Em teste inédito contra a acidez dos oceanos, cientistas despejaram milhares de litros de soda cáustica no mar
O teste alterou a química de uma pequena área do oceano e acompanhou seus efeitos
Uma mancha avermelhada surgiu no Golfo do Maine, nos Estados Unidos, enquanto navios e equipamentos acompanhavam uma experiência incomum. Cientistas adicionaram uma solução purificada de soda cáustica no mar para testar se a água poderia absorver mais gás carbônico da atmosfera. O experimento aconteceu em agosto de 2025 e apresentou resultados preliminares positivos, mas ainda não demonstrou que a técnica possa ser usada em grande escala.
Por que cientistas despejaram soda cáustica no oceano?
Os pesquisadores utilizaram hidróxido de sódio, substância conhecida como soda cáustica, para aumentar a alcalinidade da água. Isso modifica o equilíbrio químico do oceano e pode permitir que ele absorva mais dióxido de carbono, conhecido como CO₂.
A experiência foi realizada pelo projeto LOC-NESS, liderado pela Woods Hole Oceanographic Institution. A instituição divulgou os primeiros resultados em fevereiro de 2026, após analisar dados coletados durante a liberação da solução.
O objetivo era observar a reação em condições reais, com correntes marítimas, organismos vivos e mudanças naturais na composição da água.

Como a soda cáustica ajuda o mar a absorver carbono?
A soda cáustica aumenta a alcalinidade da água, isto é, sua capacidade de neutralizar ácidos. No oceano, essa mudança afeta a maneira como o carbono dissolvido se distribui entre diferentes substâncias químicas.
Quando o CO₂ atmosférico entra na água, participa de reações que podem aumentar sua acidez. Ao elevar a alcalinidade, os cientistas procuram favorecer a entrada de mais carbono sem provocar o mesmo aumento de acidez.
O processo depende de algumas etapas:
- Adição controlada: uma solução alcalina é dispersa em uma área delimitada.
- Mudança química: o equilíbrio entre as substâncias dissolvidas na água é alterado.
- Entrada de carbono: as novas condições podem favorecer a absorção de CO₂ da atmosfera.
- Dispersão: as correntes misturam a água tratada com o restante do oceano.
A técnica recebe o nome de aumento da alcalinidade oceânica. Sua eficiência depende da quantidade de carbono realmente absorvida e de quanto tempo esse carbono permanece armazenado.
Por que apareceu uma mancha vermelha na água?
A mancha vermelha foi produzida por um corante usado para rastrear a água. Os cientistas adicionaram a substância para acompanhar o movimento da solução pelas correntes e comparar os resultados com simulações feitas em computador.
A cor não foi provocada pela soda cáustica. Isso diferencia a experiência de fenômenos naturais, como as Cataratas de Sangue da Antártida, onde o ferro dá uma cor avermelhada à água.
No Golfo do Maine, a dispersão durou aproximadamente 6 horas. Depois, a equipe continuou acompanhando a área para verificar as mudanças químicas e os possíveis efeitos sobre os organismos.
O experimento com soda cáustica prejudicou os animais marinhos?
Os primeiros resultados não identificaram impactos biológicos significativos nos organismos avaliados. A equipe comparou amostras retiradas dentro e fora da região tratada, observando bactérias, fitoplâncton, zooplâncton e larvas de animais marinhos.
A ausência de efeitos mensuráveis não significa que qualquer quantidade de soda cáustica seja segura no oceano. O resultado vale para a concentração, a duração e as condições específicas do experimento.
Os pesquisadores também verificaram que os níveis de pH e do corante voltaram às condições de referência dentro do período esperado. Isso mostrou que a alteração química podia ser acompanhada enquanto a água se dispersava.
Esse método já pode ser usado para combater as mudanças climáticas?
A técnica ainda precisa de novos testes antes de uma possível aplicação maior. O experimento demonstrou que a solução pode ser liberada de forma controlada e que a água tratada pode ser acompanhada por sensores e modelos.
A pesquisa encontrou condições favoráveis à absorção adicional de carbono, mas a quantidade efetivamente removida da atmosfera e seu armazenamento duradouro continuam em estudo.
Outro desafio é avaliar possíveis efeitos sobre cadeias alimentares, áreas pesqueiras e organismos que não foram examinados diretamente. A segurança de um experimento pequeno não garante os mesmos resultados em uma intervenção muito maior.
O que os cientistas vão investigar depois do teste?
O próximo passo será reunir as medições químicas e biológicas em estudos científicos completos. Os pesquisadores também precisam calcular quanto CO₂ adicional foi absorvido e determinar quais métodos permitem acompanhar esse carbono ao longo do tempo.
A equipe pretende usar os resultados para orientar futuras pesquisas e decisões sobre a tecnologia. Por enquanto, o experimento no Golfo do Maine representa um teste controlado sobre o funcionamento da técnica, sem comprovar uma solução pronta para reduzir a acidez dos oceanos em escala mundial.
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