties
Em artigo publicado na plataforma Substack, o crítico musical e escritor americano Ted Gioia detalhou suspeitas sobre práticas abusivas do Spotify.
Ele relata que, já em 2022, começou a perceber anomalias nas playlists de jazz da plataforma. Artistas desconhecidos preenchiam as seleções, muitos supostamente baseados na Suécia, sede do Spotify. “Quem eram eles? De onde vieram? Eles sequer existiam?”, questiona Gioia.
Os indícios levantaram uma preocupação maior: músicas quase idênticas, mas com títulos gerados aleatoriamente, como “Trumpet Bumblefig” e “Bumble Mistywill”, eram atribuídas a diferentes artistas. Gioia suspeita que faixas como essas sejam criadas por inteligência artificial, com o intuito de evitar pagamentos de royalties a músicos reais. Enquanto isso, os lucros do Spotify subiam significativamente.
A jornalista Liz Pelly, da Harper’s, aprofundou essas denúncias em sua investigação para o livro “Mood Machine: The Rise of Spotify and the Costs of the Perfect Playlist”, com lançamento previsto para janeiro. Pelly revelou um programa interno chamado “Perfect Fit Content” (PFC), no qual o Spotify colabora com produtoras para criar faixas de baixo custo e promovê-las em playlists populares.
Segundo fontes internas, a estratégia foca em gêneros como jazz, ambient e lo-fi, considerados ideais para consumo passivo. “Os ouvintes não perceberiam a diferença”, justificaram gerentes da empresa, de acordo com documentos obtidos por Pelly.
Spoitfy admite álbuns falsos
Em 2017, o Spotify negou categoricamente as alegações de que estaria criando ou promovendo “artistas falsos” em suas playlists para reduzir custos com royalties. Um porta-voz da empresa afirmou: “Não criamos e nunca criamos ‘artistas falsos’ para colocar em playlists do Spotify. Isso é categoricamente falso”.
Mais recentemente, em outubro de 2024, o Spotify reconheceu a existência de álbuns falsos adicionados às páginas de artistas reais sem autorização. A empresa declarou estar ciente do problema e investigando ações contra os responsáveis.
Além disso, o Spotify tem implementado medidas para combater streams artificiais e manipulação de números de reprodução. Em abril de 2024, a plataforma anunciou que cobraria gravadoras e distribuidoras por faixa quando fosse detectado streaming artificial em seus conteúdos.
Em relação ao uso de inteligência artificial (IA) na criação de músicas, o CEO do Spotify, Daniel Ek, afirmou que a empresa não banirá totalmente músicas geradas por IA, desde que não envolvam a imitação de artistas humanos sem consentimento. Ek destacou que a IA pode ser uma ferramenta útil na criação musical, mas práticas como a clonagem de vozes sem autorização são inaceitáveis.
Ted Gioia critica a inação de veículos como New York Times e Rolling Stone, que, segundo ele, ignoraram a questão. Ele compara as práticas atuais do Spotify ao escândalo de “payola” dos anos 1950, quando DJs eram subornados para promover determinadas músicas.
O artigo conclui com um alerta: a concentração do mercado de streaming nas mãos de tecnocratas ameaça a diversidade musical e mina o trabalho de artistas em todo o mundo.
Quem é Liz Pelly
Liz Pelly é uma jornalista americana focada em investigações sobre música e tecnologia.
Seus artigos analisam o impacto das plataformas digitais na indústria musical e nos direitos dos artistas. Autora do livro “Mood Machine: The Rise of Spotify and the Costs of the Perfect Playlist”, Pelly é reconhecida por sua abordagem crítica e rigorosa, trazendo à tona questões negligenciadas pela grande mídia.
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